Shakespeare e a cultura japonesa já se encontraram tantas vezes no cinema que qualquer nova aproximação corre o risco de chegar carregando uma sensação de familiaridade antes mesmo da primeira imagem. Mamoru Hosoda parece perfeitamente consciente disso em “Scarlet” e, em vez de tentar provar que encontrou uma maneira inédita de adaptar “Hamlet”, faz algo muito mais interessante: desmonta a tragédia, recolhe aquilo que ainda pulsa dentro dela e pergunta se uma história construída sobre vingança necessariamente precisa terminar obedecendo às mesmas regras. Hosoda não utiliza Shakespeare como monumento intocável, mas como matéria viva, e “Scarlet” ganha força justamente quando percebe que dialogar com um clássico também significa ter coragem para discordar dele.

A protagonista é uma princesa consumida pelo desejo de vingar a morte do pai. Scarlet falha em sua missão e acaba na Terra dos Mortos, um espaço que não obedece às dimensões convencionais de tempo, realidade ou geografia. Sua existência passa a depender da capacidade de concluir aquilo que começou e alcançar o chamado Local Sem Fim antes que seja completamente apagada. A princípio, portanto, a morte não interrompe a vingança. Ela simplesmente oferece outro território para que a obsessão continue.
É uma ideia extraordinariamente adequada ao universo de Mamoru Hosoda porque seu cinema sempre demonstrou fascínio por espaços intermediários. Realidade e mundo virtual, humanidade e fantasia, presença e ausência, infância e amadurecimento frequentemente convivem em suas histórias como dimensões separadas por fronteiras muito menos rígidas do que imaginamos. Em “Scarlet”, essa característica encontra talvez sua expressão mais radical porque a protagonista literalmente precisa atravessar um espaço entre existência e desaparecimento enquanto tenta compreender o que ainda justifica continuar existindo.
A referência a “Hamlet” é evidente, mas Hosoda não parece interessado em construir uma equivalência matemática entre personagens e acontecimentos. Scarlet ocupa o espaço dramático do príncipe shakespeariano, enquanto a estrutura de traição, morte e vingança fornece o esqueleto reconhecível da narrativa, mas o filme rapidamente demonstra que utilizará essa herança para chegar a outro lugar. Se “Hamlet” transforma a hesitação diante da vingança em tragédia, “Scarlet” transforma a própria necessidade de vingança em algo que precisa ser interrogado.
Essa diferença é essencial porque Scarlet não está simplesmente tentando descobrir se possui coragem suficiente para concluir sua missão. Ela precisa compreender quem continuará sendo caso consiga. A vingança inicialmente organiza sua identidade de maneira tão absoluta que abandonar esse objetivo parece quase equivalente a abandonar o pai, sua história e a própria razão pela qual ainda permanece naquele universo.
Hosoda entende que uma obsessão se torna verdadeiramente perigosa quando deixa de ser apenas aquilo que uma pessoa deseja e passa a determinar aquilo que ela acredita ser. Scarlet não carrega somente raiva. Ela construiu uma versão de si mesma ao redor dessa raiva, e qualquer possibilidade de mudança exige desmontar também a personagem que aprendeu a existir através dela.
É nesse contexto que o encontro com um socorrista vindo do presente se torna fundamental. A presença de alguém pertencente a outro período histórico poderia facilmente funcionar apenas como mecanismo cômico ou explicativo, mas “Scarlet” utiliza essa diferença temporal para discutir algo muito mais interessante sobre moralidade. Os dois personagens não foram apenas criados em épocas diferentes. Foram ensinados a compreender vida, morte, dever, honra e violência através de estruturas culturais completamente distintas.
Essa colisão oferece ao filme uma pergunta particularmente incômoda: quanto daquilo que acreditamos ser uma escolha individual é realmente resultado do tempo em que fomos ensinados a existir? Scarlet compreende vingança através de um mundo no qual honra, linhagem e violência possuem significados específicos. Seu companheiro carrega uma relação contemporânea com a preservação da vida, e Hosoda evita transformar essa diferença em uma disputa simplista entre passado bárbaro e presente esclarecido.
“Scarlet” é muito mais interessante quando percebe que ninguém escolhe o próprio ponto de partida moral. Nascemos dentro de sociedades que já estabeleceram determinadas regras, herdamos conceitos antes mesmo de possuirmos linguagem suficiente para questioná-los e frequentemente confundimos aquilo que aprendemos com aquilo que somos. O percurso da protagonista consiste justamente em descobrir se é possível romper essa continuidade sem destruir tudo aquilo que veio antes.
