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Crítica: “Quando o Céu se Engana” (Good Fortune)

A nova aposta do diretor Aziz Ansari “Quando o Céu se Engana” parte de uma premissa clássica da comédia moral, a troca de lugares como ferramenta de aprendizado, mas a reposiciona dentro de um mundo contemporâneo atravessado pela precarização, pelo cansaço social e pela ilusão constante de que prosperidade financeira resolve tudo. Dirigido e protagonizado por Aziz Ansari, o filme usa o fantástico como lente para observar um cotidiano que já funciona, por si só, como uma espécie de purgatório moderno.

Crítica: “Quando o Céu se Engana” (Good Fortune)

Arj é o retrato direto de uma geração que vive de bicos, prazos curtos e recompensas incertas. Seu corpo circula por Los Angeles sem jamais pertencer a ela. Dormir no carro, aceitar trabalhos improvisados e depender da boa vontade alheia se tornam práticas normalizadas. A comédia nasce do absurdo dessa normalização, da forma como a sobrevivência vira rotina e o sonho vira luxo distante.

Jeff, interpretado por Seth Rogen, surge como o contraponto quase caricatural. Rico, confortável e protegido por uma bolha de privilégios, ele transita pela vida com a tranquilidade de quem sempre cai de pé. A amizade entre os dois carrega um desequilíbrio estrutural que o filme explora com ironia, revelando como até relações afetivas podem reproduzir dinâmicas econômicas profundamente injustas.

A virada sobrenatural acontece com a chegada de Gabriel, vivido por Keanu Reeves, um anjo deslocado, curioso demais e consciente de menos. Sua decisão de inverter os destinos funciona como experimento divino e comentário social. O céu aqui observa a Terra como um laboratório, enquanto ignora a complexidade real das consequências. A troca de vidas revela rapidamente que conforto material alivia, mas também anestesia, enquanto a escassez ensina resiliência, mas cobra um preço físico e emocional alto demais.

O roteiro acumula ideias com uma ambição quase televisiva. Reflexões sobre economia de aplicativos, espiritualidade burocratizada, desigualdade social e a sedução do dinheiro convivem no mesmo espaço narrativo. O resultado soa, por vezes, comprimido, como se o filme quisesse ser maior do que seus 97 minutos permitem. Ainda assim, existe uma energia viva nessa confusão, como se a própria narrativa refletisse o excesso de estímulos do mundo que retrata.

Keanu Reeves domina cada cena em que aparece. Seu Gabriel funciona como uma figura de pureza desajustada, descobrindo prazeres básicos com fascínio genuíno. Há algo quase poético em vê-lo experimentar a materialidade da existência, como se o filme encontrasse nesses momentos sua forma mais sincera de humor e encantamento. Mesmo com tempo de tela limitado, sua presença reorganiza o tom do longa sempre que surge.

“Quando o Céu se Engana” jamais pretende ser uma fábula sutil. Ele prefere o exagero, a piada direta e o comentário explícito. Ainda assim, entre risadas e situações caóticas, existe um desconforto persistente. A constatação de que trocar de vida por magia esclarece muito pouco quando o problema se enraíza em estruturas maiores. O céu pode até errar, mas a conta sempre chega na Terra.

“Quando o Céu se Engana”
Direção
: Aziz Ansari
Roteiro: Aziz Ansari
Elenco: Aziz Ansari, Seth Rogen, Keanu Reeves, Sandra Oh
Disponível em: Prime Video, aluguel e compra

Avaliação: 2.5 de 5.

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