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Crítica: Parcels, “Loved”

O Parcels chega ao seu terceiro disco de estúdio com “Loved”, um trabalho que deixa clara a habilidade do quinteto australiano de reinventar sua própria identidade sem abrir mão daquilo que os consagrou: a combinação de grooves setentistas, harmonias vocais minuciosas e uma atmosfera que alterna celebração e contemplação. O resultado é um álbum que, embora não busque rupturas radicais, sustenta um equilíbrio entre coesão sonora e variação emocional.

Crítica: Parcels, “Loved”

“Loved” nasce de um processo peculiar para a banda. Após o hiato de seis meses em 2023, o grupo se reencontrou e decidiu criar um disco de forma descentralizada, com sessões espalhadas por Berlim, Byron Bay, Sydney, Oaxaca e Cidade do México. Essa escolha quebra a lógica do registro anterior, “Day/Night”, que havia sido todo gravado em um único estúdio, e abre espaço para uma paleta mais diversa e arejada. O resultado é um álbum que se movimenta entre cidades e climas, mas ainda soa unificado, como se o Parcels tivesse transformado diferentes atmosferas em uma mesma narrativa musical.

Em termos sonoros, “Loved” reforça a vocação da banda em recriar a estética pop-funk dos anos 70 com frescor contemporâneo. As linhas de baixo continuam sendo o alicerce rítmico mais pulsante, enquanto os teclados adicionam camadas que oscilam entre o orgânico e o etéreo. É uma música que respira groove, mas que também encontra espaço para momentos mais introspectivos. O álbum abre com “Tobeloved”, que já traz a assinatura do Parcels com harmonias vocais entrelaçadas e um instrumental simples, mas eficiente, quase como uma declaração de intenções. Logo em seguida, “Ifyoucall” aparece como um contraponto romântico, caloroso e envolvente, mostrando o lado mais afetivo do grupo.

Ainda que o disco flua bem, há instantes menos memoráveis. “Everybodyelse”, por exemplo, perde em impacto quando comparada às demais, e “Sorry” carrega uma fragilidade lírica que destoa do padrão de excelência sonora estabelecido pela banda. Porém, mesmo nesses momentos, a competência instrumental do Parcels impede que o álbum caia em monotonia absoluta. É um ponto importante: a banda tem tanta clareza estética que até suas faixas mais fracas conseguem dialogar com o todo.

O grande mérito de “Loved” talvez esteja em sua capacidade de soar leve sem ser raso. É um disco que se ouve como quem reencontra um amigo distante, com aquela familiaridade que conforta e, ao mesmo tempo, surpreende em pequenos detalhes. Algumas faixas parecem feitas para iluminar uma caminhada ao nascer do sol, outras para acompanhar uma noite de reflexão. Essa versatilidade dá ao álbum um caráter universal, pronto tanto para a pista de dança quanto para os fones em uma viagem solitária.

Comparado a seus antecessores, “Loved” não alcança a mesma ousadia estrutural de “Day/Night” nem o impacto revelador do debut “Parcels”. Porém, essa limitação é também a sua força: o disco encontra potência no simples, no gesto de reafirmação, no domínio de uma sonoridade que já é própria do grupo. Mais do que buscar um novo paradigma, o Parcels aqui parece se dedicar a celebrar sua própria trajetória, transformando experiências individuais em uma comunhão sonora.

Seja na energia contagiante de “Summerinlove”, na cadência suave de “Safeandsound” ou no clima expansivo da faixa de encerramento, “Iwanttobeyourlightagain”, o que se escuta em “Loved” é uma banda madura, confiante em sua linguagem e disposta a continuar conversando com o público em diferentes registros. Não é um disco revolucionário, mas é um disco que entende sua função: manter vivo o elo entre Parcels e seus ouvintes, entregando uma obra que convida tanto ao movimento quanto à contemplação.

Nota: 77/100 | Parcels, “Loved”

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