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Crítica “O Sorveteiro” (Ice Cream Man) 

Texto: Ygor Monroe
26 de agosto de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Transformar uma ideia deliberadamente absurda em terror exige mais precisão do que parece. Quando crianças são convertidas em pequenas máquinas de violência depois de consumir os produtos de um sorveteiro misterioso, qualquer compromisso com o realismo já foi abandonado antes mesmo dos primeiros minutos. O problema de “O Sorveteiro” não está em abraçar o exagero, mas em acreditar que o exagero, sozinho, é suficiente para sustentar um filme inteiro. Eli Roth constrói uma produção interessada em sangue, mau gosto e provocação, mas raramente encontra algo além dessas três ferramentas.

Crítica “O Sorveteiro” (Ice Cream Man) 
Crítica “O Sorveteiro” (Ice Cream Man) 

A premissa é simples. Durante o verão em uma pacata cidade litorânea, um estranho sorveteiro começa a distribuir picolés capazes de transformar crianças em criaturas extremamente violentas. Enquanto os adultos rapidamente se tornam vítimas de uma carnificina crescente, três jovens que não foram afetados tentam entender a origem do fenômeno e encontrar uma maneira de impedir que a situação ultrapasse os limites da cidade.

Seria terreno fértil para uma comédia de terror completamente descontrolada. Existe algo naturalmente interessante na inversão proposta pelo roteiro, especialmente porque a infância costuma ocupar um espaço de vulnerabilidade dentro do gênero. Roth troca essa lógica e coloca os adultos diante de uma ameaça que, em qualquer outra circunstância, dificilmente seria percebida como perigosa. A ideia poderia funcionar como uma sátira grotesca da inocência, do consumo e até da paranoia adulta, mas “O Sorveteiro” prefere transformar sua premissa em uma extensa coleção de mortes.

Não existe qualquer problema em um filme de terror assumir a violência como sua principal atração. O cinema de gênero possui uma longa tradição construída justamente sobre a exploração dos limites do corpo, do desconforto e da imagem. A diferença está na maneira como essa violência é concebida. Gore eficiente possui ritmo, criatividade visual, construção de expectativa e, principalmente, consciência estética. Mesmo quando existe exclusivamente para divertir uma plateia interessada em mutilações absurdas, há técnica envolvida. É nesse ponto que “O Sorveteiro” começa a demonstrar suas maiores fragilidades.

Roth aposta continuamente no acúmulo. Corpos são destruídos, fluidos ocupam a tela e situações progressivamente mais grotescas aparecem como uma tentativa permanente de superar aquilo que acabou de acontecer. Inicialmente, o excesso ainda encontra algum valor no absurdo. Depois, a repetição enfraquece o próprio impacto. Quando tudo pretende ser chocante, praticamente nada permanece chocante por muito tempo.

O resultado é particularmente curioso porque Roth conhece esse território. Sua filmografia sempre manteve uma relação próxima com o horror corporal, a violência explícita e o prazer quase infantil de testar o limite do espectador. Aqui, porém, essa provocação parece automatizada. Falta construção para que a brutalidade provoque tensão e falta inventividade suficiente para transformar a carnificina em espetáculo visual consistente.

A comparação com produções contemporâneas que fizeram do gore sua identidade torna essa deficiência ainda mais evidente. Filmes como “Terrifier” compreendem que o impacto de uma sequência extrema também nasce do trabalho artesanal empregado em sua execução. Mesmo quando o objetivo é simplesmente provocar repulsa, existe uma preocupação evidente com maquiagem, efeitos práticos, composição e duração. “O Sorveteiro” frequentemente substitui essa materialidade por uma estética digital pouco convincente.

A artificialidade dos efeitos se torna uma barreira entre o espectador e aquilo que deveria causar desconforto. Em vez da sensação física que o horror corporal precisa produzir, diversas cenas parecem excessivamente processadas. Há momentos em que a imagem perde peso, textura e presença, justamente três características fundamentais para uma produção que depende tanto da destruição do corpo humano.

O uso de recursos visuais associados à inteligência artificial generativa também chama atenção negativamente. Independentemente da discussão mais ampla sobre a utilização da tecnologia no cinema, dentro da própria linguagem do filme esses elementos destoam. Algumas passagens possuem uma aparência genérica e visualmente desconectada do restante da produção, contribuindo para uma obra cuja identidade estética parece constantemente fragmentada.

O roteiro tampouco oferece sustentação para compensar essa fragilidade. Os personagens funcionam principalmente como peças necessárias para transportar a narrativa de uma sequência violenta para outra. Relações são apresentadas sem desenvolvimento suficiente, conflitos surgem porque a próxima cena precisa acontecer e boa parte dos diálogos existe para verbalizar informações que a própria imagem poderia comunicar.

Isso compromete especialmente o grupo central. Para que uma história sobre crianças transformadas em assassinas encontre algum tipo de tensão, seria necessário estabelecer relações capazes de produzir conflito emocional. Pais enfrentando os próprios filhos, amizades sendo destruídas e jovens obrigados a confrontar pessoas próximas poderiam ampliar consideravelmente o peso da situação. Sem vínculos suficientemente desenvolvidos, entretanto, a morte deixa rapidamente de representar perda e passa a funcionar como mecanismo de espetáculo.

