Entre corredores úmidos, ecos de passos que não pertencem a ninguém vivo e a sensação de que cada porta esconde um trauma antigo, a franquia que transformou o medo em entretenimento volta a encarar o próprio passado. “Resident Evil 9: Requiem” é uma tentativa calculada de organizar o caos de décadas, revisitar cicatrizes abertas em Raccoon City e provar que ainda existe fôlego para surpreender.
Desenvolvido e publicado pela Capcom, o jogo chega em 2026 como continuação direta de “Resident Evil Village” e assume uma responsabilidade pesada. Depois de experiências que privilegiaram ora o horror mais claustrofóbico, ora a ação desenfreada, a proposta aqui é unir tudo em um pacote coeso. Puzzles inteligentes, tensão sufocante e tiroteios catárticos dividem o mesmo espaço sem que um anule o outro.
A grande novidade atende pelo nome de Grace Ashcroft, analista do FBI lançada no epicentro de uma nova onda de mortes ligadas aos sobreviventes do incidente de Raccoon City. Ao seu lado está Leon S. Kennedy, agora mais velho, redesenhado com marcas visíveis do tempo e do trauma. A alternância entre os dois personagens é o coração estrutural da experiência.
Com Grace, o jogo abraça o espírito de “Resident Evil 7: Biohazard”. O terror aqui é íntimo, quase cruel. Presa no hospital de Rhodes Hill, sob a sombra teatral do vilão Victor Gideon, ela precisa resolver enigmas, decifrar cofres, reorganizar itens e sobreviver com recursos escassos. Cada bala importa. Cada erva é uma decisão moral. Atirar ou correr deixa de ser escolha estética e vira estratégia de sobrevivência. A presença constante de criaturas que patrulham corredores obriga a memorizar rotas, estudar padrões e respeitar o silêncio. O medo não vem apenas do susto, mas da antecipação.
Já com Leon, o jogo muda de pulso. A influência de “Resident Evil 4” é evidente na cadência da ação e no prazer quase coreografado do combate. Rifles, escopetas, pistolas e machados ganham protagonismo em sequências que apostam no impacto visual e na fluidez dos controles. A sensação de domínio é deliberada. Leon não sobrevive por milagre, ele impõe presença. O sistema de parry simples e preciso reforça essa confiança e evita frustrações artificiais. Quando o jogador falha, entende o motivo.
O equilíbrio entre essas duas abordagens é o grande trunfo de “Resident Evil 9: Requiem”. Em vez de misturar tudo de maneira apressada, o jogo distribui funções. Grace carrega o peso do horror psicológico e da vulnerabilidade. Leon assume o espetáculo, a adrenalina e os confrontos monumentais. Ao longo da campanha de cerca de dez horas, as peças se encaixam com eficiência rara. Não há missões infladas para prolongar artificialmente a experiência. Cada corredor, cada quebra-cabeça e cada confronto parecem existir por uma razão clara.
Visualmente, o título aproveita a RE Engine para entregar ambientes densos, com iluminação que transforma sombras em ameaça constante. Raccoon City surge como fantasma arquitetônico, evocando memórias afetivas dos jogos clássicos sem parecer refém delas. O retorno à cidade poderia soar oportunista. Aqui, funciona como rito de passagem.
Nem tudo é unanimidade. O ritmo alternado pode causar estranhamento em quem prefere uma única identidade tonal. Alguns trechos mostram pequenas oscilações de consistência, sobretudo na transição entre tensão e espetáculo. Ainda assim, a recepção crítica foi majoritariamente positiva, celebrando justamente aquilo que parecia impossível: a fusão entre survival horror e ação explosiva.
No fim das contas, “Resident Evil 9: Requiem” atua como síntese. É um jogo que olha para trás sem perder a coragem de avançar. Ao reunir o medo claustrofóbico de capítulos recentes com a energia cinematográfica de fases mais ousadas da série, entrega um capítulo que respeita o legado e entende o presente.
Resta ao jogador aceitar o convite. Abrir a porta. E descobrir que, mesmo depois de tantos anos, o som de um gemido ao longe ainda é capaz de gelar a espinha.
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