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Crítica: “Sweetpea” – primeira temporada

Algumas histórias começam como um sussurro social. Um olhar ignorado no ônibus, uma conversa interrompida no trabalho, um nome que ninguém faz questão de lembrar. Aos poucos, o silêncio se transforma em ruído interno. “Sweetpea” entende esse processo com precisão desconfortável e constrói sua narrativa exatamente nesse espaço onde a invisibilidade cotidiana deixa de ser metáfora e passa a virar combustível emocional.

Crítica: “Sweetpea” – primeira temporada

Inspirada no romance de C.J. Skuse, a série apresenta Rhiannon Lewis, interpretada por Ella Purnell, uma jovem adulta que atravessa a vida sendo tratada como figurante da própria existência. Colegas a ignoram, o chefe a reduz a um apelido infantilizado, o namorado mal percebe sua presença e até a família parece incapaz de enxergar quem ela realmente se tornou. O grande acerto da série está em transformar pequenas humilhações diárias em peças centrais do horror psicológico.

O roteiro trabalha com uma ideia simples e potente: o perigo nunca nasce do nada. Ele cresce em silêncio. A lista de pessoas que Rhiannon gostaria de matar surge inicialmente como uma válvula de escape emocional, quase um exercício terapêutico distorcido. Manspreaders no ônibus, colegas arrogantes, estranhos inconvenientes. Tudo parece funcionar como humor ácido, lembrando o sarcasmo narrativo de “Dexter”. Só que aqui o tom é menos estilizado e muito mais humano.

A morte do pai funciona como ponto de ruptura. O luto não aparece romantizado. Ele chega bagunçando rotinas, ampliando inseguranças e removendo o único vínculo afetivo que ainda validava a existência da protagonista. Quando o último olhar que realmente a via desaparece, Rhiannon deixa de tentar caber no mundo e passa a reagir contra ele.

Ella Purnell entrega uma performance fascinante justamente por trabalhar na contramão do estereótipo televisivo. Existe algo quase paradoxal em vê-la interpretar alguém invisível, já que sua expressividade naturalmente chama atenção. A atriz resolve essa equação diminuindo gestos, retraindo postura corporal e transformando ansiedade em linguagem física. Cada episódio acompanha uma metamorfose silenciosa, onde o corpo da personagem parece encolher antes de finalmente explodir.

A série entende bem uma verdade incômoda sobre bullying: ele raramente termina quando a escola acaba. O reencontro com Julia, a antiga agressora agora bem-sucedida e socialmente admirada, funciona como gatilho psicológico devastador. Para Rhiannon, o passado continua vivo. Para Julia, aquilo sequer merece memória. Essa assimetria emocional cria uma das tensões mais interessantes da temporada, revelando como traumas sobrevivem mesmo quando o mundo decide seguir em frente.

O humor ácido da produção impede que o drama se torne excessivamente pesado. A narração em off funciona como acesso direto à mente da protagonista, expondo pensamentos socialmente inaceitáveis que muitos reconhecem, mas jamais verbalizam. O resultado lembra a energia desconfortável de séries que exploram anti-heroínas moralmente ambíguas, aproximando o público de alguém que claramente está cruzando limites éticos.

Visualmente, “Sweetpea” aposta em uma estética cotidiana, quase banal, reforçando a ideia de que a violência pode nascer em ambientes comuns. Escritórios sem personalidade, ruas anônimas e espaços sociais genéricos ajudam a criar a sensação de aprisionamento emocional. O terror da série nunca depende do sangue, e sim do reconhecimento. O espectador entende exatamente por que aquela fúria existe, mesmo quando ela se torna impossível de defender.

Outro mérito importante está na construção gradual da transformação de Rhiannon. A série evita respostas fáceis sobre justiça ou vingança. Cada ação gera consequências psicológicas que ampliam o desconforto narrativo. O primeiro ato de violência não surge como catarse heroica, mas como algo caótico, impulsivo e profundamente perturbador. A produção se interessa menos pelo crime e muito mais pela sensação de finalmente ser vista, ainda que pelo pior motivo possível.

Nicôle Lecky constrói uma antagonista irritantemente convincente, enquanto Jeremy Swift incorpora com precisão o tipo de autoridade corporativa passivo-agressiva que alimenta frustrações silenciosas. Personagens secundários ajudam a reforçar a tese central da série: ninguém acredita que Rhiannon possa representar ameaça real. Esse erro coletivo sustenta toda a tensão dramática.

O episódio piloto encerra com uma imagem simbólica poderosa. Diante do espelho, coberta de sangue, Rhiannon finalmente ruge como o pai sugeriu. O momento sintetiza a proposta da série: a transformação de alguém invisível em presença impossível de ignorar.

“Sweetpea” funciona porque entende que histórias sobre serial killers raramente falam apenas sobre violência. Elas falam sobre pertencimento, reconhecimento e identidade. A série constrói um retrato ácido da solidão, onde ser ignorado pode machucar mais do que ser odiado.

“Sweetpea”
Criação:
Kirstie Swain
Elenco: Ella Purnell, Jonathan Pointing, Jeremy Swift, Nicôle Lecky
Disponível em: Amazon Prime Video

Avaliação: 4 de 5.

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