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Crítica: “Os Donos do Jogo”

Há algo de magnético em “Os Donos do Jogo”. A série cria um Rio de Janeiro onde o passado respira dentro de cada esquina, como se as paredes ainda carregassem o cheiro das apostas clandestinas que ajudaram a moldar a cidade. O trabalho de Heitor Dhalia funciona como um mapa de tensões familiares, políticas e criminais, onde cada movimento tem preço e cada silêncio esconde um cálculo. O projeto assume o desafio de transformar o Jogo do Bicho em dramaturgia sem cair na caricatura. E, no meio desse caos organizado, descobre um ritmo próprio que deixa o espectador atento, quase cúmplice.

Crítica: “Os Donos do Jogo”

A narrativa se apoia na guerra entre quatro famílias tradicionais. Moraes, Guerra, Fernandez e Saad funcionam como peças de um tabuleiro que nunca se estabiliza. O roteiro entende que poder é herança, mas também é disputa, e mergulha em uma dinâmica geracional onde cada personagem carrega um traço herdado e uma ambição inédita. A legalização iminente dos jogos de azar, aliada à aproximação de um grupo estrangeiro, empurra tudo para um terreno mais explosivo. O resultado é uma série que tenta olhar para o futuro enquanto ainda lida com fantasmas muito vivos.

A força da obra está no modo como equilibra ficção e realidade. A série não busca reconstituir fatos, mas traduzir comportamentos. Personagens inspirados em bicheiros reais aparecem filtrados pela dramaturgia, e o acerto está justamente aí: não são biografias, são arquétipos. São fragmentos de um Brasil que mistura moralidade seletiva, violência estratégica e política de bastidor. A direção aposta em realismo sem perder o pulso cinematográfico, e isso faz a série soar contemporânea, mesmo mergulhada em raízes históricas.

Ainda assim, algumas arestas chamam atenção. Os atores mais jovens carregam certa rigidez nos primeiros episódios. Parecem ensaiar mais do que viver. Xamã, porém, surge como ponto de virada, encontrando espontaneidade onde faltavam nuances. Seu personagem poderia ter camadas mais profundas, mas a energia que traz salva momentos que poderiam cair no óbvio. Já o Profeta e o Búfalo funcionam como símbolos de duas masculinidades em conflito: uma movida pela inteligência calculada e outra pela força quase impulsiva. A série promete evoluir esses dois caminhos em temporadas futuras, e esse é um ponto que deve ganhar fôlego.

Do outro lado do tabuleiro, os veteranos entregam peso dramático. Galego, Xavier e Leila dominam a cena com uma naturalidade que lembra o espírito velho do jogo, aquele que sobreviveu a décadas de operação clandestina. São eles que ancoram a série e dão densidade ao universo construído. A sensação é que essas figuras carregam histórias demais nos olhos, e por isso bastam poucos minutos de tela para convencer.

E então surgem as mulheres. O grande trunfo da série está na maneira como posiciona as personagens femininas como engrenagens essenciais do sistema. Elas são estratégia, leitura fina de risco, articulação silenciosa. A série entende que, no Jogo do Bicho, o poder sempre teve vozes ocultas, e dá a essas vozes presença ativa. As mulheres movem o tabuleiro, mesmo quando os homens acreditam estar no comando.

O ritmo da temporada é controlado, quase discreto em alguns momentos. E isso pode surpreender quem espera explosões cinematográficas. A série parece mais interessada em construir o terreno do que em entregar clímax imediatos. É a escolha de quem está preparando algo maior. O Brasil real, afinal, é muito mais brutal do que qualquer ficção de estreia. A primeira temporada assume o papel de apresentação do universo e dos códigos internos dessas famílias.

“Os Donos do Jogo” cria um tipo de suspense que cresce por baixo da superfície, como água infiltrando concreto. Nada ali corre sem intenção. Nada é jogado à toa. Se a série decidir escalar o caos nas próximas temporadas, tem material suficiente para transformar pequenos conflitos em tempestades inteiras.

No final, o que fica é a sensação de território vivo. A série constrói um Brasil clandestino que não existe apenas no passado, mas no agora. Um lugar em que tradição e crime caminham lado a lado, e onde as regras são reinventadas sempre que alguém ousa desafiar o tabuleiro. É um projeto sólido, bem executado e consciente de onde pisa. E deixa o público preparado para um conflito muito maior do que o que foi mostrado até aqui.

Avaliação: 3.5 de 5.

“Os Donos do Jogo”
Ano:
2024
Criação: Heitor Dhalia, Bernardo Barcelos, Bruno Passeri
Elenco: André Lamoglia, Adriano Garib, Pedro Lamin
Disponível em: Netflix

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