Antes que o brilho vire produto, existe o instante em que tudo parece impossível de controlar. É exatamente nesse território instável que “The Moment” mergulha. Um falso documentário que acompanha Charli XCX lidando com o impacto sísmico de “brat“, seu sexto álbum de estúdio, e com a transformação do que era expressão pessoal em fenômeno cultural.
O filme se passa no verão de 2024, enquanto a artista se prepara para sua primeira turnê em arenas. O que poderia ser uma celebração triunfal vira um estudo ácido sobre fama, expectativa e consumo. O sucesso aqui não é retratado como linha de chegada, mas como máquina que exige produção constante. Cada reunião, cada conversa de bastidor, cada ensaio carrega uma pergunta silenciosa: como sustentar uma identidade artística quando o mercado pede repetição infinita?
A direção de Aidan Zamiri traduz a estética dos shows de Charli para a linguagem cinematográfica. Há cortes que lembram interlúdios de concerto, enquadramentos que evocam telões de arena e uma ironia visual que reforça o caráter performático da própria narrativa. O longa brinca com a ideia de autenticidade enquanto desmonta a construção da persona pop. É um filme que entende que imagem também é discurso.
O humor é afiado, especialmente na repetição quase mantra de frases como “todo mundo está tão animado”, que aos poucos deixam de soar como entusiasmo e passam a revelar esgotamento. A piada se constrói na insistência, no exagero, na sensação de que a festa precisa continuar mesmo quando ninguém mais sabe por quê. Existe uma camada quase melancólica por trás da gargalhada.
Alexander Skarsgård surge em sintonia cômica precisa, equilibrando charme e estranheza com naturalidade. Sua presença adiciona um tom levemente sinistro às situações mais absurdas. O elenco ainda conta com nomes como Kylie Jenner, Arielle Dombasle, Trew Mullen e Richard Perez, compondo um mosaico de figuras que orbitam o epicentro do estrelato.
O aspecto mais interessante de “The Moment” está na forma como ele questiona a própria lógica de consumo. “brat summer” vira meme, fantasia, estratégia de marketing, artigo opinativo, tendência esvaziada. O que nasceu como criação íntima ganha múltiplos significados e retorna à artista como algo irreconhecível. Assistir à própria obra crescer além de você pode ser assustador. O filme captura essa sensação com honestidade desconfortável.
Há uma vulnerabilidade rara em ver uma estrela pop brincar com a própria imagem de forma tão consciente. Em um cenário em que celebridades costumam proteger a marca a qualquer custo, Charli se permite parecer irritante, insegura, contraditória. O resultado é um retrato que oscila entre sátira e confissão. O riso funciona como escudo e, ao mesmo tempo, como ferramenta de crítica.
“The Moment” também dialoga com um sentimento contemporâneo específico: viver algo extraordinário enquanto já se teme o fim. A ansiedade pelo término invade até os instantes de glória. A festa continua, as luzes piscam, o público vibra, mas por dentro existe a pergunta sobre merecimento e permanência. É o retrato de uma geração que celebra enquanto calcula a validade do próprio sucesso.
Longe de ser uma volta olímpica comemorativa, o filme se apresenta como ajuste de contas. Uma artista no auge refletindo sobre o custo do auge. Em tempos de consumo acelerado e identidades moldadas por algoritmo, ver uma figura pop expor as engrenagens desse sistema soa quase subversivo. Irônico, autocrítico e surpreendentemente sensível, “The Moment” transforma bastidores em espelho cultural.
“The Moment”
Direção: Aidan Zamiri
Elenco: Charli XCX, Alexander Skarsgård, Trew Mullen, Arielle Dombasle, Richard Perez, Kylie Jenner
Disponível em: cinemas brasileiros
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.