Tem filme que já nasce parecendo uma pegadinha. E “Presa” é exatamente isso: uma promessa de tensão animal no coração do Kalahari que se dissolve numa tentativa confusa de unir fé, redenção e leões invisíveis. O marketing vendeu uma batalha de sobrevivência contra predadores selvagens, mas o que entregaram foi um drama cristão perdido no deserto com atuações automáticas e uma produção que lembra mais um ensaio de colégio do que uma aventura cinematográfica.
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O desastre começa bem antes da queda do avião. O roteiro de “Presa” parece ter sido costurado às pressas com ideias recicladas e nenhuma intenção de honrar o subgênero “animais atacam”. As feras da mata estão presentes apenas em imagens de arquivo, como se o filme tivesse feito um download apressado de um documentário da National Geographic para preencher espaço. Em vez disso, somos arrastados por uma trama onde a fé dos personagens é posta à prova em situações tão absurdas que fazem um musical evangélico parecer verossímil.
A produção é um espetáculo de limitações. O avião parece ter sido montado com papelão, os cenários têm acabamento de pintura inacabada, e o deserto sul-africano vira pano de fundo para atuações sem fôlego. Emile Hirsch alterna entre exagero e tédio, Mena Suvari flutua em decisões que desafiam qualquer lógica, e Ryan Phillippe parece atravessar a história como um holograma desinteressado. Ninguém está ali de verdade. Nem mesmo os leões.
E por falar neles, o suposto terror felino é mais uma ilusão do que um perigo real. Os ataques acontecem fora de cena, quase como se fossem um boato entre os personagens. A ameaça se torna tão abstrata que a tensão evapora antes mesmo de chegar. Ao invés de luta pela vida, o filme oferece diálogos murchos, orações fora de hora e decisões de sobrevivência dignas de um sketch cômico. Nada de improviso com galhos, nada de planos engenhosos para fugir. Apenas a esperança de que o roteiro se resolva sozinho enquanto os personagens esperam passivamente o desfecho.
Mas, ainda que tudo isso jogue contra, há uma estranha energia no ar. Talvez o que segure o interesse seja justamente o desastre sendo encenado com tamanha seriedade. É como assistir um acidente em câmera lenta: você sabe que está ruim, mas não consegue desviar o olhar. Quando o filme finalmente esboça alguma ação, já estamos tão acostumados ao marasmo que qualquer barulho de trilha sonora soa como um espetáculo.
“Presa” poderia ter sido um divertido filme B com leões em CGI, sangue cenográfico e gente correndo desesperada por dunas infinitas. Mas opta por uma proposta mal definida, mal executada e, pior, sem coragem de abraçar o próprio absurdo. No fim, sobra uma sensação de oportunidade perdida. A ideia estava lá, o cenário era promissor, mas tudo foi drenado por um orçamento que se esconde e uma fé cênica que pesa mais que qualquer fera da savana.
Se serve de consolo, o filme não chega a ser entediante. Seu fracasso é ruidoso o bastante para entreter quem tem paciência para ver a máquina pegar fogo sem sair do lugar. Para quem procura um “Jaws” com leões, “Presa” vai parecer um culto dominical com trilha de suspense. Para quem aprecia o caos criativo do cinema barato, talvez haja alguma diversão. Mas é preciso entrar com o espírito certo: o do deboche involuntário.
“Presa”
Direção: Mukunda Michael Dewil
Elenco: Ryan Phillippe, Emile Hirsch, Mena Suvari
Disponível em: Prime Video
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