Também existe uma tentativa insistente de construir humor por meio de referências classicas, expressões de internet e elementos da cultura digital. É uma escolha perigosa porque poucas coisas envelhecem tão rapidamente quanto um roteiro excessivamente interessado em demonstrar que conhece a linguagem do momento. Em “O Sorveteiro”, determinadas piadas já carregam uma sensação de material datado, mesmo dentro de uma produção lançada em 2026.

O humor funciona melhor quando nasce da própria situação. A imagem de adultos desesperados diante de crianças assassinas já contém um potencial cômico enorme. O contraste entre uma cidade ensolarada, o imaginário colorido dos caminhões de sorvete e uma epidemia de violência infantil poderia sustentar sozinho boa parte da personalidade do longa. Roth, porém, frequentemente interrompe esse absurdo orgânico para inserir uma piada, uma referência ou alguma tentativa muito explícita de produzir irreverência.

Existe uma diferença importante entre um filme consciente de sua estupidez e um filme que utiliza essa consciência como justificativa para qualquer decisão. “O Sorveteiro” frequentemente se aproxima da segunda categoria. Saber que uma história é absurda não elimina a necessidade de direção, montagem, personagens e ritmo. A autoconsciência pode potencializar uma comédia de terror, mas não pode substituir sua estrutura.

Com 1h27 de duração, o longa sequer enfrenta o problema de uma metragem excessiva. Ainda assim, a narrativa parece maior do que realmente é porque sua dinâmica se torna previsível rapidamente. Uma situação absurda prepara uma morte, a morte tenta superar a anterior, alguma referência classica aparece e o ciclo começa novamente. A progressão dramática existe, mas dificilmente acompanha a escalada visual que Roth tenta impor.

Há criatividade pontual na concepção de algumas mortes, principalmente quando o filme utiliza elementos associados à infância para produzir imagens deliberadamente grotescas. Nesses momentos, é possível enxergar uma versão mais interessante de “O Sorveteiro”, uma produção que poderia transformar nostalgia infantil em combustível para um pesadelo de humor ácido. São lampejos que desaparecem rapidamente dentro de uma obra preocupada demais em aumentar sua contagem de atrocidades.

A própria figura do sorveteiro sofre com essa abordagem. Um personagem com potencial para ocupar o imaginário do terror acaba limitado pela necessidade de movimentar a premissa. Falta presença, construção e principalmente uma identidade capaz de sobreviver ao choque imediato da ideia. Para um filme chamado “O Sorveteiro”, é significativo que o conceito seja mais memorável do que o personagem responsável por colocá-lo em movimento.

O elenco tenta acompanhar o registro exagerado proposto pela direção. Ari Millen, Benjamin Byron Davis e Karen Cliche entendem que naturalismo dificilmente seria o caminho para um material desse tipo, mas encontram pouco espaço para construir algo realmente particular. A superficialidade dos personagens reduz boa parte das atuações a respostas imediatas ao caos, seja por meio do medo, do choque ou da comicidade.

É justamente essa ausência de consequência que impede “O Sorveteiro” de alcançar algo além de sua provocação inicial. O longa quer incomodar, causar risadas nervosas e testar a tolerância do público ao gore. Em determinados momentos consegue, especialmente para quem procura uma experiência baseada exclusivamente na quantidade de violência apresentada. O problema é que provocar uma reação imediata não significa necessariamente construir uma experiência cinematográfica consistente.

O choque pode ser linguagem. Aqui, muitas vezes, ele se transforma apenas em volume. Eli Roth entrega um filme que parece acreditar que sempre existe espaço para mais sangue, mais mutilação, mais vulgaridade e mais absurdo. Talvez exista. O que falta é uma razão cinematográfica para continuar aumentando tudo isso. Depois que a surpresa da premissa desaparece, sobra uma sucessão de ideias violentas conectadas por uma narrativa funcional e uma estética irregular.

“O Sorveteiro” poderia ser uma comédia de terror deliciosamente irresponsável, daquelas produções que entendem o mau gosto como exercício criativo e transformam suas próprias limitações em personalidade. Em vez disso, termina como um filme barulhento, visualmente inconsistente e estranhamente sem energia, mesmo enquanto espalha corpos e sangue pela tela.

É uma contradição difícil de ignorar. Há movimento constante, violência em abundância e uma evidente vontade de escandalizar, mas pouca vitalidade por trás disso. Para um filme tão empenhado em destruir tudo ao seu redor, “O Sorveteiro” acaba incapaz de deixar grandes destroços depois que os créditos começam.

“O Sorveteiro”
Direção:
Eli Roth
Elenco: Ari Millen, Benjamin Byron Davis e Karen Cliche
Disponível em: cinemas a partir de 3 de setembro de 2026

⭐

Avaliação: 1 de 5.

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Temas: Benjamin Byron DavisCríticaKaren ClicheResenhaReviewri Millen

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