O frio que rasga a pele também rasga escolhas. Quando o horizonte vira um deserto branco e o vento passa a ser o único som constante, qualquer decisão deixa de ser abstrata e vira sobrevivência em estado bruto. Nesse ambiente onde o silêncio pesa tanto quanto a neve acumulada nos ombros, “Os Malditos” constrói sua tensão a partir de um dilema que parece simples, mas carrega um veneno moral difícil de engolir. Ajudar alguém em risco pode significar assinar a própria sentença.

A premissa se sustenta em uma situação clássica do suspense de sobrevivência. Um navio naufragado surge no caminho de Eva e sua equipe, isolados em uma paisagem que mais parece um fim de mundo congelado. O filme transforma esse encontro em um teste de caráter coletivo. O que se faz quando a empatia entra em choque direto com a autopreservação. O terror aqui nasce da escolha, não do monstro. A ameaça maior vem da dúvida que se instala no grupo e da forma como cada personagem reage a esse impasse.
O impacto inicial é potente. A fotografia explora a aridez da paisagem islandesa com rigor estético, criando quadros que beiram o sufocante mesmo em cenários abertos. O design de som reforça essa sensação de isolamento, fazendo o vento, o rangido das estruturas e o eco do vazio funcionarem como trilha involuntária. O ambiente vira personagem, empurrando os protagonistas para um estado de tensão constante. Existe um prazer quase cruel em observar como o espaço físico vai corroendo a lucidez dos envolvidos.
Com o avanço da narrativa, o roteiro opta por uma rota mais segura. O suspense, que no começo parece prometer desvios e rupturas, se organiza de forma previsível. As viradas seguem uma lógica que o espectador mais atento consegue antecipar com certa facilidade. Ainda assim, o filme se mantém funcional dentro da proposta. Não há ambição de reinventar o gênero, mas existe um cuidado técnico que sustenta o interesse. É um suspense que prefere o conforto da fórmula ao risco do inesperado.
O ritmo se torna o ponto mais delicado da experiência. Mesmo com duração enxuta, a narrativa assume um andamento contemplativo que pode soar arrastado para parte do público. O foco quase exclusivo em Eva reforça o isolamento psicológico, mas deixa os coadjuvantes subaproveitados. Essa escolha narrativa empobrece o potencial dramático do grupo, ao mesmo tempo em que fortalece a sensação de solidão extrema. O confinamento dramático intensifica a atmosfera, mas cobra um preço em variedade emocional.
As atuações sustentam o peso do silêncio. Odessa Young constrói uma protagonista atravessada por medo, pragmatismo e culpa em doses graduais, enquanto Joe Cole funciona como contraponto emocional, trazendo tensão para as decisões coletivas. O elenco de apoio opera mais como presença simbólica do que como indivíduos plenamente desenvolvidos, reforçando a ideia de que, naquele cenário, pessoas se tornam sombras umas das outras.
“Os Malditos” se destaca menos pela originalidade e mais pela competência em criar um clima de ameaça constante. É um suspense que entende o valor da atmosfera e do desconforto, mesmo quando sua narrativa escolhe caminhos previsíveis. Para quem busca uma experiência densa, fria e de combustão lenta, o filme entrega uma jornada visualmente marcante e emocionalmente sufocante, ainda que sem grandes surpresas no percurso.
“Os Malditos”
Direção: Thordur Palsson
Elenco: Odessa Young, Joe Cole, Turlough Convery, Lewis Gribben, Francis Magee, Mícheál Óg Lane
Disponível em: HBO Max
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