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Crítica: “O Testamento de Ann Lee” (The Testament of Ann Lee)

Texto: Ygor Monroe
28 de dezembro de 2025
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Existe um tipo de cinema que se recusa a pedir licença. Ele entra em cena como ritual, não como espetáculo. “O Testamento de Ann Lee” pertence a essa linhagem rara, onde forma, som, corpo e fé se articulam como matéria viva. O filme de Mona Fastvold observa o nascimento do movimento Shaker com uma seriedade quase litúrgica, mas jamais engessada. Trata-se de uma obra que entende o musical como linguagem espiritual, não como ornamento narrativo.

Crítica: "O Testamento de Ann Lee" (The Testament Of Ann Lee)
Crítica: “O Testamento de Ann Lee” (The Testament Of Ann Lee)

Baseado em fatos históricos, o longa acompanha Ann Lee, interpretada por Amanda Seyfried, figura que atravessou o século XVIII carregando uma ideia tão radical quanto perigosa para sua época: a possibilidade de uma experiência religiosa igualitária, coletiva e conduzida por uma mulher. O filme se concentra no momento exato em que essa crença deixa de ser delírio individual e passa a se estruturar como comunidade, como corpo social e como promessa de mundo.

Fastvold recusa qualquer abordagem folclórica. O que está em jogo nunca é o exotismo da seita, mas a força simbólica de um grupo que encontra no canto e no movimento uma forma de reorganizar a existência. A música surge como pulsação interna, não como número isolado. O canto invade o espaço, contamina os corpos e dissolve fronteiras entre fé e arte. Há algo de profundamente cinematográfico nesse gesto, porque o filme entende que imagens também podem cantar.

Daniel Blumberg assina uma trilha que dialoga diretamente com os hinos tradicionais Shaker, mas os transforma em experiência sensorial contemporânea. O som vibra como oração coletiva, sempre em sintonia com a coreografia de Celia Rowlson-Hall, que constrói movimentos que parecem brotar da necessidade física de pertencimento. Nada ali busca beleza convencional. Tudo busca verdade emocional.

Amanda Seyfried entrega uma das performances mais rigorosas de sua carreira. Sua Ann Lee nunca se impõe pelo discurso inflamado, mas pela convicção silenciosa. O trabalho vocal impressiona, não pela técnica isolada, mas pela entrega espiritual. Há uma comunhão evidente entre atriz, trilha e encenação. Seyfried interpreta menos uma líder religiosa e mais uma ideia em estado bruto.

Visualmente, o filme aposta em uma fotografia que privilegia o naturalismo sem abrir mão do sublime. A câmera observa, acompanha e participa. Os corpos em cena se organizam como arquitetura viva, reforçando o tema central da obra. A comunidade como estrutura estética. A fé como gesto coletivo. O sonho utópico como construção diária, frágil e ameaçada.

Ao dialogar com obras históricas recentes que tratam da fundação simbólica dos Estados Unidos, “O Testamento de Ann Lee” se diferencia por entender que toda utopia carrega tensão. A promessa de um novo mundo sempre convive com a violência estrutural do mundo antigo. Fastvold não romantiza esse conflito, mas o incorpora à narrativa com maturidade.

Mais do que um filme sobre religião, trata-se de um estudo sobre liderança feminina, criação artística e desejo de reorganização social. A fé aqui serve como catalisador, nunca como dogma. O filme respeita profundamente a crença de seus personagens, mas demonstra ainda mais respeito pela capacidade humana de transformar ideal em ação.

“O Testamento de Ann Lee” se impõe como uma experiência que cresce com o tempo. Cada nova visita revela camadas adicionais de som, gesto e significado. Cinema em estado ritualístico, onde o espectador participa da cerimônia. Uma obra que reafirma o musical como uma das formas mais potentes da linguagem cinematográfica quando tratado com seriedade, risco e entrega.

“O Testamento de Ann Lee”
Direção:
Mona Fastvold
Roteiro: Mona Fastvold e Brady Corbet
Elenco: Amanda Seyfried, Lewis Pullman, Tim Blake Nelson
Disponível nos cinemas a partir de 12 de março de 2026

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 4 de 5.

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Temas: Amanda SeyfriedCinemaCríticaLewis PullmanResenhaReviewTim Blake Nelson

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