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Crítica: “Ponto Sem Retorno” (The Dog Stars)

Texto: Ygor Monroe
2 de setembro de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Ridley Scott já destruiu mundos, construiu impérios, atravessou o espaço, reconstituiu guerras e transformou paranoia, violência e sobrevivência em algumas das imagens mais marcantes do cinema. Talvez por isso seja especialmente frustrante assistir a “Ponto Sem Retorno” e perceber que, desta vez, o fim do mundo parece pequeno demais para ele. Não pela escala visual, que continua encontrando momentos de imponência, mas porque existe muito pouco pulsando de verdade dentro desse cenário devastado.

Crítica: “Ponto Sem Retorno” (The Dog Stars)
Crítica: “Ponto Sem Retorno” (The Dog Stars)

Adaptado do romance de Peter Heller, “Ponto Sem Retorno” acompanha Hig, vivido por Jacob Elordi, um piloto que sobreviveu a uma pandemia responsável por dizimar grande parte da humanidade. Viúvo e acompanhado por seu cachorro, ele divide um hangar no Colorado com Bangley, um ex-fuzileiro naval interpretado por Josh Brolin. Os dois formam uma parceria sustentada menos por afinidade do que pela necessidade. Um oferece aquilo que falta ao outro e ambos sabem que, naquele mundo, incompatibilidade ainda é melhor do que solidão.

A rotina muda quando Hig capta uma transmissão de rádio e passa a considerar a possibilidade de existir alguma coisa além daquele território que aprendeu a chamar de casa. O sinal representa uma chance, uma esperança e, principalmente, uma desculpa para sair. É a partir desse ponto que “Ponto Sem Retorno” deveria abandonar a sobrevivência mecânica e mergulhar naquilo que realmente importa em qualquer bom pós-apocalipse: o que ainda faz alguém querer viver quando praticamente tudo que dava sentido à vida desapareceu? O problema é que o filme parece ter muito mais facilidade para mostrar o vazio do que para compreendê-lo.

“Ponto Sem Retorno” possui todos os elementos esperados de uma grande produção pós-apocalíptica, mas quase nenhum deles parece ter sido pensado para existir além da função que ocupa no roteiro. Há uma pandemia, comunidades perigosas, homens armados, territórios abandonados, escassez, luto, isolamento e uma possível promessa de recomeço. Tudo está exatamente onde deveria estar. Talvez exatamente demais.

O resultado é estranhamente familiar. Não existe necessariamente algo desastroso na construção desse universo, mas também não existe a sensação de estar descobrindo alguma coisa. O longa percorre caminhos que o gênero já explorou inúmeras vezes e raramente encontra uma perspectiva suficientemente particular para justificar outra passagem por eles.

Isso incomoda ainda mais porque Ridley Scott continua sendo um diretor tecnicamente capaz de transformar paisagem em narrativa. Os grandes espaços vazios carregam uma beleza hostil, os voos ajudam a dimensionar o isolamento de Hig e algumas sequências recuperam aquela precisão espacial característica de um cineasta que sabe perfeitamente onde colocar uma câmera quando o perigo começa. Quando “Ponto Sem Retorno” precisa ser grande, Scott ainda sabe fazê-lo parecer grande, só que imagem nenhuma consegue fabricar densidade emocional sozinha.

O roteiro de Mark L. Smith e Christopher Wilkinson trabalha constantemente com ideias sobre perda, memória e esperança, mas desenvolve personagens que frequentemente parecem existir para representar esses conceitos em vez de realmente vivê-los. Hig perdeu a esposa e, consequentemente, boa parte da conexão que mantinha com o mundo anterior. Seu desejo de seguir o sinal de rádio deveria carregar toda a força desesperada de alguém disposto a abandonar a relativa segurança porque simplesmente sobreviver deixou de ser suficiente.

Jacob Elordi encontra bons momentos nessa melancolia e possui presença para sustentar o silêncio de Hig. Há uma vulnerabilidade interessante em sua interpretação, principalmente quando o personagem deixa de funcionar como o típico sobrevivente endurecido e permite que alguma fragilidade apareça. Ainda assim, o filme pede que o espectador compre emocionalmente algumas de suas decisões sem construir completamente o caminho necessário até elas. Não falta sofrimento a “Ponto Sem Retorno”. Falta intimidade com esse sofrimento.

Josh Brolin encontra terreno mais confortável justamente porque Bangley possui uma personalidade imediatamente reconhecível. Pragmático, desconfiado e preparado para responder à violência com ainda mais violência, ele poderia facilmente se transformar em outro clichê ambulante do gênero. Brolin consegue impedir isso através de uma interpretação que encontra humor e humanidade na brutalidade do personagem.

A relação entre Hig e Bangley é, inclusive, uma das coisas mais interessantes do primeiro ato. Eles não precisam gostar um do outro para funcionar juntos. Existe uma dinâmica quase doméstica naquela convivência forçada, construída por regras, pequenas irritações e pela consciência de que qualquer conflito precisa terminar antes que uma ameaça externa apareça.

É nesse início que o filme parece mais seguro sobre aquilo que deseja ser. A solidão possui peso, o espaço ao redor parece ameaçador e a possibilidade de existir alguém além daquele perímetro carrega mistério suficiente para movimentar a narrativa. Ridley Scott deixa o silêncio trabalhar e encontra nas paisagens uma extensão do estado emocional dos personagens. Quando a jornada realmente começa, porém, o filme também começa a perder essa identidade.

