Poucos documentários recentes carregam uma aura tão contraditória quanto “Realeza Rebelde: Um Amor Improvável“. A produção parte de um ponto explosivo por si só: o casamento de Märtha Louise, princesa da Noruega, com o autoproclamado xamã Durek Verrett. A união, marcada por controvérsias, resistências da família real e um bombardeio midiático, já parecia um roteiro pronto para a ficção, mas aqui ganha os contornos de um retrato documental que busca legitimar o improvável.
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O longa conduzido por Rebecca Chaiklin, a mesma diretora que explorou os excessos de “Tiger King”, tenta dar brilho a uma história que nasceu cercada de turbulências. A tensão entre o conservadorismo da monarquia e a figura excêntrica de Durek é a espinha dorsal do filme, e nisso há combustível dramático suficiente para manter o espectador atento. O problema é que a obra se perde entre o fascínio pela extravagância e o medo de mergulhar nas camadas mais sombrias dessa relação.
O documentário expõe festas, roupas chamativas e preparativos de casamento como se estivesse diante de um reality show caro, mas evita enfrentar as polêmicas mais graves que envolvem Durek: das declarações religiosas questionáveis às acusações de charlatanismo, passando por falas perigosas sobre saúde pública. Ao invés de explorar os abismos, a narrativa prefere escorregar para a superfície, transformando o que poderia ser um estudo sobre poder, fé, preconceito e imagem pública em algo mais próximo de um perfil publicitário.
Há, claro, momentos em que “Realeza Rebelde: Um Amor Improvável” provoca um certo riso nervoso. O contraste entre uma princesa que afirma ter dons mediúnicos e um xamã que já vendeu amuletos supostamente capazes de curar Covid-19 cria uma atmosfera quase absurda, e a própria direção parece por vezes estimular esse tom satírico. O filme oscila entre o deboche involuntário e a tentativa de construir uma narrativa de superação romântica, mas sem a coragem de escolher um caminho claro.
Ao contrário de documentários que se propõem a revelar as contradições de seus personagens, como “Untold: The Liver King” ou “Grenfell: Uncovered”, o filme prefere contornar as perguntas difíceis. Fica a sensação de um material que poderia ter sido uma investigação poderosa sobre o impacto de crenças pessoais em estruturas tradicionais de poder, mas que termina sendo um relato leve demais para o tamanho da polêmica.
“Realeza Rebelde: Um Amor Improvável” funciona como uma vitrine colorida, mas limitada. É um registro curioso para quem acompanha a vida da família real norueguesa ou para quem busca entender como a monarquia europeia se adapta a tempos de celebridades instantâneas e narrativas espirituais improváveis. No entanto, fica evidente que o filme escolhe mais proteger seus protagonistas do que revelar a complexidade real por trás deles.
“Realeza Rebelde: Um Amor Improvável”
Direção: Rebecca Chaiklin
Elenco: Märtha Louise, Durek Verrett
Disponível em: Netflix
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