Existe um tipo de documentário que não se assiste por prazer, mas por necessidade. “Torre Grenfell: A Verdade por Trás do Desastre” é exatamente isso: um chamado incômodo para encarar o que muita gente prefere ignorar. É um retrato cirúrgico de como a negligência corporativa e a omissão estatal se encontram no ponto exato onde vidas são descartadas. E 72 delas foram.
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O filme abre uma ferida que o Reino Unido ainda tenta fingir que cicatrizou. Mas aqui, a sutileza cede lugar à denúncia direta, sustentada por um material de arquivo estarrecedor e por depoimentos que rasgam a tela. Não há concessões, não há suavizações. O que se vê é um processo judicial que, mesmo envolto em formalidades, exala cinismo. Advogados, executivos e políticos que tentam contornar a culpa com a mesma frieza com que assinaram relatórios ignorando riscos fatais.
A montagem é implacável. Cada fragmento de vídeo é colocado de forma a reforçar que não houve erro, houve escolha. O uso de revestimento inflamável, por exemplo, não foi um descuido técnico. Foi uma decisão consciente, corporativa, feita em nome da estética e do lucro. E é esse tipo de detalhe, exposto de forma minuciosa e revoltante, que torna o documentário tão potente.
Mas o impacto real está nas pessoas. O longa se recusa a tratar as vítimas como números. Os sobreviventes e familiares falam com uma coragem que desarma qualquer defesa. Há dor, sim, mas há também clareza. A estrutura do documentário permite que esses relatos se destaquem não como pontos de comoção, mas como denúncia viva. Gente que perdeu tudo, mas que se recusa a ser silenciada, transformando luto em luta com uma força que é quase insuportável de assistir sem se emocionar.
A direção acerta ao não dramatizar o que já é insuportavelmente real. A sobriedade estética se transforma em violência emocional, porque não há necessidade de floreio quando os fatos, sozinhos, já esmagam. E mesmo assim, há uma sensibilidade no ritmo que respeita os tempos da dor. Os cortes não são apressados. As pausas, os silêncios, dizem tanto quanto as falas.
É difícil terminar o filme e não sair modificado. A revolta que ele provoca é legítima e necessária. Não há catarse, porque ainda não há justiça. Há uma cobrança que ecoa muito além dos créditos finais. Um lembrete de que o sistema continua operando exatamente da forma como operava antes do incêndio.
“Torre Grenfell: A Verdade por Trás do Desastre” não propõe um fechamento. Ele é, na verdade, um recomeço. Um convite à responsabilidade coletiva, à memória ativa. E acima de tudo, um grito por justiça que ainda precisa ser ouvido por quem tem o poder de agir.
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