O novo álbum do duo australiano Royel Otis, “Hickey”, chega com a missão de consolidar uma identidade sonora que já vinha sendo lapidada desde a estreia. E o faz em um terreno delicado: o da juventude traduzida em música, com toda a sua leveza, exagero e contradição. É um trabalho que tenta dar forma ao amor caótico, às inseguranças e às epifanias rápidas, mas que, ao mesmo tempo, não busca esconder suas imperfeições. O disco soa como um retrato cru de uma fase da vida em que nada precisa ser definitivo, mas tudo precisa ser intenso.
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Musicalmente, “Hickey” caminha entre o indie rock despojado, o brilho nostálgico da new wave e o dream-pop que envolve em camadas etéreas. A produção aposta em guitarras arejadas, sintetizadores que funcionam como pontes emocionais e uma bateria sempre firme, conduzindo o ouvinte sem deixar que a energia se dissipe. É um álbum que prioriza a sensação, o impacto imediato, mais do que a inovação ou a busca por grandes experimentos. Nesse sentido, a proposta é clara: criar canções que se sustentem no campo da honestidade e da vibração juvenil.
Ainda que a coesão seja um desafio evidente, a obra mantém um fio condutor no modo como trata o excesso como estética. A sequência de músicas não cria uma narrativa linear, mas sim um mosaico de humores, em que a melancolia se mistura ao entusiasmo quase infantil. Esse aparente desequilíbrio pode frustrar quem espera um conceito amarrado do início ao fim, mas também pode ser lido como a maior qualidade do disco: uma colagem imperfeita que traduz o espírito da sua própria geração.
Tecnicamente, há avanços em relação ao álbum anterior. O som está mais polido, a produção valoriza a voz de Otis em registros mais contidos, e a dupla se mostra mais confortável em brincar com contrastes de textura. Por outro lado, a previsibilidade em determinados momentos faz com que parte do material soe como uma repetição de fórmulas já testadas. O frescor aparece em flashes, e isso mantém o ouvinte atento, mas nem sempre é suficiente para sustentar a promessa de algo memorável.
No fim, “Hickey” entrega aquilo que se propõe: um disco divertido, energético e sincero, feito para embalar quem busca música que traduz um estado de espírito imediato. Pode não ser um marco de inovação, mas cumpre o papel de capturar uma juventude que prefere intensidade à perfeição. É um trabalho que encontra sua força não na grandiosidade, mas na capacidade de soar verdadeiro, ainda que imperfeito.
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