Ícone do site Caderno Pop

Crítica: “Olho por Olho” (Eye for an Eye)

Existem histórias que nascem de provérbios antigos. “Olho por Olho” carrega no próprio título uma promessa bíblica de punição. Justiça como espelho. Dor como moeda de troca. E quando a vingança ganha forma nos pesadelos, ninguém acorda ileso.

Crítica: “Olho por Olho” (Eye for an Eye)

O longa acompanha Anna, interpretada por Whitney Peak, uma jovem que troca Nova York pelo calor abafado da Flórida após a morte trágica dos pais. O luto já seria peso suficiente, mas o roteiro adiciona camadas de trauma familiar que atravessam gerações. A avó May, vivida por S. Epatha Merkerson, é uma presença fria, quase espectral dentro da própria casa. Cega, amarga, cercada de silêncios. Há um quarto trancado. Há regras não ditas. Há ressentimentos que atravessam décadas.

Antes mesmo de mergulhar na trama principal, o filme apresenta a lenda do Sandman. Não o personagem adocicado das histórias infantis, mas uma entidade que pune agressores arrancando seus olhos enquanto choram de dor. A imagem é forte. Um relógio de areia escuro recebendo globos oculares como se fossem troféus macabros. A metáfora é clara. Quem escolhe não ver o sofrimento alheio perde o direito à própria visão.

A direção de Colin Tilley investe em atmosfera. Florestas densas, docas silenciosas, árvores marcadas por nomes talhados na madeira como confissões públicas. A fotografia entende o poder do fundo de quadro. A criatura surge muitas vezes como presença periférica, quase escondida, criando um desconforto que funciona melhor do que sustos fáceis.

O grupo de adolescentes que orbita Anna é construído em tons de cinza. Shawn, vivido por Finn Bennett, não é um vilão de manual. É o típico valentão inseguro que encontra no álcool uma desculpa para a crueldade. Julie prefere o silêncio cúmplice à confrontação. Anna observa, hesita, participa. O bullying aqui não é caricatura, é omissão coletiva. E essa escolha dá ao filme um comentário social interessante, ainda que nem sempre aprofundado.

O filme acerta ao relacionar a violência adolescente com traumas herdados. May foi vítima no passado. Tornou-se rígida, amarga, incapaz de demonstrar afeto. Patti, interpretada por Golda Rosheuvel, carrega suas próprias cicatrizes. A vingança sobrenatural nasce de feridas muito humanas.

Whitney Peak sustenta a narrativa com uma atuação contida, marcada por olheiras e silêncios. Sua Anna não é heroína tradicional. É alguém tentando sobreviver emocionalmente enquanto o mundo ao redor desmorona. Há mérito nessa escolha.

Tecnicamente, o uso de efeitos práticos na criatura, com Ben Bladon dando corpo físico à entidade, adiciona textura que o CGI sozinho não alcançaria. O design sonoro ajuda a construir tensão, com ruídos que antecedem aparições e ampliam o desconforto. O problema está no ritmo. A queima lenta exige recompensa proporcional. E nem sempre ela vem.

Quando a narrativa finalmente engrena, já se perdeu parte do impacto. A mitologia é promissora, o conceito é potente, mas falta risco real. Falta sensação de perda irreversível. Sem isso, o terror se torna exercício estético.

“Olho por Olho” é um filme que dialoga com culpa, trauma e retaliação, mas hesita em mergulhar fundo. Funciona melhor como estudo de atmosfera do que como experiência visceral. Talvez encontre público entre fãs de terror sobrenatural com tempero psicológico. Para os demais, pode soar como mais uma assombração que passa rápido demais.

A vingança pode ser cega. O cinema, não deveria ser.

“Olho por Olho”
Direção
: Colin Tilley
Elenco: Whitney Peak, Finn Bennett, Carson Minniear, Golda Rosheuvel, S. Epatha Merkerson
Disponível em: HBO Max

Avaliação: 3 de 5.

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile