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Crítica: Pabllo Vittar, “Lost in Lust”

Texto: Ygor Monroe
2 de outubro de 2026
em Música, Resenhas/Críticas

Pabllo Vittar já passou da fase em que precisava provar que uma drag queen brasileira poderia ocupar o centro da música pop. “Lost in Lust” nasce justamente depois dessa conquista, quando a questão deixa de ser “até onde Pabllo consegue chegar?” e passa a ser “o que ela pretende fazer agora que já chegou lá?”. A resposta aparece em um disco majoritariamente em inglês, atravessado pelo espanhol, mergulhado em música eletrônica, desejo, club culture e uma quantidade considerável de confiança. É um álbum que quer soar internacional sem pedir desculpas por continuar carregando o Brasil dentro dele, e talvez essa seja a sua característica mais interessante.

Crítica: Pabllo Vittar, “Lost in Lust”
Crítica: Pabllo Vittar, “Lost in Lust”

A própria ideia de “Lost in Lust” combina perfeitamente com o que Pabllo constrói aqui. O desejo aparece menos como tema específico e mais como ambiente. O disco parece acontecer durante aquela parte da noite em que ninguém mais sabe exatamente que horas são, a pista já está cheia, a bebida perdeu qualquer relação com sede e alguém tomou a decisão questionável de mandar mensagem para o ex. É um álbum sobre desejo, mas também sobre excesso, e Pabllo entende que a música eletrônica é provavelmente o melhor lugar para transformar esse estado de espírito em som.

O resultado não é exatamente uma ruptura com aquilo que Pabllo já vinha fazendo, e seria um exagero vender “Lost in Lust” como se a artista tivesse acordado em uma terça-feira e descoberto a música eletrônica. A dance music acompanha sua trajetória há bastante tempo, atravessando diferentes momentos da discografia e chegando a experiências cada vez mais explícitas com EDM, hyperpop e música de pista. O que muda aqui é a liberdade com que essas referências são organizadas. Pabllo não parece estar testando se consegue fazer um disco eletrônico; parece finalmente ter decidido que pode simplesmente fazer o disco eletrônico que estava querendo fazer.

Essa diferença é fundamental porque “Lost in Lust” soa menos como uma tentativa desesperada de internacionalização e mais como uma extensão natural de uma pesquisa que já vinha acontecendo. O período do Club Vittar funciona quase como uma espécie de laboratório para essa fase, permitindo que Pabllo experimentasse produtores, sonoridades e possibilidades que posteriormente desembocariam neste álbum. O resultado é perceptível porque existe uma preocupação muito maior com atmosfera do que com aquela estrutura pop tradicional que precisa entregar imediatamente um refrão gigantesco para provar que valeu o investimento.

“Lost in Lust” quer que você entre no universo dele antes de decidir se gosta dele. Isso pode ser um problema para quem espera uma sucessão de grandes momentos pop, mas é justamente o que dá ao projeto alguma personalidade. O álbum é menos interessado em ficar apresentando cartões de visita e mais preocupado em criar uma noite inteira.

E existe uma diferença enorme entre um álbum feito para a pista e um álbum que simplesmente coloca batidas eletrônicas embaixo de músicas pop. Pabllo entende essa diferença. As produções são mais pesadas, os sintetizadores ocupam espaço, os graves têm função estrutural e as referências de techno, dance, reggaeton, funk, tecnomelody e outras vertentes eletrônicas convivem dentro de uma mesma proposta. Não é uma salada completamente aleatória, embora em alguns momentos o disco chegue perto de jogar referências em uma panela e torcer para que a pista resolva o problema.

O maior mérito de “Lost in Lust” está justamente na construção dessa identidade sonora. Pabllo não abandona suas raízes brasileiras para parecer internacional, e isso evita que o álbum caia naquela armadilha terrível de imaginar que cantar em inglês automaticamente transforma qualquer artista em produto global. O inglês e o espanhol aparecem como ferramentas de expansão, mas não substituem a identidade que trouxe Pabllo até aqui. O tecnomelody continua aparecendo, ritmos brasileiros atravessam a produção e o encerramento do álbum recupera explicitamente uma atmosfera tropical.

É justamente nesse ponto que a proposta internacional do disco fica mais interessante. Pabllo trabalha com artistas de diferentes países, circula entre inglês e espanhol e amplia a rede de produtores envolvidos na construção do projeto, mas não tenta fingir que nasceu em algum laboratório pop de Los Angeles com três executivos de gravadora discutindo qual sotaque brasileiro seria comercialmente aceitável. Ela leva o Brasil para a festa, mesmo quando a festa está claramente interessada em parecer global.

