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Crítica: “O Último Nascer do Sol” (The Last Sunrise)

Texto: Ygor Monroe
2 de setembro de 2026
em Amazon Prime Video, Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas, Streaming

Existe um tipo muito específico de filme que começa praticamente prometendo que alguém terá o coração partido antes dos créditos finais. “O Último Nascer do Sol” não faz muito esforço para esconder que pertence a essa categoria. Há uma ilha paradisíaca, um verão que inevitavelmente terminará, uma protagonista tentando experimentar uma vida maior do que aquela permitida por sua condição de saúde e, claro, um rapaz espanhol bonito surgindo no momento exato para transformar férias em romance. É uma combinação tão calculada que seria fácil recebê-la com cinismo, mas o filme de Carlson Young possui consciência suficiente da fantasia que está vendendo para encontrar algum encanto justamente dentro de sua previsibilidade.

Crítica: “O Último Nascer do Sol” (The Last Sunrise)
Crítica: “O Último Nascer do Sol” (The Last Sunrise)

Baseado no romance homônimo, o longa acompanha Ry, interpretada por Maia Reficco, uma universitária que convive com uma doença crônica e viaja para Maiorca ao lado da mãe, vivida por Eva Longoria. O que deveria funcionar como uma temporada de descanso acaba ganhando outra dimensão quando ela conhece Julián, personagem de Fernando Lindez, e começa a experimentar uma relação que desafia a maneira controlada como aprendeu a organizar a própria existência. Enquanto o romance cresce, sua saúde apresenta novos problemas e antigas questões familiares começam a ocupar um espaço cada vez maior naquela viagem.

É difícil não perceber rapidamente para onde “O Último Nascer do Sol” pretende caminhar. O roteiro espalha suas peças de maneira bastante evidente e trabalha dentro de uma estrutura que o cinema romântico já conhece intimamente. Existe o encontro, a aproximação, o encantamento quase instantâneo, as paisagens bonitas, os conflitos familiares, aquilo que não foi dito e a ameaça permanente de que o tempo está acabando. A previsibilidade, porém, não chega a destruir o filme porque existe alguma honestidade na maneira como ele assume aquilo que deseja ser.

Não estamos diante de uma obra interessada em desconstruir o romance de verão. Pelo contrário, “O Último Nascer do Sol” abraça esse imaginário com gosto. Julián é construído quase como a materialização perfeita de uma fantasia mediterrânea, enquanto Ry encontra nele a possibilidade de abandonar momentaneamente a identidade de alguém cuja rotina precisa ser constantemente negociada com o próprio corpo. É uma dinâmica bastante conhecida, mas Maia Reficco consegue impedir que sua personagem seja resumida à doença ou à função de se apaixonar.

Esse talvez seja o elemento mais importante para que o longa não desmorone sob o peso dos próprios clichês. Reficco possui uma presença muito natural diante da câmera e consegue transitar entre vulnerabilidade, desejo, medo e certa impulsividade sem transformar Ry em uma coleção de características projetadas para provocar lágrimas. Existe personalidade ali, inclusive quando algumas decisões do roteiro parecem excessivamente programadas para conduzir a personagem até determinada conclusão emocional.

Fernando Lindez recebe uma missão consideravelmente mais simples. Julián precisa ser charmoso, misterioso na medida certa e suficientemente irresistível para que o público compre a velocidade daquela conexão. O ator cumpre bem essa função e a química com Reficco ajuda bastante. O romance não surpreende, mas funciona, e filmes desse tipo dependem muito mais dessa química do que de qualquer tentativa desesperada de reinventar a roda.

É curioso, entretanto, que uma história tão dependente da fantasia de Maiorca nem sempre aproveite completamente o potencial do próprio cenário. Existem imagens bonitas e a fotografia evidentemente sabe que está trabalhando em um lugar privilegiado, mas a ilha poderia ter sido muito mais do que uma coleção elegante de fundos para encontros românticos. Falta alguma relação mais profunda entre aqueles espaços e a experiência de Ry, principalmente porque o roteiro trata a viagem como uma oportunidade extraordinária de ruptura em sua vida.

Também existe uma escolha linguística que produz certo estranhamento. A predominância do inglês em uma narrativa tão profundamente associada à Espanha contribui para uma sensação ocasional de artificialidade, como se Maiorca estivesse sendo utilizada menos como um lugar concreto e mais como uma ideia internacionalmente comercializável de verão europeu. Não chega a comprometer o filme, mas reforça a impressão de que a produção prefere uma versão cuidadosamente acessível daquele universo em vez de mergulhar completamente nele.

Se a paisagem poderia receber maior personalidade, a música entende perfeitamente a tarefa. A seleção musical ajuda a vender juventude, desejo e liberdade com uma eficiência que algumas cenas sozinhas não alcançariam. Bad Bunny, Karol G e Sabrina Carpenter dentro de uma mesma trilha praticamente funcionam como um atalho emocional para a atmosfera que o longa procura construir. Existe um entendimento bastante contemporâneo de como música pop pode estabelecer imediatamente uma sensação de tempo, comportamento e energia sem precisar transformar cada momento em videoclipe.

