Luzes neon piscam, o som explode nas caixas e a plateia se prepara para mais uma noite de exagero, glitter e performances afiadas. O que ninguém espera é que, no meio do espetáculo, a pista de dança vire território de sobrevivência. Em vez de aplausos, surgem gritos. Em vez de fãs, mortos-vivos. É nesse caos deliciosamente absurdo que “Queens of the Dead” encontra sua identidade.
Dirigido por Tina Romero, filha do lendário George A. Romero, o filme assume sem pudor sua herança cinematográfica enquanto decide brincar com ela. A história parte de uma premissa que já entrega o tom: um apocalipse zumbi irrompe durante um drag show no Brooklyn, obrigando club kids e drag queens rivais a deixarem rivalidades de lado para enfrentar criaturas famintas por cérebros. O horror clássico se mistura ao humor ácido, ao exagero camp e à cultura queer com uma confiança que raramente se vê no gênero.
O espírito da franquia criada por Romero pai continua presente, mas aqui surge filtrado por uma nova sensibilidade. “Queens of the Dead” prefere o deboche à solenidade e transforma o caos zumbi em palco para personagens que vivem entre a performance e a sobrevivência. A diretora parece interessada em expandir o universo dos mortos-vivos para um território mais colorido, mais teatral e assumidamente político. É um filme que entende perfeitamente quem quer atingir e não faz o menor esforço para agradar quem está fora dessa sintonia.
Boa parte da força do longa vem justamente da energia do elenco. Katy O’Brian, Jaquel Spivey, Nina Flowers, Margaret Cho e Dominique Jackson abraçam o tom exagerado da narrativa com convicção. O resultado é um desfile de personalidades explosivas, cheias de sarcasmo, rivalidades e comentários afiados, que frequentemente roubam a cena mesmo quando o roteiro parece hesitar.
A dinâmica entre essas figuras funciona porque o filme entende a lógica dessa comunidade. O humor venenoso, a competição estética, a teatralidade constante e, por trás de tudo isso, um forte senso de pertencimento. Quando o caos começa, o longa transforma o conceito de “família escolhida” em sua principal arma narrativa. O grupo pode discutir, provocar e competir, mas diante da ameaça zumbi a união vira questão de sobrevivência.
No campo técnico, o longa também encontra bons momentos. A trilha sonora mergulha na energia pop e clubber, e o uso de “Blow”, de Kesha, surge como um daqueles instantes inesperados que resumem o espírito do filme. A montagem acelerada e a fotografia vibrante reforçam a sensação de um espetáculo que nunca abandona a estética da pista de dança, mesmo quando corpos começam a cair.
Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma precisão. O roteiro frequentemente aposta em piadas que se repetem ou perdem força ao longo da segunda metade. Em certos momentos, o terror parece recuar para dar espaço às interações entre personagens. Isso não é exatamente um problema conceitual, mas cria um desequilíbrio. O filme tem personagens interessantes e um universo visual forte, porém o horror poderia ter sido explorado com mais intensidade.
O resultado final acaba sendo curioso. “Queens of the Dead” nunca se transforma no grande clássico que poderia ser, mas também passa longe de ser esquecível. O longa diverte, provoca risadas e apresenta um olhar diferente sobre um subgênero que muitas vezes se repete. Há uma sensação clara de potencial ainda em construção, como se Tina Romero estivesse testando os limites de sua própria voz autoral.
Mesmo com desvios narrativos, permanece a impressão de que a diretora encontrou um caminho próprio dentro do legado que herdou. Entre sangue, glitter e sarcasmo, o filme mostra que ainda existe espaço para reinventar o apocalipse zumbi. E quando essa reinvenção acontece no meio de um palco iluminado por neon, a experiência se torna, no mínimo, memorável.
“Queens of the Dead”
Direção: Tina Romero
Elenco: Katy O’Brian, Margaret Cho, Jack Haven
Disponível em: cinemas brasileiros
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