Antes que o amor se anuncie em declarações grandiosas, ele costuma nascer no silêncio. É desse silêncio que “Pavana” se alimenta. Um filme que observa três jovens atravessados por solidões distintas e constrói, com delicadeza quase coreografada, um encontro que parece destino, mas dialoga muito mais com escolha, projeção e desejo.
Mi Jung trabalha em uma loja de departamentos e carrega nos ombros o peso da exclusão cotidiana. O olhar baixo, o receio de ser notada, a sensação constante de inadequação. Do outro lado está Gyeong Rok, popular, admirado, aparentemente ajustado ao mundo. A superfície dele brilha, mas o interior guarda rachaduras. Há ainda um terceiro eixo nessa engrenagem emocional, alguém que transita entre luz e sombra, ampliando a percepção de que todos ali compartilham uma mesma escuridão íntima. O filme entende que pessoas silenciosas gritam por dentro.
A narrativa se desenvolve como uma dança lenta, quase como a própria pavana que dá nome à obra. Cada gesto carrega significado. Um cachecol azul, um boneco de neve, flores que murcham, um inseto observado com curiosidade, uma pequena estátua indígena. São detalhes que funcionam como símbolos de pausa e respeito pelo próprio tempo. Existe uma passagem citada no filme que fala sobre cavaleiros que interrompem a jornada para que suas almas os alcancem. Essa imagem sintetiza o espírito da história. Viver no próprio ritmo pode ser um ato de resistência em um mundo apressado.
Lee Jong-pil constrói um drama que flerta com o romance, mas se revela sobretudo um recorte de vida. O amor entre Mi Jung e Gyeong Rok surge com hesitação, quase pedindo licença. Não é arrebatamento cinematográfico clássico, é aproximação tímida, construída em olhares que finalmente se sustentam. Quando ele admite que ao lado dela se sente mais honesto, mais próximo de uma versão melhor de si mesmo, o filme atinge um ponto de verdade rara. Amar, aqui, é tornar-se mais íntegro diante do outro.
A direção aposta em enquadramentos que valorizam o vazio e a distância. Há planos em que os personagens parecem pequenos diante da paisagem gelada, especialmente na sequência da aurora boreal. A luz colorida no céu funciona como ilusão e promessa. O espectador acredita que o destino inevitavelmente cruzará caminhos quando o sentimento é genuíno. O roteiro, no entanto, desafia essa expectativa. Ele sugere que muitas vezes criamos finais ideais dentro da mente para suportar a dureza do real.
O filme também toca em temas de identidade e afeto com naturalidade. Um beijo inesperado entre amigos quebra a tensão acumulada e reforça a ideia de que carinho e desejo podem surgir em territórios imprevistos. Não se trata de rótulo, mas de humanidade. A vulnerabilidade masculina ganha espaço sem caricatura.
Existe uma melancolia constante em “Pavana”, mas ela nunca se transforma em desespero absoluto. Cada personagem lida com sua sombra de maneira distinta. Um tenta melhorar apesar do peso. Outro se esconde atrás de uma alegria performática. Há aquele que permanece preso ao passado, incapaz de avançar. A frase de Mi Jung sobre pessoas que carregam lados sombrios e jamais se libertam completamente resume o tom da obra.
O desfecho provoca. Ele rompe com a fantasia do encontro garantido e devolve o público à realidade crua. Ainda assim, permanece a vontade de acreditar que sonhos podem sobreviver, que a aurora boreal foi vista, que o amor deixou marcas suficientes para transformar quem ficou. “Pavana” é sobre aceitar que nem toda história de amor precisa terminar em união para ser verdadeira.
É um filme de silêncios eloquentes, de pequenos gestos que dizem mais do que discursos inflamados. Uma obra que conversa com quem já esperou que o destino escrevesse algo diferente e descobriu que, no fundo, somos nós que projetamos as páginas mais bonitas.
“Pavana“
Direção: Lee Jong-pil
Elenco: Go Ah-sung, Byun Yo-han
Disponível em: Netflix
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.