E isso combina muito com a própria carreira de Pabllo. A artista nunca foi particularmente boa em respeitar fronteiras de gênero musical. Ela transita pelo pop, funk, eletrônico, forró, tecnomelody, hyperpop e tudo aquilo que possa servir à próxima ideia. “Lost in Lust” organiza parte dessa bagunça de maneira mais coesa, transformando a diversidade sonora em conceito em vez de simplesmente apresentá-la como coleção de experiências.

O álbum também ganha força quando abraça a personalidade performática de Pabllo. Há uma confiança quase caricatural em determinados momentos, mas seria estranho esperar modéstia justamente de uma artista que construiu uma carreira inteira transformando exagero em linguagem. Pabllo Vittar nunca foi uma artista que entra em uma sala tentando ocupar pouco espaço, então seria bastante contraditório esperar que seu disco mais internacionalizado resolvesse aprender a pedir licença.

“Lost in Lust” sabe ser debochado, sensual e autoconsciente. A artista brinca com a própria imagem, com a própria carreira e com o tamanho que alcançou, e essa consciência impede que a grandiosidade do projeto se transforme completamente em pompa. Quando Pabllo se chama de “Brazilian Barbie”, por exemplo, a frase poderia facilmente soar como o tipo de autoconfiança que faria um espelho pedir férias. No contexto dela, porém, funciona porque a personagem pública sempre esteve construída sobre essa mistura de glamour, humor e provocação. É claro que nem tudo funciona com a mesma força.

O problema de um álbum tão interessado em atmosfera é justamente a possibilidade de a atmosfera começar a substituir a composição. Em determinados momentos, “Lost in Lust” parece saber exatamente como quer soar, mas nem sempre sabe exatamente o que quer dizer. Existe uma linearidade que impede parte do impacto do projeto, especialmente porque a produção frequentemente é mais interessante do que aquilo que está sendo colocado sobre ela. A pista está funcionando, o grave está funcionando, Pabllo está maravilhosa, alguém provavelmente já perdeu um salto no banheiro da boate, mas nem sempre existe uma música memorável esperando depois da fumaça.

Isso não significa que o disco seja vazio. Significa que ele é mais forte como experiência do que como coleção de grandes canções. E essa distinção importa. “Lost in Lust” parece muito mais preocupado em estabelecer um universo do que em construir uma sucessão de clássicos instantâneos. O álbum quer ser ouvido em sequência, quer criar continuidade e quer fazer com que as músicas compartilhem uma mesma temperatura. Por isso, alguns momentos que isoladamente talvez não pareçam tão impressionantes ganham outra função quando colocados dentro do conjunto.

Essa unidade é uma das razões pelas quais a decisão de não transformar o álbum em uma vitrine permanente de participações especiais funciona relativamente bem. Villano Antillano, Urias, Mahmood e La Cruz acrescentam perspectivas diferentes ao projeto, mas Pabllo continua sendo o centro gravitacional. Os convidados entram no universo de “Lost in Lust”; o universo não é desmontado para acomodá-los.

Entre os momentos mais interessantes do disco está justamente essa capacidade de cruzar referências que, no papel, poderiam parecer incompatíveis. Existe pop dos anos 1980 convivendo com música eletrônica contemporânea, elementos de reggaeton, referências brasileiras e uma estética de pista que poderia facilmente ter produzido um álbum completamente genérico se a identidade de Pabllo não estivesse tão presente. A produção evita, na maior parte do tempo, que essa mistura pareça apenas uma lista de gêneros escolhidos para convencer o algoritmo de que existe diversidade acontecendo.

E aqui entra uma questão importante: Pabllo não precisa parecer brasileira o tempo inteiro para continuar sendo uma artista brasileira. “Lost in Lust” entende isso. O fato de algumas escolhas apontarem diretamente para um mercado internacional não diminui o projeto, porque a internacionalização não acontece apenas quando um artista mantém sua estética intacta para que o público estrangeiro reconheça imediatamente de onde veio. Também existe identidade na capacidade de experimentar.

Nesse sentido, cantar majoritariamente em inglês não me parece o ponto mais relevante do álbum. O que importa é que Pabllo parece mais confortável nessa posição do que em tentativas anteriores de construir uma ponte internacional. Ela não está simplesmente traduzindo uma fórmula brasileira para outro idioma. Está utilizando outro idioma dentro de uma linguagem musical que já vinha desenvolvendo.

“Lost in Lust” é, portanto, menos um álbum de transformação e mais um álbum de expansão. Pabllo pega elementos que já estavam espalhados pela própria discografia, pela experiência como DJ e pelas pesquisas de música eletrônica e finalmente coloca tudo sob o mesmo teto. Isso faz com que o projeto tenha uma sensação de continuidade muito maior do que a campanha de lançamento talvez faça parecer.

