Chegar à quinta e última temporada de “Stranger Things” é como voltar a uma cidade onde você cresceu e perceber que nada está exatamente no lugar. As ruas são as mesmas, os rostos ainda são familiares, mas a inocência ficou para trás. O Volume 2 dessa despedida confirma algo que a série vem ensaiando há anos. Ela já não é mais sobre monstros, portais ou nostalgia. É sobre identidade, culpa, trauma e a dificuldade brutal de crescer sob os olhos do mundo.

O arco de Will Byers deixa isso claro. O garoto que passou temporadas sendo vítima, silêncio e sombra finalmente assume o centro da narrativa. Não como herói clássico, mas como alguém que entende que poder não é força bruta. Poder é aceitar quem se é, mesmo quando isso assusta. A série transforma essa tomada de consciência em espetáculo, sim, mas o que fica não é o efeito visual. É o gesto. É o olhar. É o corpo tremendo antes da decisão.
O problema é que, ao mesmo tempo em que “Stranger Things” acerta quando olha para dentro, ela tropeça quando olha para fora. O Volume 2 é grandioso demais para o próprio bem. Cada episódio parece querer provar que é cinema, que é evento, que é algo maior do que televisão. E nessa obsessão por escala, a série se afasta do chão que a fez especial. Hawkins já não parece um lugar possível. O perigo nunca soa definitivo. A sensação é de estar em um brinquedo caro, barulhento e seguro demais.
Ainda assim, quando a série desacelera, ela volta a ser poderosa. As cenas de conexão entre os personagens funcionam como pequenas âncoras emocionais. Dustin e Steve, Nancy e Jonathan, Max e Holly. São encontros marcados por culpa, medo e carinho mal resolvido. É nesses momentos que “Stranger Things” lembra que nunca foi sobre vencer o mal, mas sobre sobreviver a ele juntos.
Há uma sequência específica envolvendo Max e Holly que sintetiza essa ideia com delicadeza rara. Sem recorrer a discursos grandiosos, a série aposta em empatia, palavra e escuta. É simples, quase íntimo, e justamente por isso devastador. Não há necessidade de citar canções, referências ou símbolos externos. O impacto vem da troca humana. Da passagem silenciosa de força entre duas personagens que se recusam a desistir.
O Volume 2 também explicita um dilema que acompanha a série desde que ela virou um fenômeno global. Quanto maior o orçamento, menor o risco emocional. A narrativa flerta com consequências reais, mas recua antes de ferir de verdade. Os irmãos Duffer parecem guardar a dor máxima para o último episódio, como se a tragédia precisasse ser agendada. Isso enfraquece parte do percurso, mesmo quando as atuações seguem impecáveis.
Ainda assim, é impossível ignorar o espelhamento curioso entre a história da série e sua própria trajetória. A primeira temporada funcionava porque era pequena, honesta e profundamente humana. Assim como as aventuras clássicas dos anos 80 que a inspiraram, o encanto estava na proximidade, não no espetáculo. Hoje, “Stranger Things” é grande demais para caber em si mesma. Mas quando se permite parar, respirar e ouvir seus personagens, ela ainda sabe tocar onde importa.
O Volume 2 não é perfeito. Ele exagera, hesita e se protege demais. Mas também entrega momentos de verdade, especialmente quando coloca seus personagens diante do espelho. E talvez seja isso que torne essa despedida tão agridoce. “Stranger Things” cresceu. Nós crescemos. E nem tudo sobre isso é confortável. Mas é honesto.
“Stranger Things”
Direção: Irmãos Duffer, Shawn Levy, Dan Trachtenberg, Frank Darabont
Elenco: Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Winona Ryder, David Harbour, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Joe Keery, Maya Hawke, Priah Ferguson, Amybeth McNulty, Brett Gelman, Cara Buono, Jamie Campbell Bower, Linda Hamilton
Disponível em: Netflix
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