Existem perdas que acontecem antes da ausência, e “Outra Vez Amor” entende essa ideia muito bem ao acompanhar Caroline diante da deterioração cognitiva de Henry, seu marido há três décadas, diagnosticado precocemente com Alzheimer. O homem continua diante dela, ocupa os mesmos espaços e ainda carrega fragmentos da vida que construíram juntos, mas desaparece gradativamente dentro de uma doença que transforma lembranças compartilhadas em um território cada vez mais instável. É nessa espécie de luto antecipado, em que Caroline precisa se despedir de alguém que ainda está fisicamente ao seu lado, que o longa encontra sua melhor matéria dramática.

Dirigido por David I. Strasser, o filme não está particularmente interessado em reinventar o melodrama. Sua estrutura é reconhecível, alguns movimentos narrativos podem ser antecipados com facilidade e existe uma condução emocional que frequentemente aponta para onde deseja levar o espectador. Ainda assim, previsibilidade não é necessariamente sinônimo de fragilidade. “Outra Vez Amor” funciona melhor quando abandona qualquer pretensão de surpreender e simplesmente observa o desgaste provocado pela doença, encontrando nos pequenos acontecimentos cotidianos uma tristeza muito mais eficiente do que aquela produzida por grandes momentos dramáticos.
Henry não desaparece de uma vez, e essa é uma distinção fundamental para o funcionamento da história. Há momentos de lucidez, pequenos reconhecimentos e instantes nos quais Caroline consegue reencontrar o homem com quem dividiu grande parte da vida, apenas para perdê-lo novamente pouco depois. O filme constrói sua tristeza a partir dessa alternância, permitindo que a esperança exista por tempo suficiente para tornar a próxima ruptura ainda mais dolorosa. Não é necessariamente a perda definitiva que machuca mais, mas a repetição constante de pequenas perdas que obrigam Caroline a reconhecer diariamente que o homem que conhece continua ali sem necessariamente conseguir acessar tudo aquilo que os dois viveram.
Nesse processo, “Outra Vez Amor” consegue abordar com sensibilidade uma figura frequentemente colocada em segundo plano nas histórias sobre doenças degenerativas: o cuidador. Caroline não precisa apenas lidar com aquilo que acontece com Henry, mas reorganizar a própria existência ao redor da condição dele. Ser esposa, companheira e indivíduo começa a se misturar à obrigação permanente de cuidar, observar, proteger e antecipar necessidades. O mérito do longa está em compreender que uma doença como o Alzheimer não atinge apenas aquele que perde suas memórias, mas reorganiza emocionalmente todos que permanecem ao seu redor. O cotidiano passa a carregar um estado constante de alerta, enquanto a pessoa responsável pelos cuidados precisa administrar simultaneamente culpa, cansaço, amor, frustração e uma dor particularmente difícil de nomear.
É dentro dessa realidade que a aproximação de Caroline com Leo começa a ganhar espaço, e também onde o filme encontra sua principal fragilidade. A relação poderia funcionar como uma extensão natural da solidão da protagonista, principalmente porque existe algo profundamente compreensível na necessidade de ser novamente enxergada como indivíduo quando praticamente toda a sua identidade passou a ser subordinada à doença do marido. O problema nunca está no surgimento desse desejo, já que justamente essa contradição poderia oferecer uma das camadas mais interessantes da obra. Caroline continua amando Henry, sofre com a possibilidade de perdê-lo e, ao mesmo tempo, encontra em outra pessoa uma intimidade que sua realidade já não consegue proporcionar da mesma maneira.
Quando essa aproximação ultrapassa determinadas fronteiras, “Outra Vez Amor” entra em uma área moralmente desconfortável que poderia transformar o filme em algo muito mais provocador. Existe amor sem presença? Existe infidelidade quando uma relação continua existindo emocionalmente, mas está sendo progressivamente desmontada por uma doença? Até que ponto desejar continuar vivendo representa abandonar alguém que já não consegue participar daquela vida da mesma maneira? O filme apresenta questões muito mais complexas do que as respostas que está disposto a oferecer, e é justamente aí que parte de sua força dramática começa a escapar.
A própria narrativa reconhece o caráter questionável das escolhas de Caroline quando sua filha percebe a situação e confronta a mãe. Portanto, não existe ingenuidade do roteiro em relação à dimensão ética daquele envolvimento. O problema está na tentativa posterior de suavizar rapidamente esse conflito para preservar a natureza romântica da história. A relação com Leo precisa ser simultaneamente controversa e idealizada, e essas duas intenções nem sempre convivem de maneira convincente. Em alguns momentos, o longa parece querer que o espectador questione Caroline, enquanto em outros praticamente exige que a nova relação seja recebida como consequência inevitável de tudo aquilo que ela sofreu.
Também existe um desequilíbrio considerável na maneira como essas duas partes da história são desenvolvidas. A deterioração de Henry recebe tempo, silêncio e progressão, permitindo que o espectador acompanhe a transformação daquela família e perceba como pequenas perdas começam a se acumular. Já o romance recebe uma aceleração muito maior, especialmente quando o longa se aproxima de sua conclusão. É curioso que justamente a relação que exigia maior cuidado do roteiro seja aquela que recebe menos espaço para amadurecer. Existe conexão entre Caroline e Leo, e é possível compreender perfeitamente aquilo que aproxima os dois, mas compreender uma relação não significa necessariamente acreditar na velocidade ou em todas as decisões construídas a partir dela.
