Alguns filmes não se interessam pela guerra em si, mas pelas rachaduras silenciosas que ela provoca dentro de quem a atravessa. “Os Malditos” não é sobre batalhas épicas ou sobre a glória de grandes generais, mas sobre a erosão da alma quando o propósito que sustenta a luta já não se sustenta mais. O longa de Roberto Minervini olha para a Guerra Civil Americana de 1862 e encontra ali um cenário de exaustão, frio e desorientação, um espaço onde homens marcham sem rumo em busca de um sentido que nunca se revela.
- Crítica: “A Namorada Ideal” (The Girlfriend) – primeira temporada
- The Town 2025: acertos e erros da segunda edição do festival
- Final explicado de “As Mortas”
A trama acompanha um grupo de voluntários enviados para patrulhar regiões desconhecidas no oeste, homens que partiram movidos pelo ideal de servir a um país em reconstrução, mas que acabam se reduzindo a figuras perdidas em meio ao gelo. Não há heroísmo aqui. O que existe é o esfacelamento gradual daquilo que antes parecia sólido: fé, dever, orgulho nacional. À medida que o inverno avança e as dificuldades se multiplicam, a guerra deixa de ser um palco de bravura para se tornar um espelho de fragilidades humanas.
Minervini filma o vazio da paisagem como extensão do vazio interior desses soldados. Cada plano longo, cada olhar perdido no horizonte gelado, sugere que a verdadeira batalha não está nos tiros disparados, mas na luta para justificar a própria presença naquele lugar. É nesse terreno árido que surgem conversas quase confessionais, onde pais inseguros, filhos inexperientes e homens incapazes de apontar uma arma para algo maior que um coelho se veem obrigados a confrontar seus próprios limites.
O filme ecoa obras como “Além da Linha Vermelha”, de Terrence Malick, em sua capacidade de transformar a guerra em meditação, em murmúrio sobre fé, masculinidade e perdão. Mas aqui não há a poesia grandiosa das imagens tropicais. Há neve, silêncio e a sensação de que Deus abandonou o campo de batalha muito antes de qualquer tiro ser disparado. O peso da distância da família, a lembrança do lar e a dúvida sobre se o país merece tanto sacrifício compõem uma reflexão devastadora.
Não é um cinema de espetáculo, mas de contemplação. “Os Malditos” aposta na lentidão, no olhar fixo e no improviso, construindo um clima quase experimental que pode afastar parte do público. No entanto, é justamente nessa escolha que reside sua força: o longa não oferece catarse, oferece desconforto. Cada pausa é um lembrete de que a guerra consome mais no silêncio do que no barulho.
Minervini não se interessa em apontar heróis ou vilões. O inimigo raramente aparece, e quando surgem tiros, eles são confusos, sem direção clara, como se ninguém mais soubesse contra quem atirar. A sensação é de homens amaldiçoados, perdidos em uma terra estranha, condenados a morrer longe de casa e sem convicção do porquê. Talvez seja esse o ponto: em “Os Malditos”, a guerra não destrói apenas corpos, mas também convicções, até que nada resta além do vazio.
É um filme pequeno em escala, mas grandioso na forma como transforma o silêncio em discurso e a contemplação em crítica. Ao final, não há redenção nem vitória, apenas a constatação amarga de que todos, de alguma forma, já estão derrotados.
“Os Malditos”
Direção: Roberto Minervini
Elenco: René W. Solomon, Jeremiah Knupp, Cuyler Ballenger
Disponível nos cinemas
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.