A entrada de novos personagens deveria ampliar aquele universo, mas acaba expondo a fragilidade de sua construção. Margaret Qualley possui presença suficiente para impedir que sua personagem desapareça completamente dentro do roteiro, embora algumas decisões relacionadas a ela sejam tão estranhas que chegam a competir com a própria lógica do cenário. Em um filme interessado em lembrar constantemente o espectador de como aquele ambiente é perigoso, determinadas escolhas práticas parecem pertencer a outra realidade. É um detalhe, mas representa um problema maior.

“Ponto Sem Retorno” quer ser um drama contemplativo sobre aquilo que permanece depois da destruição e, simultaneamente, um thriller de sobrevivência capaz de produzir sequências de tensão e violência. As duas propostas poderiam coexistir perfeitamente. O problema está na dificuldade de fazer uma alimentar a outra. Quando o filme desacelera, nem sempre encontra profundidade. Quando acelera, frequentemente parece abandonar aquilo que estava tentando discutir.

Essa dificuldade se torna especialmente evidente na segunda metade, quando o longa sofre uma mudança de registro tão brusca que por alguns minutos parece ter esquecido completamente o filme que estava construindo. Não se trata simplesmente de uma mudança de ritmo. Existe uma ruptura tonal capaz de transformar personagens, atmosfera e até a percepção daquele universo de maneira pouco orgânica.

Estranheza pode ser uma ferramenta poderosa em histórias pós-apocalípticas. Um mundo que perdeu suas estruturas sociais não precisa continuar obedecendo às mesmas convenções que conhecemos. O problema surge quando o estranho parece acidental. Em vez de ampliar o desconforto, essa passagem interrompe a imersão e cria a sensação de que duas versões diferentes do mesmo filme foram costuradas durante a montagem.

É frustrante porque existem bons elementos espalhados por “Ponto Sem Retorno”. As sequências aéreas são belíssimas e ganham ainda mais força em uma tela grande. Scott utiliza os espaços abertos para reforçar a insignificância daqueles poucos sobreviventes diante de um mundo que continuou existindo perfeitamente bem depois da humanidade. Existe alguma coisa inquietante na beleza de uma natureza que parece indiferente ao desaparecimento de bilhões de pessoas. Essa talvez seja a imagem mais poderosa oferecida pelo filme: o planeta não acabou, nós quase acabamos.

Mas o roteiro raramente consegue transformar essa percepção em algo mais complexo. Os perigos encontrados durante a jornada frequentemente aparecem com caracterizações simplificadas, quase como obstáculos necessários para lembrar que aquele continua sendo um thriller. Falta imprevisibilidade e, principalmente, falta a sensação de que essas pessoas desenvolveram maneiras realmente novas de existir depois de uma catástrofe capaz de destruir a organização social conhecida. Para um filme ambientado depois do fim do mundo, “Ponto Sem Retorno” é surpreendentemente convencional.

E essa talvez seja sua maior contradição. Ridley Scott filma como alguém diante de uma história gigantesca, mas o roteiro constantemente devolve uma aventura que poderia pertencer a praticamente qualquer produção recente sobre sobreviventes atravessando territórios hostis em busca de alguma promessa de futuro.

A comparação com outros trabalhos do diretor acaba sendo inevitável justamente porque Scott demonstrou durante décadas uma capacidade extraordinária de criar mundos. Mesmo seus filmes mais irregulares costumam carregar alguma obsessão visual, alguma ideia extravagante ou alguma decisão capaz de provocar discussão. Existe uma personalidade cinematográfica difícil de apagar completamente.

Em “Ponto Sem Retorno”, ela aparece principalmente quando o roteiro permite. Scott ainda sabe construir tensão, ainda sabe trabalhar escala e continua extraindo força de imagens que muitos diretores transformariam apenas em planos bonitos. Mas existe uma sensação recorrente de piloto automático, como se sua experiência fosse suficiente para manter a produção tecnicamente acima da mediocridade sem conseguir realmente libertá-la dela. É um filme competente demais para ser ruim e comum demais para ser realmente bom. Talvez isso seja mais decepcionante do que um desastre completo.

Um fracasso gigantesco de Ridley Scott ao menos poderia carregar aquela energia fascinante de alguém tentando algo absurdo e errando em escala monumental. “Ponto Sem Retorno” oferece poucas oportunidades desse tipo. É organizado, visualmente bonito, ocasionalmente tenso e interpretado por um elenco que consegue entregar mais humanidade do que muitos de seus personagens receberam no papel, mas termina deixando pouco para trás.

“Ponto Sem Retorno” procura esperança em um mundo destruído, mas parece esquecer que, antes de encontrar motivos para seus personagens continuarem vivendo, precisava dar ao espectador motivos suficientes para se importar com essa busca. Ridley Scott ainda encontra grandeza nas montanhas, no céu e no vazio deixado pela humanidade. O problema é que, quando aproxima a câmera das pessoas que restaram, o filme raramente encontra algo igualmente fascinante.

“Ponto Sem Retorno”
Direção:
Ridley Scott
Elenco: Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin, Guy Pearce e Allison Janney
Disponível em: cinemas brasileiros

⭐⭐

Avaliação: 2 de 5.

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Temas: CríticaGuy PearceJacob ElordiJosh BrolinMargaret QualleyResenhaReview

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