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Crítica: “Sequestro” (Hijack) – segunda temporada

Entre o som metálico dos trilhos, olhares desconfiados e a sensação constante de que algo pode dar errado a qualquer segundo, o suspense contemporâneo encontra um novo campo de tensão na segunda temporada de “Sequestro”. Depois de transformar um avião comercial em um dos espaços mais claustrofóbicos da televisão recente, a série decide trocar o céu pelos túneis subterrâneos de Berlim. A mudança parece simples, mas redefine completamente a experiência narrativa.

Crítica: “Sequestro” (Hijack) – segunda temporada

O protagonista Sam Nelson retorna carregando cicatrizes invisíveis. Sobrevivente dos eventos da primeira temporada, ele agora vive sob um estado permanente de alerta. A série entende que o verdadeiro trauma não termina quando o perigo acaba. Ele permanece nos gestos, nas suspeitas e principalmente na incapacidade de confiar no acaso.

Interpretado novamente por Idris Elba, Sam se consolida como um raro exemplo do herói moderno que não depende de força física exagerada para funcionar. Sua principal arma continua sendo a negociação, a leitura emocional das pessoas e a tentativa desesperada de evitar que a violência seja a única solução possível. Elba domina o arquétipo do homem comum colocado em situações extraordinárias, algo que o aproxima mais da tensão psicológica de “24 Horas” do que do espetáculo explosivo típico do gênero.

A ambientação no metrô alemão traz uma inteligência visual interessante. Diferente do avião da temporada anterior, onde a ameaça vinha da impossibilidade de escapar, aqui o perigo nasce da circulação constante. Passageiros entram e saem, suspeitos surgem e desaparecem, pistas falsas se acumulam. O espectador passa a desconfiar de tudo, exatamente como Sam.

A direção de Jim Field Smith conduz o primeiro episódio como um jogo de manipulação narrativa. Durante boa parte da estreia, a série parece repetir a fórmula conhecida. Um homem com mochila suspeita, policiais atentos, tensão crescente. Tudo indica um novo sequestro previsível. Então a história muda de direção e revela que o público estava sendo conduzido por uma cortina de fumaça cuidadosamente construída.

Esse movimento é o maior acerto da temporada. “Sequestro” compreende que suspense moderno depende menos do evento e mais da antecipação dele. Enquanto aguardamos o inevitável colapso, a narrativa investiga paranoia, memória e consequências emocionais do passado.

Berlim também funciona quase como personagem. Estações frias, corredores longos e túneis silenciosos ampliam a sensação de vigilância constante. Existe uma atmosfera europeia mais sóbria que diferencia a série de produções americanas tradicionais, aproximando o tom de thrillers políticos contemporâneos.

O roteiro amplia o mistério ao conectar os novos acontecimentos diretamente ao voo KA29, mostrando que a história jamais terminou de verdade. A ameaça deixa de ser isolada e passa a sugerir uma conspiração maior, algo que transforma cada detalhe em possível pista narrativa.

Entre os coadjuvantes, o retorno de Archie Panjabi fortalece a continuidade emocional da série, enquanto novas figuras surgem para ampliar o tabuleiro de suspeitas. O destaque inesperado fica com Albrecht Schuch, cuja presença silenciosa contribui para o clima de desconforto crescente.

A comparação inevitável com séries clássicas do suspense televisivo surge naturalmente. Assim como “Lost” transformava perguntas em combustível narrativo, “Sequestro” constrói tensão através da dúvida constante. Quem está no controle? Quem manipula os eventos? E principalmente, por que Sam continua sendo o centro dessas crises?

A segunda temporada demonstra maturidade ao compreender que repetir o conceito original seria o caminho mais fácil. Em vez disso, escolhe expandir o universo emocional do protagonista, explorando consequências psicológicas e ampliando o alcance do mistério.

O resultado é um retorno que preserva o ritmo acelerado da primeira fase, mas adiciona camadas mais densas de suspense e paranoia. Cada estação do metrô funciona como capítulo de um quebra-cabeça maior, conduzindo o espectador por uma jornada onde o perigo pode surgir no próximo vagão ou dentro da própria mente do herói.

“Sequestro”
Direção
: Jim Field Smith
Elenco: Idris Elba, Albrecht Schuch, Alec Newman, Archie Panjabi, Christiane Paul, Christian Näthe
Disponível em: Apple TV

Avaliação: 3.5 de 5.

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