Visualmente, Hosoda encontra na Terra dos Mortos um território perfeito para abandonar qualquer compromisso com estabilidade. Não existe necessidade de construir uma geografia perfeitamente racional porque aquele espaço pertence a uma lógica espiritual e emocional. Paisagens podem se transformar, culturas distintas podem se cruzar e personagens de diferentes origens podem coexistir porque tempo e espaço deixaram de funcionar como organizadores absolutos daquele universo.
A animação aproveita essa liberdade com imagens que oscilam entre delicadeza e escala monumental. Há momentos em que “Scarlet” trabalha pequenas expressões e gestos com uma sensibilidade quase íntima, enquanto outros parecem interessados em engolir completamente a personagem dentro da paisagem. Hosoda compreende que animação não precisa imitar as limitações físicas do cinema de ação real, então utiliza escala, movimento e transformação como extensões do estado emocional de Scarlet.
Essa relação entre imagem e sentimento é especialmente importante porque estamos diante de um diretor completamente desinteressado pela ironia como mecanismo de proteção. Personagens choram, gritam, amam, sofrem e demonstram aquilo que sentem sem que o filme precise imediatamente fazer uma piada para garantir ao público que ninguém está levando tudo aquilo a sério demais. Em uma época na qual tantas produções parecem constrangidas pela possibilidade de demonstrar emoção sem algum tipo de distanciamento, existe algo quase radical na sinceridade de Hosoda.
É justamente essa sinceridade que pode afastar algumas pessoas. “Scarlet” não possui medo de ser sentimental, e existem momentos em que o filme atravessa deliberadamente a fronteira entre emoção e melodrama. Hosoda prefere correr o risco de sentir demais a construir uma obra emocionalmente esterilizada, e essa escolha combina perfeitamente com uma protagonista cuja jornada depende de aprender que vulnerabilidade não representa necessariamente fracasso.
O filme também encontra bastante energia quando transforma sua dimensão filosófica em ação. A Terra dos Mortos não existe apenas como cenário contemplativo e oferece confrontos que utilizam muito bem a plasticidade da animação. Há velocidade, impacto e uma sensação física surpreendente em determinados movimentos, especialmente quando a escala das ameaças cresce e Scarlet precisa enfrentar algo muito maior do que aquilo que imaginava.
Ainda assim, as melhores sequências não são necessariamente aquelas que possuem mais movimento. Hosoda encontra algumas de suas imagens mais poderosas quando permite que o fantástico funcione como manifestação concreta de estados internos. Céus, criaturas, água, luz e paisagem deixam de ser apenas elementos de composição e passam a reagir emocionalmente àquilo que acontece com os personagens.
Essa é uma característica recorrente de seu cinema, mas “Scarlet” parece levá-la a uma dimensão especialmente apropriada. Em um mundo sem fronteiras estáveis entre realidade, morte e memória, não existe motivo para que sentimentos permaneçam invisíveis. A animação transforma trauma, medo e desejo em matéria visual, fazendo com que aquilo que poderia permanecer restrito ao diálogo literalmente ocupe espaço diante dos personagens.
É também nesse ponto que a influência espiritual japonesa se torna muito mais interessante do que qualquer tentativa de simplesmente vestir “Hamlet” com elementos orientais. Impermanência, ciclos, transformação e continuidade atravessam a narrativa sem que o filme precise organizar tudo como uma aula de filosofia. Hosoda incorpora essas ideias à própria estrutura da jornada, contrapondo a obsessão de Scarlet por uma ação definitiva à percepção de que existência é necessariamente transformação.
A vingança é sedutora justamente porque promete conclusão. Alguém retirou alguma coisa de você, então basta retirar algo dessa pessoa e a balança estaria novamente equilibrada. “Scarlet” desmonta essa fantasia ao mostrar que violência não devolve o mundo anterior. O pai continuará morto, a perda continuará existindo e a pessoa que concluir a vingança não será aquela que existia antes do trauma.
Isso não significa que Hosoda trate perdão como uma resposta simples ou moralmente superior que pode ser aplicada a qualquer situação. O filme seria muito menos interessante se transformasse toda a jornada em uma lição sobre a necessidade de perdoar. A questão está em descobrir se Scarlet consegue escolher alguma coisa que não tenha sido determinada exclusivamente pela violência cometida contra ela.
