Existem filmes que chegam até nós disfarçados. Você aperta o play acreditando que vai rir, que a leveza vai tomar conta da tela, e de repente se vê diante de um mergulho emocional que não estava previsto. “Sem Instruções” é exatamente isso: um filme que se apresenta como comédia, mas que logo revela sua verdadeira face, a de um drama que toca fundo, mexe com as emoções e abre uma ferida difícil de fechar.
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A história começa nas Ilhas Canárias, onde Leo, interpretado por Paco León, leva uma vida despreocupada, marcada por relacionamentos passageiros e por uma rotina quase leviana. Essa tranquilidade acaba quando Julia, uma antiga paixão, reaparece apenas para deixar nos braços dele um bebê de poucos meses e desaparecer sem explicações. A partir desse momento, tudo muda. A comédia insinuada nos primeiros instantes se dissolve, dando espaço a uma narrativa que fala sobre responsabilidade, amadurecimento e, acima de tudo, sobre amor.
O que surpreende em “Sem Instruções” não é só o enredo, mas a forma como ele se recusa a cair na caricatura. Não há exageros melodramáticos, tampouco sentimentalismo barato. O filme aposta em um equilíbrio raro entre doçura e dor, apresentando uma história que se constrói no detalhe, no olhar entre pai e filha, no cotidiano que se transforma em afeto verdadeiro. A relação entre León e a pequena Maia Zaitegi é o coração da obra, e sua naturalidade na tela torna tudo crível. Há momentos em que o espectador sente quase como se estivesse invadindo uma intimidade real, tamanha a química entre os dois.
E é aqui que a obra brilha: na capacidade de inverter expectativas. O rótulo de comédia pode até enganar, mas o que temos é um drama familiar intenso, que caminha para um desfecho devastador e, ainda assim, profundamente humano. Ao contrário da versão mexicana que inspirou esta releitura, dirigida por Eugenio Derbez, o longa espanhol opta por reduzir os excessos e transformar a história em algo mais direto e sincero. Marina Seresesky conduz a trama com sobriedade, oferecendo um dramedy que evita fórmulas fáceis e entrega um retrato potente sobre como o amor nasce no improviso e cresce sem pedir permissão.
“Sem Instruções” é também um lembrete sobre como o cinema pode se infiltrar em nossas vidas quando menos esperamos. Um espectador desavisado pode terminar o filme em lágrimas, com a sensação de que algo foi roubado e, ao mesmo tempo, entregue de presente. Afinal, o que poderia ser uma história comum sobre abandono materno e paternidade improvisada se torna um manifesto sobre coragem, perda e a necessidade de viver o presente.
É esse tipo de cinema que fica na memória: não o que segue fórmulas, mas o que se atreve a enganar o público para depois entregá-lo a uma experiência catártica. Ao final, a dor se mistura à beleza, e fica a certeza de que, às vezes, a vida chega sem manual, sem instruções, e a gente precisa aprender a lidar com ela no susto.
“Sem Instruções”
Direção: Marina Seresesky
Elenco: Paco León, Maia Zaitegi, Silvia Alonso
Disponível em: Prime Video
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