Ao mesmo tempo, essa segurança também expõe suas limitações. Há momentos em que gostaríamos que Pabllo fosse ainda mais longe. Se o álbum se propõe a ser tão eletrônico, tão internacional e tão interessado na pista, algumas escolhas poderiam ser mais estranhas, mais arriscadas e menos preocupadas em manter tudo dentro de uma zona confortável. A artista chega à porta do experimentalismo, olha para dentro, faz uma pose maravilhosa e decide que talvez seja melhor voltar para a pista principal.

É uma pena em alguns momentos, porque existe talento e repertório suficientes para fazer “Lost in Lust” ser ainda mais imprevisível. A presença de produtores de diferentes cenas e a própria trajetória de Pabllo indicavam possibilidades que poderiam resultar em um disco mais radical. Em vez disso, ela escolhe um caminho relativamente acessível dentro da música eletrônica. Só que acessibilidade não é um defeito por si só.

Existe uma certa obrigação crítica de tratar experimentalismo como sinônimo automático de qualidade, como se um disco só pudesse ser realmente ousado quando três pessoas terminassem a audição perguntando se aquilo ainda era música. Pabllo não precisa disso. O mérito de “Lost in Lust” está em fazer uma proposta específica sem transformar a experiência em uma prova de resistência para o ouvinte.

Isso também ajuda a explicar por que o álbum não ocupa, para mim, o mesmo lugar de trabalhos como “Vai Passar Mal” ou “Não Para Não”. Esses discos possuem uma espontaneidade pop muito particular e momentos em que a identidade de Pabllo parece surgir naturalmente de cada escolha. “Lost in Lust” é mais calculado, mais conceitual e mais consciente de sua própria direção. Ele troca parte daquela explosão imediata por uma experiência mais controlada.

Não considero isso necessariamente uma evolução ou uma regressão. É uma mudança de prioridade. Pabllo parece menos interessada em provar que consegue fazer qualquer coisa e mais interessada em descobrir como quer soar agora. Depois de tantos anos de carreira, talvez essa seja uma das posições artisticamente mais interessantes que ela poderia assumir. O disco não precisa representar o ponto final de sua experimentação eletrônica, e espero sinceramente que não represente. Ele funciona melhor como abertura de uma nova estrada.

Até porque “Lost in Lust” deixa uma sensação curiosa ao terminar. A artista prometeu um projeto diferente e entrega exatamente isso, mas o mais interessante é perceber que o diferente não vem de abandonar quem ela era. Vem de permitir que partes de sua trajetória que antes apareciam como exceções finalmente ocupem o centro da conversa.

A grande questão é que o álbum poderia ter sido mais ousado. Poderia ter ido mais fundo na própria loucura, poderia ter produzido momentos mais imprevisíveis e poderia ter encontrado melodias capazes de sobreviver fora da pista. Alguns trechos parecem pedir exatamente isso. Existe uma versão ainda mais forte de “Lost in Lust” escondida dentro deste próprio álbum, uma versão que talvez tivesse decidido incomodar um pouco mais em vez de apenas seduzir.

Mesmo assim, seria injusto avaliar o projeto pelo disco que poderia ter sido e ignorar o disco que efetivamente chegou. “Lost in Lust” é coeso, estilisticamente consciente e muito mais seguro do que uma simples experiência de internacionalização poderia sugerir. Ele amplia a discografia de Pabllo sem apagar aquilo que veio antes e apresenta uma artista que parece cada vez menos preocupada em escolher uma única identidade musical.

No fim, talvez essa seja a melhor definição para o álbum: Pabllo Vittar está perdida na luxúria, mas felizmente não parece perdida artisticamente. Ela está dançando, testando possibilidades, misturando idiomas, brincando com a própria imagem e construindo uma pista onde o pop internacional pode conviver com a memória brasileira sem precisar pedir autorização a ninguém.

“Lost in Lust” não é o melhor álbum de Pabllo Vittar, nem precisa ser. É um capítulo importante porque mostra uma artista suficientemente estabelecida para transformar curiosidade em direção artística. Há excessos, escolhas mais previsíveis, momentos que poderiam ser mais fortes e uma linearidade que impede o disco de atingir todo o potencial que promete. Ainda assim, existe aqui uma Pabllo mais livre, mais eletrônica e mais confortável em brincar com aquilo que sempre esteve ao redor de sua música.

E se esse for mesmo apenas o começo dessa nova fase, ótimo. Porque depois de tantos anos fazendo o público dançar, talvez Pabllo esteja finalmente descobrindo que também pode usar a pista como laboratório. E, conhecendo a criatura, eu não apostaria que ela pretende sair de lá tão cedo.

Nota final: 79

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Temas: CríticaMúsicaPabllo VittarResenha

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