Registrar a reunião do Oasis parece, inicialmente, uma tarefa cinematográfica bastante simples. Colocar Liam e Noel Gallagher novamente no mesmo palco depois de tantos anos já seria suficiente para produzir imagens carregadas de significado. As multidões fariam o restante. Bastaria apontar algumas câmeras para os shows da turnê “Oasis Live ’25”, intercalar apresentações com imagens dos bastidores e permitir que milhares de pessoas cantando juntas produzissem a emoção necessária. “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, felizmente, percebe que documentar esse acontecimento exige olhar para algo maior do que os dois irmãos que estão no palco, principalmente porque a reunião do Oasis nunca pertenceu exclusivamente ao Oasis.

Existe uma dimensão curiosa na maneira como determinadas bandas deixam de pertencer somente ao período histórico em que surgiram. Suas músicas continuam circulando, atravessam gerações, acumulam novas interpretações e passam a integrar memórias de pessoas que sequer estavam presentes quando aqueles discos foram lançados. Quando uma banda desse tamanho desaparece, a ausência também começa a fazer parte de sua identidade. No caso do Oasis, foram anos em que a possibilidade de Liam e Noel dividirem novamente um palco parecia existir em algum lugar entre desejo coletivo, especulação permanente e uma piada que ninguém sabia exatamente quando terminaria. “Oasis: Don’t Look Back in Anger” funciona melhor quando entende que não está simplesmente registrando o retorno de uma banda, mas tentando compreender o tamanho emocional que essa ausência adquiriu.
A turnê “Oasis Live ’25”, realizada em 2025 com ingressos esgotados em diferentes partes do mundo, fornece ao documentário uma estrutura naturalmente grandiosa. Estádios lotados, deslocamentos internacionais e multidões reunidas transformam cada apresentação em um espetáculo visual praticamente pronto para o cinema. Dylan Southern e Will Lovelace, no entanto, não ficam completamente seduzidos pela monumentalidade dessas imagens. O palco importa, evidentemente, mas a câmera demonstra uma curiosidade constante por aquilo que acontece do outro lado, especialmente pela forma como diferentes pessoas experimentam a mesma música a partir de histórias completamente particulares.
Talvez seja essa a decisão formal mais importante do documentário. Quando milhares de pessoas cantam juntas, Southern e Lovelace poderiam enquadrar Liam Gallagher como centro absoluto daquele acontecimento, mas frequentemente preferem observar quem está assistindo. Rostos aparecem atravessados por lágrimas, sorrisos, abraços e uma espécie de incredulidade que não precisa ser verbalizada para ser compreendida. São pais, filhos, amigos, pessoas que acompanharam a banda desde os anos 1990 e outras que conheceram o Oasis quando a separação já era parte consolidada de sua história. O público deixa de funcionar como cenário e passa a ocupar uma posição fundamental na construção narrativa do filme.
Essa escolha modifica profundamente a natureza das sequências musicais. Elas não existem apenas para reproduzir cinematograficamente a experiência de um show, mas para demonstrar como uma obra permanece viva depois de ultrapassar o momento em que foi criada. Uma música lançada décadas atrás não chega ao presente intacta porque carrega tudo aquilo que aconteceu enquanto continuou sendo ouvida. É justamente por isso que observar o público se torna tão importante quanto observar os Gallagher. Há pessoas que parecem reencontrar uma parte específica da juventude, enquanto outras estão construindo naquele instante uma memória que provavelmente carregarão durante muitos anos. Há famílias atravessando gerações dentro do mesmo estádio, e o filme encontra nesses contrastes uma maneira muito mais interessante de dimensionar o Oasis do que simplesmente enumerar vendas, recordes ou explicar novamente sua importância para o britpop.
Os números conseguem demonstrar popularidade, mas possuem limitações quando a intenção é explicar pertencimento. “Oasis: Don’t Look Back in Anger” encontra sua maior força justamente ao perceber essa diferença. A dimensão do Oasis é apresentada menos como uma questão estatística e mais como resultado da relação que as pessoas desenvolveram com aquelas músicas. O documentário consegue transformar a grandiosidade dos estádios em algo paradoxalmente íntimo porque procura histórias individuais dentro de uma experiência coletiva.
As imagens dos ensaios e bastidores cumprem uma função completamente diferente. Depois da escala quase desproporcional dos shows, observar Liam e Noel em espaços menores provoca uma mudança imediata de perspectiva. Aqueles homens cuja reconciliação movimentou uma indústria inteira precisam novamente dividir ambientes, decisões, conversas e silêncios. O documentário demonstra inteligência ao não transformar cada interação em uma investigação psicológica sobre o relacionamento dos dois, mesmo sabendo que existe uma enorme curiosidade pública ao redor dessa dinâmica.
