Um homem isolado na floresta, uma porca roubada, um rastro que leva de cabanas úmidas no Oregon a restaurantes sofisticados onde pratos custam o equivalente a um mês de aluguel. Parece o início de um thriller de vingança com gasolina e fósforo nas mãos. Mas “Pig: A Vingança” escolhe outro caminho. E é justamente nessa recusa que o filme encontra sua força.
A premissa ativa um gatilho imediato na cultura pop. Um protagonista silencioso, marcado pelo passado, tem algo precioso tomado à força. O cinema recente ensinou o público a esperar tiros coreografados, corpos caindo em sequência e um acerto de contas que purga qualquer dor acumulada. Só que aqui não existe coreografia. Existe desgaste. O que se vende como vingança, se revela luto.
Robin, interpretado por Nicolas Cage, vive recluso na região selvagem do Oregon. Ele caça trufas com sua porca e negocia discretamente com intermediários da alta gastronomia. Quando o animal é sequestrado, o que se inicia não é uma cruzada sanguinária, mas um retorno forçado a um passado que ele tentou enterrar. A cidade que o recebe de volta não é um campo de batalha convencional. É um ecossistema de chefs, críticos, fornecedores e herdeiros mimados que transformaram a arte culinária em espetáculo e produto.
O diretor Michael Sarnoski constrói um anti-filme de vingança. Cada situação que parece anunciar explosão termina em silêncio constrangedor. Cada provocação que poderia gerar violência culmina em diálogo. A catarse que o espectador espera simplesmente não vem. E essa ausência é desconfortável, quase cruel.
Nicolas Cage entrega uma das performances mais contidas de sua carreira recente. Nada de exageros operísticos. Nada de surtos performáticos. Seu Robin é um homem que já perdeu tudo antes mesmo da história começar. O rosto machucado permanece assim por grande parte do filme, como se a dor física fosse extensão visível de algo muito mais antigo. Ele apanha. Ele é humilhado. Ele caminha mesmo assim. Existe uma dignidade silenciosa nesse percurso.
Em determinado momento, o roteiro abandona qualquer pretensão de suspense tradicional e mergulha em monólogos que soam como confissões sobre a decadência da arte em um mundo onde tudo tem preço. Restaurantes que buscam experiências instagramáveis substituem a comida feita com memória e afeto. Chefs que antes cozinhavam para emocionar agora performam para investidores. O filme questiona o que ainda possui valor em uma cultura que transforma valor em etiqueta de mercado.
É inevitável ler “Pig: A Vingança” como uma reflexão sobre masculinidade também. Em vez da explosão de fúria que o cinema acostumou a celebrar, vemos um homem que escolhe suportar. Que escolhe olhar nos olhos de quem o traiu e dizer verdades dolorosas sem levantar a voz. O gesto mais radical aqui não é bater de volta. É permanecer inteiro em um mundo que insiste em desumanizar.
Há quem sinta cansaço no meio do caminho. O ritmo é deliberadamente lento. A narrativa se recusa a oferecer recompensas fáceis. Para parte do público, isso pode soar frustrante. Mas existe coerência nessa escolha. A experiência é menos sobre chegar a um clímax e mais sobre atravessar um estado de espírito.
O título brasileiro promete vingança. O filme entrega melancolia. Promete violência. Entrega memória. Promete ajuste de contas. Entrega reconciliação com a própria dor. Talvez o gesto mais ousado de “Pig: A Vingança” seja esse: desafiar o espectador a abandonar expectativas condicionadas e aceitar que algumas histórias não buscam triunfo, buscam verdade.
Ao final, não há sensação de vitória. Há silêncio. Há resignação. Há uma estranha paz que nasce da compreensão de que certas perdas não podem ser revertidas, apenas reconhecidas. Um filme pequeno em escala, mas imenso em humanidade.
“Pig: A Vingança”
Direção: Michael Sarnoski
Elenco: Nicolas Cage, Alex Wolff, Cassandra Violet
Disponível em: Paramount+
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