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Crítica: “Sexa”

Há algo magnético em observar quando uma artista veterana decide assumir o volante e testar uma nova estrada. “Sexa” se apresenta exatamente assim: um mergulho corajoso, às vezes desajeitado, mas carregado de um charme próprio que nasce do gesto de Glória Pires ao arriscar sua primeira direção. Logo nos primeiros minutos, o filme escancara que não busca estética de vanguarda nem tenta competir com as narrativas polidas do cinema contemporâneo. Ele deseja outra coisa. Ele deseja aconchego. E deseja declarar que certas histórias amadurecem melhor quando abraçam o tempo de onde vieram.

Crítica: “Sexa”

A trajetória de Bárbara, interpretada pela própria Glória, caminha por um território familiar: a mulher que chega aos 60 anos encarando a pressão da idade com um misto de ironia, ansiedade e carinho consigo mesma. É uma personagem construída a partir de clichês reconhecíveis, mas Glória injeta nela uma graça quase doméstica, como se abrisse a porta de sua casa e convidasse o público para sentar no sofá e dividir uma taça de vinho enquanto fala da vida. Essa espontaneidade sustenta Bárbara quando o roteiro vacila e oferece menos profundidade do que a personagem merece.

A direção, por outro lado, entrega um filme que conversa com uma tradição específica do audiovisual brasileiro. “Sexa” traz marcações que remetem a outra era: pensamentos narrados em off, cenas que usam paisagens cariocas como pontes entre emoções, trilha que sobe e desce em volumes calculados demais e uma decupagem que parece replicar exercícios de linguagem da televisão de décadas atrás. O resultado forma um conjunto que soa datado, porém honesto. Há um gosto nostálgico que não tenta se disfarçar.

Isabel Fillardis, como Cristina, é o fôlego mais vibrante da narrativa. Cada aparição dela desloca a história para um lugar mais colorido e mais vivo, criando uma química evidente com Glória e oferecendo momentos de humor que funcionam sem esforço. Essa presença reforça um ponto essencial: as melhores cenas de “Sexa” incluem mulheres conversando entre si sobre a vida sem pressa de entregar grandes soluções.

Ainda assim, é impossível ignorar como alguns personagens orbitam Bárbara sem conquistar existência própria. A amiga alto astral que funciona quase como muleta emocional. O filho engessado em um arquétipo previsível. Pequenos papéis que parecem desenhados para completar lacunas e não para respirar narrativamente. Some-se a isso escolhas técnicas frágeis, como dublagens artificiais e momentos em chroma key que destoam, e o conjunto fica mais instável.

Mas aí vem um lampejo. Uma cena entre Glória, Thiago Martins e Danilo Mesquita que, mesmo construída de forma simples, comunica emoção com eficiência. Depois, a aparição rapidíssima de Rosamaria Murtinho que, ainda que presa a um recorte visual esquisito, arranca risadas genuínas. São detalhes que mostram que o filme encontra brilho quando abraça o inesperado e não o manual.

“Sexa” chega como um filme pequeno, afetuoso e voltado para quem enxerga no cinema uma extensão da vida real. Tem diversos desvios, mas tem identidade. Tem limitações, mas tem sinceridade. É um projeto que conforta mais do que surpreende, acolhe mais do que questiona e encontra valor justamente na decisão de olhar para a maturidade sem pedir desculpas. Glória se diverte. E isso, de algum modo, contagia.

“Sexa”
Direção: Glória Pires
Elenco: Glória Pires, Isabel Fillardis, Thiago Martins
Disponível em salas de cinema a partir de 11 de dezembro de 2025

Avaliação: 3 de 5.

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