Existe uma diferença gigantesca entre perdoar alguém e se recusar a permitir que essa pessoa continue determinando quem você será. É nesse espaço que “Scarlet” encontra uma interpretação muito particular da tragédia shakespeariana, porque a protagonista começa sua jornada acreditando que concluir a vingança significa recuperar controle, mas gradualmente percebe que permanecer inteiramente organizada ao redor dela talvez seja apenas outra forma de continuar aprisionada pelo mesmo acontecimento.
A presença de personagens conhecidos do universo de “Hamlet” amplia essa conversa sem transformar o filme em um exercício de reconhecimento. Para quem conhece a peça, existem ecos, inversões e relações que adicionam outra camada à experiência. Para quem nunca leu Shakespeare, a narrativa permanece perfeitamente compreensível porque Hosoda não exige conhecimento prévio para estabelecer os conflitos emocionais.
Essa acessibilidade é uma qualidade importante. Filmes baseados em clássicos frequentemente confundem erudição com profundidade e começam a recompensar o espectador por reconhecer referências em vez de construir uma obra que consiga existir independentemente delas. “Scarlet” utiliza “Hamlet” como fundação, mas não obriga ninguém a carregar uma edição comentada da peça para compreender aquilo que está acontecendo.
O conhecimento do texto original, entretanto, torna especialmente interessante observar aquilo que Hosoda decide modificar. A famosa relação de “Hamlet” com a impossibilidade de agir ganha outra dimensão quando colocada em uma protagonista que precisa descobrir se agir realmente produzirá aquilo que deseja. A pergunta deixa de ser apenas se ela terá coragem de completar a vingança e passa a envolver aquilo que restará dela depois.
É uma mudança aparentemente simples, mas profundamente coerente com o restante da filmografia de Hosoda. Seus personagens frequentemente atravessam mundos extraordinários apenas para descobrir algo profundamente humano sobre pertencimento, família, identidade ou amadurecimento. O fantástico nunca existe exclusivamente pela possibilidade de criar imagens bonitas, embora ele seja excepcionalmente competente nisso. Os mundos impossíveis de Hosoda costumam funcionar como lugares onde sentimentos absolutamente possíveis finalmente se tornam grandes demais para serem ignorados.
“Scarlet” preserva essa característica mesmo quando se aproxima mais da tragédia do que muitos de seus trabalhos anteriores. Existe violência, existe morte e existe uma pergunta genuína sobre a possibilidade de encontrar algum futuro depois que o passado assumiu controle absoluto sobre uma pessoa. A Terra dos Mortos funciona, nesse sentido, como cenário e metáfora sem que uma função precise eliminar a outra.
O filme também entende que uma jornada sobre abandonar determinadas certezas não pode oferecer respostas fáceis sem contradizer a própria proposta. Existem momentos em que sua defesa emocional da vida e do perdão se aproxima perigosamente de uma ingenuidade de conto de fadas, mas essa ingenuidade não me parece acidental. Hosoda sabe perfeitamente que imaginar uma alternativa à vingança pode parecer infantil dentro de um mundo construído para naturalizá-la.
Talvez seja justamente por isso que ele insiste nela.
Não como uma frase de efeito otimista, mas como escolha estética e moral que atravessa toda a narrativa. “Scarlet” não pretende corrigir Shakespeare e muito menos sugerir que encontrou uma resposta definitiva para uma questão discutida há séculos. O filme simplesmente se permite imaginar outra possibilidade, e existe coragem em fazer isso sem transformar esperança em cinismo alguns segundos depois.
O contraste com “Hamlet” se torna especialmente poderoso justamente porque sabemos onde aquela tragédia termina. Shakespeare constrói um mundo no qual vingança, hesitação, poder e violência avançam até praticamente não restar ninguém para continuar discutindo suas consequências. Hosoda olha para essa herança e parece interessado na possibilidade de interromper o mecanismo antes que ele complete novamente o mesmo ciclo.
Se a tragédia clássica frequentemente encontra grandeza na inevitabilidade, “Scarlet” procura grandeza na possibilidade de recusar aquilo que parecia inevitável. Essa diferença define o filme muito mais profundamente do que qualquer troca de gênero do protagonista ou mudança de cenário.
