Entre bancos de praça, memórias acumuladas e uma boa dose de ironia portenha, histórias sobre encontros improváveis costumam revelar mais sobre o mundo do que grandes discursos políticos. Em Buenos Aires, cenário onde a vida urbana mistura melancolia, humor e contradições, dois homens idosos transformam conversas aparentemente banais em um campo de batalha ideológico e emocional. É nesse território que se constrói “Parque Lezama”, obra que aposta no diálogo como motor dramático e tenta extrair poesia do cotidiano.

A premissa parece simples. Um ex-militante comunista que não perdeu o gosto pela discussão política encontra um bon vivant que prefere evitar qualquer debate ideológico. A convivência nasce quase por acaso em um banco de parque e, pouco a pouco, evolui para uma amizade improvável. O contraste entre as visões de mundo dos dois personagens deveria ser o coração pulsante da narrativa. A ideia de acompanhar esses encontros sucessivos, marcados por humor e pequenas tensões, carrega um potencial dramático evidente.
“Parque Lezama” parte de um material com pedigree teatral. O texto dialoga diretamente com a peça americana “I’m Not Rappaport”, de Herb Gardner, história que também gira em torno de dois idosos discutindo o mundo enquanto o tempo passa ao redor. No papel, o conceito sugere algo quase universal. Uma conversa que poderia acontecer em qualquer época, em qualquer cidade, entre duas pessoas tentando entender o próprio lugar na história.
A proposta ganha ainda mais força quando se percebe o simbolismo desse encontro. Um homem que acredita no embate político como ferramenta de transformação social e outro que prefere sobreviver à vida sem mergulhar em grandes debates. Essa fricção ideológica tem potencial para refletir décadas de história argentina condensadas em uma simples conversa de banco de praça.
No entanto, o que poderia se transformar em um retrato sagaz sobre envelhecimento, memória e política acaba tropeçando em escolhas criativas que enfraquecem o impacto da obra. A encenação frequentemente parece rígida, como se o material teatral nunca tivesse realmente encontrado uma linguagem cinematográfica ou televisiva capaz de expandir suas possibilidades.
O resultado é uma narrativa que gira em torno dos diálogos, mas raramente encontra ritmo ou tensão suficientes para manter o espectador envolvido. Quando uma história depende tanto da palavra, cada silêncio, cada pausa e cada olhar precisam carregar significado. Aqui, muitos desses momentos passam sem deixar marca.
Outro elemento que chama atenção é a trilha musical excessivamente ilustrativa. Em vários momentos, a música surge como um comentário óbvio sobre aquilo que já está sendo dito, quase como se a obra duvidasse da própria capacidade de comunicar emoções apenas pela interpretação dos atores. Em vez de enriquecer a experiência, esse recurso acaba criando uma sensação de artificialidade.
Ainda assim, existe algo curioso na dinâmica entre os protagonistas. O encontro de dois homens no fim da vida inevitavelmente traz reflexões sobre tempo, memória e arrependimentos. A velhice aqui não aparece como um ponto final, mas como um território onde velhas convicções continuam em disputa.
É justamente nesse espaço que “Parque Lezama” encontra seus momentos mais interessantes. Quando o roteiro permite que os personagens revelem suas fragilidades, surge um vislumbre da história que poderia ter sido contada com mais profundidade. Conversas sobre política se misturam com lembranças pessoais, frustrações e pequenas ironias que revelam como cada um construiu sua própria versão da realidade.
Buenos Aires também aparece como um personagem silencioso. A cidade carrega uma atmosfera particular, marcada por nostalgia e debates políticos que atravessam gerações. O parque que dá nome à obra funciona como metáfora de um país onde ideias antigas continuam ecoando no presente.
Mesmo assim, a sensação predominante é de que o material original merecia uma adaptação mais ousada. Em vez de explorar as camadas históricas e emocionais que cercam seus protagonistas, a produção muitas vezes se limita a registrar conversas que poderiam ganhar muito mais peso com uma abordagem visual mais inspirada.
“Parque Lezama” tenta construir uma reflexão sobre amizade, envelhecimento e diferenças ideológicas. Em teoria, é um terreno fértil para histórias carregadas de humanidade. Na prática, o resultado oscila entre momentos curiosos e uma execução que raramente alcança a força dramática prometida pela premissa.
“Parque Lezama”
Direção: Juan José Campanella
Elenco: Eduardo Blanco, Luis Brandoni, Verónica Pelaccini
Disponível em: Netflix
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