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Crítica: “Párvulos: Filhos do Apocalipse” (Párvulos: Children of the Apocalypse)

O apocalipse já foi filmado de todas as formas possíveis. Cidades devastadas, governos colapsados, hordas de infectados correndo em câmera trêmula. O gênero parece exausto, como se estivesse preso em um looping criativo desde que os mortos começaram a andar no cinema moderno. É nesse terreno saturado que surge “Párvulos: Filhos do Apocalipse”, propondo um olhar mexicano para um subgênero que insiste em se reinventar.

Crítica: “Párvulos: Filhos do Apocalipse” (Párvulos: Children of the Apocalypse)

Dirigido por Isaac Ezban, o longa parte de uma premissa intimista. Em um mundo devastado, três irmãos se escondem em uma cabana isolada. O cenário é mínimo, quase claustrofóbico, e o verdadeiro perigo pode estar tanto do lado de fora quanto no porão da própria casa. A sobrevivência aqui não depende apenas de fugir dos infectados, mas de sustentar um segredo que corrói a estrutura familiar.

Existe um mérito imediato na tentativa de deslocar o gênero zumbi para o contexto do cinema mexicano contemporâneo. A produção busca dialogar com o horror clássico, mas também com o drama familiar e com a sátira religiosa. O filme deixa claro, inclusive na dedicatória do diretor a seus irmãos, que a narrativa gira em torno da irmandade como núcleo emocional. O apocalipse funciona como metáfora para o amadurecimento forçado.

A fotografia em preto e branco reforça essa leitura. A ausência de cor sugere perda de inocência, um mundo onde tonalidades foram drenadas junto com a esperança. Em momentos pontuais, o uso seletivo de cores aparece como respiro emocional. Objetos específicos ganham destaque cromático, como se representassem lembranças de um mundo que já não existe. A ideia é potente, mas a execução levanta questionamentos. Certas escolhas visuais parecem surgir e desaparecer sem um padrão claro, criando uma sensação de estilo aplicado de maneira irregular.

A comparação estética com produções que utilizam lentes distorcidas para traduzir estados mentais é inevitável. Quando o enquadramento assume formato que deforma bordas e amplia o centro da imagem, o recurso sugere percepção alterada, trauma ou instabilidade. O problema está na falta de consistência. Se a linguagem visual comunica algo, ela precisa sustentar essa lógica ao longo da narrativa. Aqui, algumas cenas adotam o recurso enquanto outras o abandonam sem transição dramática convincente.

No campo do roteiro, a proposta também oscila. A dinâmica do irmão mais velho superprotetor é apresentada de maneira excessivamente explicativa. Em vez de confiar na construção gradual de tensão, o texto opta por verbalizar conflitos que poderiam ser sugeridos por comportamento e silêncio. A introdução de determinado personagem no segundo ato cria expectativa de impacto estrutural, mas o arco termina dissolvido em humor negro de efeito imediato. A promessa de profundidade cede espaço a soluções rápidas que enfraquecem o peso emocional.

O terceiro ato intensifica essa sensação. A ameaça maior que parecia se formar ao longo da narrativa culmina em representação que flerta com o caricatural. A sátira envolvendo fanatismo religioso poderia alcançar dimensão perturbadora, mas o desfecho recorre a um mecanismo narrativo conveniente que resolve conflitos com rapidez excessiva. Quando a tensão pede consequência, a resolução oferece atalhos.

Ainda assim, reduzir “Párvulos: Filhos do Apocalipse” a seus tropeços seria injusto. Há coragem estética e temática. A ideia central funciona. A relação entre os irmãos possui momentos genuínos de afeto e desgaste. O humor ácido aparece como ferramenta para aliviar a brutalidade do cenário, mesmo que nem sempre encontre o tom ideal. O elenco jovem sustenta a carga dramática com entrega convincente, enquanto nomes como Noé Hernández ajudam a consolidar a atmosfera de ameaça.

O longa talvez não atinja todo o potencial emocional que sugere, mas demonstra ambição criativa. Entre acertos visuais e irregularidades narrativas, permanece a tentativa honesta de transformar o apocalipse em estudo sobre laços familiares e perda precoce da inocência.

“Párvulos: Filhos do Apocalipse”
Direção: Isaac Ezban
Elenco: Carla Adell, Mateo Ortega Casillas, Leonardo Cervantes, Farid Escalante Correa, Norma Flores, Horacio Lazo, Noé Hernández, Juan Carlos Remolina
Disponível em: HBO Max

Avaliação: 2.5 de 5.

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