Valerie Bertinelli se torna fundamental para impedir que essas inconsistências transformem Caroline em uma personagem difícil de acompanhar. Sua interpretação encontra humanidade justamente onde o roteiro poderia facilmente produzir rejeição. Caroline deseja, se culpa, se contradiz e tenta continuar funcionando quando sua vida emocional já perdeu qualquer estabilidade, e Bertinelli evita transformar esses sentimentos em uma sucessão de gestos excessivamente dramáticos. A personagem funciona porque suas contradições parecem genuínas, inclusive quando suas escolhas são questionáveis, permitindo que o público compreenda sua fragilidade sem necessariamente precisar concordar com tudo aquilo que ela faz.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante de Caroline, já que reduzi-la simplesmente à esposa que trai o marido doente seria tão limitado quanto transformá-la automaticamente em uma mulher que merece uma segunda chance no amor. Ela ocupa uma região intermediária muito mais rica. Caroline pode amar Henry profundamente e ainda sentir falta de intimidade, pode estar devastada pela doença e continuar desejando companhia, assim como pode tomar decisões moralmente discutíveis sem deixar de ser uma personagem digna de empatia. Essa ambiguidade é muito mais poderosa do que qualquer tentativa do roteiro de justificar completamente suas escolhas.
Henry, por sua vez, concentra a dimensão mais cruel da história porque sua condição transforma a memória em algo quase material. Um casamento de 30 anos não existe apenas em fotografias ou acontecimentos marcantes, mas em uma quantidade incalculável de experiências pequenas, códigos particulares, olhares, conversas e lembranças que pertencem exclusivamente àquelas duas pessoas. Quando uma delas começa a esquecer, não desaparecem apenas informações sobre o passado. Desaparece também uma das testemunhas daquela vida compartilhada, obrigando quem permanece a carregar sozinho lembranças que anteriormente pertenciam a dois.
É nesse ponto que “Outra Vez Amor” encontra sua maior sinceridade. Muito além do romance que tenta construir paralelamente, existe uma história bastante dolorosa sobre permanecer ao lado de alguém enquanto aquilo que sustentava a relação começa a desaparecer. O longa entende que o Alzheimer não apaga somente nomes, lugares ou acontecimentos, mas interfere na própria linguagem emocional construída entre duas pessoas ao longo de décadas. Há algo particularmente devastador em reconhecer fisicamente alguém e, ainda assim, perceber que determinadas partes daquela pessoa já não conseguem retornar.
Por isso, é frustrante que a reta final escolha acelerar justamente aquilo que precisava de mais paciência. Depois de desenvolver com cuidado a experiência de Caroline como esposa e cuidadora, o filme procura organizar emocionalmente seus conflitos de maneira excessivamente conveniente. O resultado não destrói aquilo que veio antes, mas reduz parte da complexidade que a própria narrativa havia construído. “Outra Vez Amor” seria um filme mais forte se confiasse um pouco mais nas perguntas que apresenta e sentisse menos necessidade de oferecer conforto para todas elas.
Ainda assim, existe bastante sensibilidade em sua abordagem. O filme consegue ser triste sem permanecer constantemente sufocante e encontra espaço para momentos mais leves sem transformar a doença em instrumento de humor. Essa alternância ajuda a humanizar Henry e Caroline para além do diagnóstico e impede que toda a relação seja definida exclusivamente pela tragédia. Afinal, antes de existir a doença, existiram décadas de uma vida conjunta, e é justamente o peso dessa história anterior que torna cada nova perda significativa.
“Outra Vez Amor” acaba sendo melhor como drama sobre memória, cuidado e luto do que propriamente como romance. Quando observa Caroline e Henry, encontra nuances genuínas sobre amar alguém que lentamente deixa de reconhecer partes da própria existência. Quando desloca sua atenção para a possibilidade de um novo relacionamento, torna-se mais convencional e apressado. É um filme emocionalmente sincero, ainda que narrativamente irregular, sustentado principalmente pela capacidade de compreender que continuar amando alguém nem sempre significa saber como permanecer ao lado dessa pessoa.
No fim, talvez a parte mais dolorosa de “Outra Vez Amor” esteja justamente naquilo que não pode ser recuperado. Caroline ainda possui uma vida inteira ao lado de Henry dentro de si, mesmo quando ele já não consegue acessar todas essas lembranças. O filme encontra beleza nessa permanência, mas também reconhece sua crueldade: quando uma memória construída a dois passa a existir apenas em uma pessoa, continuar lembrando também pode se transformar em uma forma de despedida.
“Outra Vez Amor”
Direção: David I. Strasser
Elenco: Valerie Bertinelli, Eric McCormack, Henry Czerny, Gabriel Prevost-Takahashi, Jessica Bernard, Kate Craven, Mackenzie Cardwell e Mark Brandon
Disponível em: Prime Time
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