O Velho Oeste provavelmente já era assustador o suficiente sem qualquer intervenção sobrenatural. Isolamento, doenças sem tratamento adequado, violência, fome, fanatismo religioso e quilômetros de terra separando uma pessoa de qualquer possibilidade de socorro formam um cenário que praticamente implora por uma boa história de terror. “Possuída no Deserto” percebe esse potencial imediatamente e encontra uma premissa deliciosa ao colocar uma menina aparentemente amaldiçoada no meio de um Arizona devastado pela peste. O problema é que Ned Crowley parece encontrar tantas possibilidades dentro dessa ideia que decide perseguir quase todas elas ao mesmo tempo.

Ambientado em meados do século XIX, o filme acompanha Maggie, vivida por DeWanda Wise, uma ex-escravizada que tenta proteger a filha depois que a menina passa a ser considerada uma ameaça por aqueles ao redor. Existe uma razão bastante objetiva para o medo: tudo aquilo que a criança toca parece morrer. Mantendo as mãos cobertas por luvas, ela atravessa um território no qual qualquer acontecimento inexplicável rapidamente encontra explicação na religião, na superstição ou simplesmente na necessidade humana de escolher alguém para culpar.
É nesse contexto que surge o Dr. Bender, personagem de Guy Pearce, um médico viúvo que acompanha mãe e filha durante a tentativa de chegar até o reverendo Ross. Sua presença introduz a oposição mais evidente do roteiro. De um lado, existe um mundo organizado através da fé e do medo do desconhecido. Do outro, um homem que procura explicações concretas para aquilo que todos ao redor preferem chamar de maldição. “Possuída no Deserto” começa muito bem quando permite que ciência, religião e superstição disputem o controle sobre uma realidade que nenhuma delas parece capaz de explicar completamente.
O Arizona retratado por Crowley ajuda bastante nessa construção. Existe sujeira na imagem, desgaste nos rostos e uma sensação constante de que todos naquele lugar estão a alguns dias de distância de alguma tragédia. A fotografia aproveita os grandes espaços para produzir o efeito contrário da liberdade normalmente associada às paisagens de westerns. Quanto maior o horizonte, mais vulneráveis parecem os personagens.
Visualmente, o filme sabe exatamente onde está. A paleta terrosa, a maneira como a luz atravessa ambientes deteriorados e a fotografia das paisagens criam um western que parece permanentemente contaminado por alguma coisa. Há planos realmente bonitos, embora “bonito” talvez seja uma palavra estranha para uma produção tão empenhada em fazer tudo parecer quente, empoeirado e pouco higiênico. Ainda assim, funciona. “Possuída no Deserto” tem textura, algo particularmente importante para um terror que depende tanto da sensação de estar preso em um lugar onde absolutamente ninguém deveria querer permanecer.
Os efeitos práticos também ajudam a preservar essa fisicalidade. Quando a violência aparece, existe peso, sangue e materialidade suficientes para impedir que o horror pareça excessivamente higienizado. É uma pena que o filme utilize esses recursos com certa economia, principalmente porque alguns de seus melhores momentos surgem justamente quando abandona as discussões abstratas e permite que alguma coisa efetivamente aconteça.
Durante boa parte da primeira metade, entretanto, existe uma tensão interessante sendo construída. A menina pode realmente carregar alguma força inexplicável ou simplesmente estar no centro de uma sequência de coincidências interpretadas por pessoas desesperadas? A peste possui alguma relação com aquilo que acontece ao seu redor? Existe possessão ou existe apenas uma sociedade preparada para enxergar o demônio em qualquer fenômeno que desafie sua compreensão?
Essas perguntas são muito mais interessantes do que várias das respostas oferecidas posteriormente.
O roteiro de Crowley quer discutir fé, racismo, ciência, trauma, maternidade, superstição, culpa, charlatanismo, sobrevivência e a maneira como comunidades transformam medo em violência. Nenhuma dessas ideias seria inadequada dentro da história. O problema está na dificuldade de organizá-las em uma narrativa que permita que alguma delas amadureça de verdade.
Em determinado momento, “Possuída no Deserto” começa a parecer menos interessado em aprofundar seus temas do que em garantir que todos eles estejam presentes. O resultado é um filme cheio de símbolos, personagens potencialmente interessantes e conflitos promissores que frequentemente terminam abandonados assim que uma nova ameaça aparece.
O Dr. Bender sofre particularmente com essa estrutura. Guy Pearce é facilmente um dos maiores responsáveis por manter a produção interessante mesmo quando o roteiro começa a girar em círculos. O ator encontra humanidade no ceticismo do personagem e consegue fazer com que sua postura racional pareça menos uma característica escrita para criar oposição temática e mais uma maneira de sobreviver naquele mundo.
Existe também alguma graça na frequência com que Bender precisa perceber que alguém possui intenções questionáveis e correr para resolver mais um problema provocado pelas decisões do grupo. Depois de certo ponto, sua jornada parece incluir simultaneamente as funções de médico, investigador, segurança e único adulto tentando utilizar alguma lógica em quilômetros de deserto.