Durante anos, a relação entre Liam e Noel Gallagher foi tratada quase como uma narrativa independente da própria música. Brigas, provocações públicas e declarações atravessadas alimentaram uma mitologia tão conhecida quanto determinados episódios da carreira da banda. A tentação de transformar o reencontro em uma espécie de sessão de terapia cinematográfica seria enorme, mas o filme prefere observar os irmãos sem exigir que cada gesto seja acompanhado por uma explicação sobre o passado. Existe uma quantidade enorme de história simplesmente no fato de Liam e Noel estarem novamente ocupando o mesmo quadro, e Southern e Lovelace demonstram consciência suficiente para confiar na força dessas imagens.
Esse é um dos elementos mais cinematográficos do projeto porque a imagem consegue resolver aquilo que uma entrevista poderia tornar excessivamente didático. Liam está ali ao lado de Noel e, depois de tudo aquilo que aconteceu entre eles, os dois estão ensaiando, trabalhando e subindo novamente ao mesmo palco. O espectador não precisa receber constantemente uma explicação sobre o significado daquela proximidade porque o próprio documentário construiu contexto suficiente para que um olhar, uma conversa aparentemente banal ou a presença dos dois em cena carregue uma história muito maior.
Naturalmente, existe uma narrativa de reconciliação atravessando “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, mas o longa é mais interessante quando não tenta transformar essa reconciliação em um conto de fadas. A reunião não apaga o passado e tampouco precisa apagá-lo. Existe uma diferença fundamental entre reconciliação e esquecimento, e o significado desse retorno depende justamente da existência de tudo aquilo que aconteceu anteriormente. Se Liam e Noel nunca tivessem rompido, esses shows seriam apenas novos capítulos de uma carreira contínua. O impacto da turnê nasce precisamente da interrupção e de tudo aquilo que parecia impossível durante esse intervalo.
É nesse ponto que o documentário começa a trabalhar uma de suas ideias mais interessantes: o tempo. Não apenas o período que separou o fim do Oasis de sua reunião, mas o tempo vivido pelas pessoas que continuaram ouvindo a banda enquanto Liam e Noel permaneciam separados. A música seguiu existindo sem depender da presença conjunta de seus criadores e encontrou novas audiências, atravessando famílias, amizades, relacionamentos e diferentes momentos da vida de milhões de ouvintes.
Essa perspectiva permite que o filme coloque diferentes gerações dentro do mesmo espaço sem estabelecer uma disputa por legitimidade. Não existe interesse em determinar quem é suficientemente fã para participar daquele momento. Quem acompanhou a banda nos anos 1990 pode dividir o estádio com alguém que descobriu o Oasis décadas depois, e a experiência não precisa ser idêntica para possuir valor. A turnê se transforma em um ponto de encontro entre memórias que começaram em períodos completamente diferentes, mas que encontram uma linguagem comum quando a música começa.
Esse olhar também impede que “Oasis: Don’t Look Back in Anger” funcione exclusivamente como um presente para fãs. Evidentemente, quem possui uma relação anterior com o grupo experimentará determinadas imagens com uma intensidade diferente. O documentário sabe disso e utiliza essa memória coletiva como parte de sua linguagem, mas existe material suficiente para que alguém sem ligação profunda com o Oasis compreenda por que aquela reunião mobilizou tantas pessoas. O filme não exige devoção prévia para funcionar porque sua principal questão não é apenas quem são Liam e Noel Gallagher, mas o que acontece quando uma obra consegue ocupar um espaço tão grande na memória coletiva.
Esse é um mérito considerável porque documentários musicais frequentemente confundem admiração com argumentação. Partem do princípio de que o público já considera determinado artista extraordinário e passam duas horas reafirmando essa conclusão. Southern e Lovelace possuem diante das câmeras um objeto de devoção evidente, mas encontram algo mais produtivo quando investigam os mecanismos dessa devoção. A permanência do público, a capacidade de determinadas músicas continuarem reunindo dezenas de milhares de desconhecidos e o significado atribuído ao reencontro dos irmãos se tornam elementos mais interessantes do que simplesmente repetir a importância histórica do Oasis.
Há também uma inteligência particular na maneira como o documentário trabalha a nostalgia. “Oasis: Don’t Look Back in Anger” poderia facilmente transformar 2025 em uma tentativa de recriar os anos 1990, mas existe consciência suficiente de que isso seria impossível. Liam e Noel envelheceram, o público envelheceu e a própria relação cultural com o Oasis mudou. Mesmo aqueles que descobriram a banda posteriormente chegam aos shows carregando uma imagem construída por décadas de registros, histórias, conflitos e músicas que sobreviveram ao próprio grupo. A nostalgia funciona melhor quando o filme reconhece que voltar não significa recuperar aquilo que existia, mas encontrar no presente algo que permaneceu importante apesar da passagem do tempo.
