Existe algo curioso na discografia do Tame Impala. Cada álbum parece brotar de um estado mental diferente de Kevin Parker, como se o artista estivesse sempre testando novas lentes para observar o próprio som. Com “Deadbeat”, lançado em outubro de 2025, essa lente muda de posição e revela um reflexo estranho, quase pálido, que contrasta com o brilho psicodélico que sempre acompanhou sua identidade musical.
O disco chega depois de anos de expectativa, rumores lançados aos poucos, fotos de estúdio enigmáticas, singles espalhados como pistas de um quebra-cabeça. Só que a imagem final compõe algo bem menos vibrante do que o público imaginava. “Deadbeat” é o primeiro álbum de Kevin Parker que abraça o vazio como estética, e isso afeta cada escolha sonora, cada arranjo e cada momento que, em outros tempos, carregava aquela sensação de expansão que tornou Tame Impala um nome essencial da neo-psicodelia moderna.
A proposta declarada de Kevin para o disco era mergulhar na cultura rave do Oeste australiano. No papel, a promessa soa excitante. Na prática, o experimento encontra um terreno menos fértil do que o esperado. O que deveria pulsar com energia eletrônica corre o risco de soar morno, como se a festa tivesse começado sem avisar ninguém.
O repertório abre com “My Old Ways”, uma faixa que tenta construir tensão com um loop de piano e uma batida eletrônica minimalista. A intenção é clara: reduzir a paleta de efeitos, limpar o espaço, deixar a essência aparecer. Só que o resultado cai em uma zona cinza. O groove não embala, o vocal não conduz e a sensação de movimento nunca se concretiza. Em vez de revelar um novo Tame Impala, a faixa expõe uma versão menos inspirada do que já existia.
Os singles ajudam a mapear esse choque de identidade. “Loser” sintetiza bem a fragilidade dessa fase. A música parece buscar leveza, mas termina escorregando para uma sonoridade tão enxuta que perde a força. A melodia promete algo que nunca chega, deixando uma sensação de rascunho. É como se Kevin estivesse tentando habitar um espaço entre o pop eletrônico minimalista e a psicodelia cintilante, só que nenhuma das pontas sustenta a travessia.
Já “Dracula”, um dos momentos mais bem resolvidos do disco, acende uma fagulha de energia. A faixa resgata uma parcela daquela ousadia que Kevin carregava desde “Lonerism”, com texturas eletrônicas mais densas e um senso de progressão mais vivo. Não reinventa nada, mas ao menos lembra o ouvinte do que Kevin sabe fazer. O mesmo vale para “End Of Summer”, faixa mais longa e ambiciosa do álbum, que flerta com o progressivo eletrônico e tenta criar um grande panorama musical. A construção funciona até certo ponto, mas o impacto final fica aquém da promessa.
O fato é que “Deadbeat” se mantém preso a uma estética que tenta ser crua e atmosférica ao mesmo tempo, mas raramente encontra equilíbrio. A redução drástica de efeitos, que poderia abrir espaço para novas ideias, acaba revelando o oposto: uma coleção de faixas que soam incompletas, como se o disco tivesse saído antes de passar pelo momento inevitável de polimento criativo.
Tame Impala sempre se destacou por criar mundos sonoros com personalidade. Em “Deadbeat”, esses mundos ficam suspensos no ar. Há conceito, há intenção, há até momentos de brilho, mas falta algo fundamental para que o álbum se imponha. Falta aquela centelha que fez Kevin Parker transformar psicodelia em linguagem pop de amplo alcance.
“Deadbeat” é um registro que provoca reflexão justamente por não entregar o que se esperava. Talvez cresça com o tempo. Talvez ganhe nova luz em um show ou remix. Mas, por enquanto, deixa a sensação de que o silêncio entre os discos foi mais interessante do que o retorno em si.
Nota final: 55/100
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