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Crítica: “Sisu: Estrada da Vingança” (Sisu: Road to Revenge)

Algumas histórias escolhem a vingança como motor. Outras fazem da vingança um idioma inteiro, falado com o corpo, com o silêncio e com a brutalidade do gesto. O retorno a um lar destruído, transformado em escombros carregados na carroceria de um caminhão, estabelece desde o primeiro instante uma ideia poderosa. Reconstruir também pode ser um ato de guerra. É desse impulso primitivo, quase ritualístico, que nasce “Sisu: Estrada da Vingança”, um filme que entende o ódio como herança e a persistência como identidade nacional.

Crítica: “Sisu: Estrada da Vingança” (Sisu: Road to Revenge)

O protagonista carrega um apelido que funciona como sentença. O homem que se recusa a morrer atravessa paisagens devastadas pela Segunda Guerra Mundial movido por algo que ultrapassa o desejo de matar. A madeira retirada da antiga casa da família assassinada se torna símbolo de memória, luto e pertencimento. Não se trata de recuperar um território, mas de reafirmar uma origem. Cada passo adiante é uma recusa em deixar o passado ser enterrado pelo inimigo.

A narrativa encontra seu verdadeiro eixo quando o antagonista surge. Igor Dragonov não é apresentado como simples vilão, mas como reflexo distorcido do próprio herói. Ambos incorporam o conceito finlandês que dá nome à franquia. Uma força de vontade extrema, quase autodestrutiva, que empurra o indivíduo além do limite do razoável. A diferença reside na direção desse impulso. Um luta por memória, família e identidade. O outro pela redenção de um fracasso pessoal manchado de sangue inocente.

O embate entre esses dois homens transforma o filme em algo maior do que uma sequência de ação. Existe uma lógica quase mitológica nesse confronto, como se fossem entidades presas a um ciclo eterno de violência. A vingança aqui ganha contornos de obsessão histórica, refletindo tensões geopolíticas e traumas coletivos sem precisar verbalizá-los de forma didática.

Visualmente, o longa amplia o escopo do primeiro capítulo da saga. A brutalidade segue exagerada, estilizada e consciente de sua própria natureza absurda. O diretor entende que o impacto não está na quantidade de violência, mas na criatividade com que ela é encenada. O humor surge de maneira inesperada, quase cruel, transformando cenas de massacre em algo próximo do slapstick sangrento. Em alguns momentos, a fisicalidade do protagonista lembra personagens de desenhos animados levados ao limite da carne e do osso. A dor vira espetáculo, mas sem perder o peso emocional.

O roteiro também investe em contraste. Enquanto o vilão observa a destruição com prazer quase científico, o herói age com pragmatismo silencioso. Não há discursos inflamados nem grandes explicações morais. A comunicação acontece pelo olhar, pelo impacto dos golpes e pela insistência em seguir em frente mesmo quando tudo indica o fim. O filme compreende que sua força está nessa simplicidade radical.

“Sisu: Estrada da Vingança” funciona como uma expansão direta do universo apresentado anteriormente. A comparação com continuações que recontam e amplificam a própria essência se mostra inevitável. O resultado é um filme mais ousado, mais exagerado e consciente de seu potencial de entretenimento extremo. É cinema de gênero assumido, orgulhoso de sua identidade e de sua violência estilizada.

No fim, o que permanece é a sensação de acompanhar um personagem que se move menos pelo desejo de matar e mais pela necessidade de concluir algo inacabado. A estrada, aqui, não leva apenas à vingança. Leva à preservação da memória, mesmo que o preço seja atravessar o inferno com as próprias mãos.

“Sisu: Estrada da Vingança”
Direção
: Jalmari Helander
Elenco: Jorma Tommila, Richard Brake, Stephen Lang
Disponível em: Amazon Prime Video

Avaliação: 3 de 5.

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