Mana Ashida carrega essa transformação emocional com uma interpretação vocal que precisa equilibrar determinação, raiva e uma vulnerabilidade que aumenta conforme Scarlet começa a perder as certezas responsáveis por mantê-la em movimento. Masaki Okada funciona muito bem como contraponto porque sua presença introduz outra relação com aquele universo sem simplesmente substituir a protagonista como centro moral da história. Masachika Ichimura completa um conjunto de vozes que entende a intensidade emocional exigida pelo material sem tentar diminuí-la.
Hosoda também demonstra segurança suficiente para permitir que algumas imagens permaneçam maiores do que qualquer explicação. Nem todo símbolo precisa receber tradução e nem toda criatura precisa existir dentro de uma mitologia detalhadamente catalogada. A Terra dos Mortos funciona justamente porque preserva alguma estranheza, como se aquele lugar estivesse sempre alguns passos além da compreensão de quem o atravessa.
Esse mistério visual impede que a dimensão espiritual do filme se transforme em sistema. Estamos acostumados a universos fantásticos que parecem exigir manuais, mapas, regras e explicações para cada fenômeno, mas “Scarlet” entende que existem espaços imaginários cuja força depende justamente daquilo que não pode ser completamente organizado.
Talvez algumas pessoas encontrem nessa abordagem uma narrativa excessivamente sentimental ou filosoficamente direta, especialmente na reta final. Existe uma sinceridade quase desconcertante na maneira como Hosoda acredita na possibilidade de transformação de sua protagonista, e quem procura uma releitura mais cruel ou intelectualmente distante de “Hamlet” provavelmente encontrará resistência nessa escolha.
Eu encontro justamente o contrário. É muito mais fácil transformar uma tragédia em outra tragédia do que olhar para uma história conhecida por sua destruição e perguntar, sem ironia, se alguém poderia escolher continuar vivendo. Hosoda aceita o risco de parecer ingênuo porque sabe que cinismo também pode ser uma escolha fácil, principalmente quando estamos falando sobre um texto que passou séculos associado à impossibilidade de escapar de determinadas consequências.
“Scarlet” não rejeita a dor de “Hamlet”, mas rejeita a ideia de que respeitá-la significa necessariamente reproduzir seu destino. Existe luto suficiente para reconhecer a violência que colocou sua protagonista naquele caminho, mas existe também espaço para imaginar que uma pessoa não precisa permanecer para sempre definida pelo pior acontecimento de sua vida.
Essa ideia poderia facilmente resultar em uma mensagem genérica sobre superação, porém Hosoda encontra complexidade ao relacioná-la com tempo, cultura e identidade. Scarlet precisa abandonar não apenas uma missão, mas parte da estrutura através da qual aprendeu a compreender honra e existência. Mudar significa aceitar que algumas certezas herdadas talvez nunca tenham pertencido verdadeiramente a ela.
Por isso, o encontro entre Japão e Shakespeare funciona tão bem. Não porque exista alguma compatibilidade superficial entre samurais, honra e tragédia, mas porque diferentes tradições culturais podem olhar para as mesmas perguntas e encontrar respostas incompatíveis. Hosoda não apaga Shakespeare para inserir sua própria visão. Ele coloca as duas perspectivas em conflito e deixa que “Scarlet” nasça justamente dessa fricção.
O resultado é uma obra visualmente ambiciosa, emocionalmente desarmada e suficientemente confiante para acreditar que esperança não precisa pedir desculpas por existir. Existem momentos em que a narrativa se aproxima do excesso sentimental, algumas ideias são expressas com mais clareza do que talvez precisassem e nem todas as passagens da Terra dos Mortos possuem a mesma força, mas a convicção de Hosoda impede que essas fragilidades transformem sinceridade em ingenuidade vazia.
“Scarlet” entende que revisitar “Hamlet” em 2026 não precisa significar encontrar outra maneira de chegar ao mesmo silêncio. Mamoru Hosoda atravessa morte, vingança e séculos de tradição para imaginar uma protagonista capaz de descobrir que continuar vivendo também pode ser um gesto de insubordinação. Depois de tantas releituras fascinadas pela beleza da tragédia, existe algo profundamente bonito em encontrar uma que olha para o mesmo abismo, reconhece tudo aquilo que existe lá dentro e ainda assim decide procurar uma saída.
“Scarlet”
Direção: Mamoru Hosoda
Elenco: Mana Ashida, Masaki Okada e Masachika Ichimura
Disponível em: HBO Max
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