Pearce segura tudo isso com bastante naturalidade. DeWanda Wise também encontra bons momentos como Maggie, principalmente quando o filme se concentra na relação entre proteção materna e medo. Sua personagem precisa defender uma criança que talvez ela própria não compreenda completamente, enquanto enfrenta pessoas convencidas de que eliminar a menina seria uma forma de salvar todos os demais. Existe um conflito forte nessa posição porque a maternidade deixa de ser apenas um vínculo afetivo e se transforma em resistência contra uma comunidade que já decidiu quem deve carregar a culpa pelo caos.
A química entre Wise e Pearce funciona especialmente bem durante a primeira metade e oferece ao filme uma relação que poderia ter recebido muito mais espaço. Eles possuem perspectivas diferentes sobre aquilo que está acontecendo, mas compartilham uma necessidade prática de continuar vivos. Essa dinâmica produz algumas das melhores interações do longa justamente porque nenhum dos dois precisa estar completamente certo para que o outro esteja errado.
Bill Pullman também entende perfeitamente o tipo de filme em que está e acrescenta uma presença adequada a esse universo de homens que parecem carregar algum segredo, alguma crença ou alguma péssima intenção. O elenco, de maneira geral, consegue entregar mais consistência aos personagens do que o roteiro frequentemente oferece.
Há inclusive uma passagem envolvendo uma família encontrada durante a jornada que demonstra o quanto “Possuída no Deserto” poderia funcionar quando concentra sua atenção em situações menores. Existe desconforto, desconfiança e aquela deliciosa percepção de que alguma coisa não está certa antes mesmo de o roteiro confirmar qualquer ameaça. É um horror construído através da expectativa, não da necessidade de explicar constantemente aquilo que deveria assustar.
Infelizmente, o longa não demonstra a mesma paciência durante toda a narrativa.
Com 1h48 de duração, “Possuída no Deserto” parece consideravelmente mais longo do que deveria. O problema não está simplesmente no número de minutos, mas na maneira como eles são utilizados. Existem trechos em que a jornada perde urgência, diálogos que reforçam ideias já estabelecidas e uma estrutura repetitiva na qual novos problemas aparecem apenas para colocar novamente os personagens em movimento.
O ritmo se torna particularmente complicado porque a trilha sonora parece frequentemente assistir a um filme mais assustador do que aquele exibido na tela. Existe uma insistência em criar peso, escuridão e grandiosidade mesmo em momentos nos quais a direção ainda não estabeleceu tensão suficiente para justificar essa intensidade. Em vez de aprofundar o horror, a música algumas vezes denuncia o esforço para convencer o público de que determinada cena é mais ameaçadora do que realmente consegue ser.
Essa diferença entre intenção e resultado acompanha boa parte do longa. “Possuída no Deserto” quer ser um western sobre fé, um terror sobre possessão, um drama sobre maternidade e uma discussão sobre ciência diante do inexplicável, mas termina permitindo que essas possibilidades disputem espaço em vez de trabalharem juntas.
Quando o terceiro ato finalmente precisa organizar tudo aquilo que foi acumulado, os problemas ficam ainda mais evidentes. Algumas respostas chegam sem a força necessária, outras questões permanecem estranhamente abertas e certas decisões parecem existir mais pela necessidade de produzir uma conclusão impactante do que pela lógica construída anteriormente.
Existe uma diferença importante entre ambiguidade e falta de resolução. Um bom terror pode terminar deixando perguntas, principalmente quando trabalha com religião e sobrenatural. Explicar absolutamente tudo poderia destruir parte da atmosfera. O problema de “Possuída no Deserto” é que algumas lacunas não parecem provocações deliberadas. Parecem simplesmente espaços que o roteiro não conseguiu preencher.
O prólogo é um bom exemplo dessa dificuldade. A abertura cria uma expectativa de conexão e significado que faz o espectador naturalmente esperar por algum retorno mais substancial. Quando isso não acontece da maneira imaginada, fica uma sensação de elemento narrativo utilizado mais para estabelecer atmosfera do que para integrar verdadeiramente a construção da história.
Ainda assim, existe alguma coisa frustrantemente próxima de um bom filme aqui. A produção é visualmente competente, o elenco funciona, a ambientação é excelente e a premissa possui espaço suficiente para produzir um western de horror realmente perturbador. Não falta matéria-prima. Falta controle.
Talvez a maior ironia esteja justamente nisso. “Possuída no Deserto” fala sobre personagens desesperados para encontrar uma explicação única para acontecimentos que parecem escapar de qualquer compreensão, enquanto o próprio filme se recusa a escolher qual história realmente deseja contar. Quanto mais tenta expandir seu universo temático, menos consegue aprofundá-lo.
Existe um ótimo western de horror escondido dentro de “Possuída no Deserto”, mas ele permanece soterrado por ideias demais, ritmo irregular e um terceiro ato incapaz de transformar toda a preparação em uma conclusão realmente satisfatória. Guy Pearce, DeWanda Wise e a fotografia encontram maneiras de manter a viagem interessante, mesmo quando o roteiro parece tão perdido no deserto quanto seus personagens. No fim, a maldição mais difícil de explicar talvez seja como uma premissa tão boa conseguiu chegar tão perto de funcionar sem jamais encontrar completamente o caminho.
“Possuída no Deserto”
Direção: Ned Crowley
Elenco: Guy Pearce, DeWanda Wise, Emily Katherine Ford e Bill Pullman
Disponível em: HBO Max
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