Eva Longoria ocupa um espaço particularmente interessante. Existe algo quase engraçado em perceber que chegamos ao momento em que uma atriz tão associada durante décadas ao papel de protagonista romântica agora interpreta a mãe da protagonista romântica. Felizmente, o filme oferece material suficiente para que sua presença não pareça apenas uma escolha de elenco destinada a provocar reconhecimento.

A relação entre mãe e filha é fundamental para a dimensão dramática da história e permite que “O Último Nascer do Sol” encontre conflitos mais interessantes do que aqueles presentes no romance. Existe amor entre as duas, mas também existe o desgaste provocado por anos de preocupação, proteção e decisões tomadas sob o argumento de preservar alguém. A doença de Ry inevitavelmente afeta todos ao redor dela, e o filme funciona melhor quando percebe que cuidado também pode se transformar em controle, mesmo quando nasce das melhores intenções.

É justamente nessa relação que os segredos familiares começam a ganhar importância. O roteiro utiliza algumas dessas informações de maneira previsível, mas elas ajudam a ampliar a discussão sobre autonomia. Ry não está simplesmente tentando viver um romance antes que o verão termine. Ela está tentando descobrir até que ponto sua vida realmente pertence a ela depois de passar tanto tempo cercada por pessoas que, por medo de perdê-la, aprenderam a decidir aquilo que acreditam ser melhor para seu futuro.

O conflito mais interessante de “O Último Nascer do Sol” não está entre viver e morrer, mas entre estar vivo e conseguir efetivamente participar da própria vida. Essa diferença permite que a doença da protagonista encontre alguma função dramática além da utilização mais fácil do sofrimento como mecanismo para emocionar o público.

O filme nem sempre consegue sustentar essa complexidade. Em determinados momentos, a necessidade de avançar o romance e preparar suas grandes cenas emocionais simplifica questões que mereciam mais espaço. É justamente por isso que uma duração um pouco maior poderia beneficiar a narrativa. Algumas relações avançam depressa, determinados conflitos são resolvidos com facilidade e existe uma sensação de que o encerramento chega quando o filme ainda poderia permanecer alguns minutos ao lado daqueles personagens.

Um epílogo, principalmente, faria diferença. Depois de investir tanto na ideia de que aquele verão modifica a percepção de Ry sobre o próprio futuro, existe uma curiosidade natural sobre aquilo que permanece quando a fantasia das férias acaba. O longa prefere preservar parte dessa experiência dentro da bolha romântica que construiu, uma escolha compreensível, mas que deixa uma pequena sensação de interrupção.

Isso não significa que o encerramento seja emocionalmente ineficiente. Carlson Young sabe exatamente quais botões está apertando e não demonstra qualquer vergonha disso. O espectador provavelmente percebe o movimento antes de ele acontecer, mas antecipar uma emoção não significa necessariamente deixar de senti-la. Existe uma diferença entre surpresa e impacto, e “O Último Nascer do Sol” está muito mais interessado no segundo.

É também por isso que a previsibilidade acaba sendo uma crítica menos devastadora do que poderia parecer. Quem entra em uma história sobre uma jovem, um espanhol atraente, uma ilha paradisíaca e um verão transformador dificilmente está esperando uma desconstrução radical das convenções românticas. Existe certo conforto justamente em reconhecer os códigos e permitir que o filme execute aquilo que prometeu.

O problema surge quando essa familiaridade impede que a produção encontre uma identidade realmente própria. “O Último Nascer do Sol” possui um elenco carismático, uma trilha sonora extremamente eficiente e uma protagonista que consegue carregar emocionalmente a história, mas frequentemente parece satisfeito demais em permanecer dentro de uma fórmula que poderia suportar escolhas um pouco mais ousadas.

Ainda assim, há alguma coisa agradável em um filme que não tenta fingir ser diferente daquilo que é. “O Último Nascer do Sol” entende que romances de verão sobrevivem justamente porque carregam uma data de validade desde o primeiro encontro. O encanto está na intensidade produzida por essa contagem regressiva, na possibilidade de viver durante algumas semanas algo que talvez nunca funcionasse sob a normalidade da vida cotidiana.

Para Ry, essa lógica ganha um peso ainda maior porque o tempo nunca foi exatamente uma abstração. Sua condição transformou futuro, risco e possibilidade em questões concretas muito antes de Julián aparecer. O romance funciona, portanto, menos como uma solução para sua vida do que como um impulso para que ela reivindique o direito de experimentá-la.

“O Último Nascer do Sol” dificilmente será lembrado como uma reinvenção do gênero e nem parece possuir essa ambição. É um romance bonito, previsível e emocionalmente calculado, mas sustentado por uma Maia Reficco especialmente carismática e por uma compreensão sincera da fantasia que deseja entregar. Talvez Maiorca merecesse mais espaço, talvez o roteiro precisasse de alguns minutos adicionais e talvez Julián seja exatamente o tipo de personagem que só poderia existir durante férias de verão no cinema. Mas convenhamos, parte da graça está justamente aí. Algumas histórias não precisam durar para sempre para justificar as duas horas que passamos acreditando nelas.

“O Último Nascer do Sol”
Direção:
Carlson Young
Elenco: Maia Reficco, Fernando Lindez e Eva Longoria
Disponível em: Amazon Prime Video

⭐⭐⭐

Avaliação: 3 de 5.

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Temas: CríticaEva LongoriaFernando LindezMaia ReficcoResenhaReview

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