Essa percepção também aparece na maneira como o longa registra os shows. A montagem precisa equilibrar duas responsabilidades complicadas. Existe a necessidade de preservar a dimensão espetacular da “Oasis Live ’25”, mas também a obrigação de evitar que o documentário se transforme simplesmente em um filme-concerto. Southern e Lovelace encontram uma solução ao utilizar as apresentações como continuidade dos assuntos desenvolvidos nos bastidores. A música não interrompe a narrativa para oferecer um espetáculo, mas frequentemente conclui emocionalmente algo que vinha sendo construído anteriormente.
É justamente aí que a relação entre montagem e música se torna fundamental. Uma apresentação pode começar como registro de palco e rapidamente se transformar em observação do público. Um rosto específico surge entre milhares de pessoas e, durante alguns segundos, consegue resumir aquilo que páginas de depoimentos talvez não explicassem. O filme entende que a experiência coletiva é formada por milhares de experiências particulares acontecendo simultaneamente, e essa consciência oferece às imagens de multidão uma função narrativa muito mais rica.
Ainda assim, “Oasis: Don’t Look Back in Anger” não está completamente livre da reverência pelo próprio objeto. Existem momentos em que a emoção parece organizada com precisão demais para conduzir o espectador a determinada reação. A montagem sabe exatamente quando procurar um abraço, uma lágrima ou um olhar emocionado, e ocasionalmente essa insistência ameaça transformar espontaneidade em mecanismo. É uma linha difícil para qualquer documentário sobre um acontecimento que já nasce carregado de emoção, e o longa nem sempre consegue atravessá-la sem algum sentimentalismo.
Também existe uma tendência a simplificar a reconciliação dos Gallagher quando ela é colocada dentro de uma narrativa universal sobre união. O filme é mais forte quando permite que a relação dos irmãos permaneça particular, cheia de uma história que pertence especificamente a eles. Quando tenta ampliar esse reencontro para uma mensagem excessivamente abrangente sobre humanidade, perdão e capacidade de convivência, aproxima-se de uma interpretação mais confortável do que propriamente complexa.
Isso não significa que a ideia de reconciliação seja falsa ou inadequada. Pelo contrário, ela está inevitavelmente presente na imagem de Liam e Noel novamente juntos. O problema aparece quando o documentário tenta explicar demais aquilo que já havia conseguido comunicar de maneira muito mais sofisticada visualmente. O filme não precisa transformar os Gallagher em símbolos universais do perdão porque vê-los compartilhando novamente um palco já possui força suficiente.
É justamente essa confiança nas imagens que separa os melhores momentos dos mais convencionais. Quando “Oasis: Don’t Look Back in Anger” observa, encontra nuances. Quando tenta explicar o significado daquilo que observou, algumas dessas nuances desaparecem. Felizmente, Southern e Lovelace passam tempo suficiente entre palcos, bastidores e multidões para que a experiência permaneça muito mais interessante do que uma simples celebração promocional da reunião.
A duração de 2h08 também permite que o documentário construa uma dimensão adequada para aquilo que registra. Não faria sentido tratar um acontecimento dessa escala como uma pequena curiosidade musical. Ao mesmo tempo, existem momentos em que determinados sentimentos começam a ser reiterados, principalmente porque a reação do público inevitavelmente se repete entre diferentes cidades. O desafio está justamente em encontrar particularidades dentro de uma emoção coletiva semelhante, e o filme consegue fazer isso na maior parte do tempo.
Liam e Noel permanecem, evidentemente, no centro dessa história, mas a decisão mais inteligente de “Oasis: Don’t Look Back in Anger” é compreender que eles não precisam ocupar o centro de todas as imagens. A reunião aconteceu no palco, mas aquilo que transformou a “Oasis Live ’25” em algo maior aconteceu entre palco e plateia. Uma banda pode decidir voltar. O significado desse retorno, porém, depende das pessoas que continuaram esperando.
“Oasis: Don’t Look Back in Anger” encontra seu melhor cinema justamente nesse espaço entre o acontecimento e a memória. O documentário registra uma reunião histórica, mas consegue ir além dela quando percebe que o verdadeiro assunto não é simplesmente o retorno de Liam e Noel Gallagher. É a estranha capacidade que a música possui de permanecer enquanto todo o restante muda.
No fim, talvez seja essa permanência que explique a força das imagens registradas por Southern e Lovelace. O Oasis que retorna em “Oasis Live ’25” não poderia ser exatamente aquele que desapareceu tantos anos antes, assim como o público que esperou por esse retorno também não permaneceu igual. O tempo passou para todos. Ainda assim, quando aquelas pessoas se encontram novamente diante das mesmas músicas, alguma coisa permanece reconhecível. O documentário entende que não existe maneira de voltar ao passado, mas existe algo profundamente cinematográfico em observar milhares de pessoas descobrindo que certas partes dele continuaram acompanhando suas vidas até o presente.
“Oasis: Don’t Look Back in Anger”
Direção: Dylan Southern e Will Lovelace
Elenco: Liam Gallagher, Noel Gallagher e Paul Arthurs
Disponível em: cinemas brasileiros
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






