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Crítica: Tove Lo, “Estrus”

Texto: Ygor Monroe
18 de setembro de 2026
em Música, Resenhas/Críticas

Tove Lo nunca teve muita utilidade para a vergonha. Em uma indústria que passou décadas ensinando mulheres a transformar desejo em sugestão suficientemente elegante para não incomodar ninguém, a sueca construiu boa parte de sua identidade fazendo exatamente o contrário. Sexo, drogas, carência, ressaca, prazer, culpa, dependência emocional e aquela coleção de decisões questionáveis que todo mundo prefere reorganizar antes de contar uma história sempre foram matéria-prima de sua música. A diferença é que Tove nunca precisou transformar confissão em pedido de absolvição. Ela conta porque aconteceu, canta porque sentiu e frequentemente dança em cima daquilo que outra artista utilizaria para construir uma balada devastadora. Em “Estrus”, seu sexto álbum de estúdio, essa relação entre corpo e consciência chega a um ponto especialmente interessante porque Tove Lo não está tentando descobrir quem é, mas entender por que aquilo que sabe sobre si mesma continua sendo incapaz de controlar aquilo que deseja.

Crítica: Tove Lo, “Estrus”
Crítica: Tove Lo, “Estrus”

O título já elimina qualquer possibilidade de delicadeza desnecessária. Estrus é o termo biológico relacionado ao período de receptividade sexual no ciclo reprodutivo de determinados mamíferos, e Tove transforma essa imagem em uma maneira quase brutal de pensar desejo, instinto e contradição. Sua definição do conceito é ainda mais esclarecedora: corpo e mente querem coisas diferentes enquanto, de alguma forma, ambos querem tudo. É uma ideia perfeitamente adequada para uma artista cuja discografia sempre tratou prazer e destruição como vizinhos de porta, mas “Estrus” vai além de simplesmente repetir essa personalidade. O álbum transforma o conflito entre racionalidade e impulso em sua própria arquitetura sonora, fazendo da pista de dança não uma fuga dos problemas, mas o lugar em que eles se tornam impossíveis de ignorar.

Isso importa porque seria muito fácil produzir uma versão caricatural de Tove Lo neste estágio da carreira. Bastariam sintetizadores sujos, graves obscenos, algumas confissões sexuais, uma ressaca emocional e um refrão gigantesco para construir alguma coisa reconhecível como sua. “Estrus” entende o risco dessa repetição e procura uma solução menos óbvia. A produção continua profundamente física, mas existe uma secura incomum em vários momentos, com vocais expostos, espaços vazios, ruídos metálicos e elementos eletrônicos posicionados com uma precisão quase clínica. A música pode estar falando sobre perda de controle, porém o desenho sonoro é frequentemente controladíssimo.

Essa oposição é uma das melhores decisões do álbum. Tove Lo constrói um disco sobre impulsos primitivos utilizando uma produção que parece saber exatamente onde cada respiração, grave e ruído deve estar. O resultado provoca uma tensão curiosa entre aquilo que está sendo narrado e a maneira como essa narrativa chega aos ouvidos. O corpo pode estar em completo estado de desordem, mas a produção organiza o caos em estruturas tão limpas que cada pequena deformidade se torna ainda mais perceptível. Quando alguma coisa range, pulsa, explode ou invade o silêncio, existe uma razão para que esteja exatamente naquele lugar.

A consistência sonora de “Estrus” também impressiona porque não depende de uniformidade. Conforme o álbum avança, o espaço se amplia, os graves assumem funções diferentes e a produção deixa a austeridade inicial encontrar uma eletrônica mais quente, sensual e expansiva. Há house, electro-pop, disco, elementos industriais e uma série de texturas que parecem projetadas para serem sentidas fisicamente antes mesmo de serem completamente processadas. O baixo, particularmente, funciona quase como um segundo narrador. Ele conduz, provoca, interrompe e frequentemente oferece ao corpo uma resposta que as letras não conseguem encontrar.

Não é por acaso que Tove define o projeto a partir da ideia de possuir muitos sentimentos e nenhuma solução. “Estrus” não se comporta como um álbum interessado em resolver sua autora. Na verdade, existe algo quase agressivamente contrário à ideia de resolução em sua estrutura. Tove Lo não procura transformar amadurecimento em uma narrativa bonitinha sobre finalmente aprender com os próprios erros, porque sabe que pessoas perfeitamente conscientes continuam repetindo comportamentos que juraram ter compreendido. Saber que alguma coisa faz mal nunca impediu ninguém de desejá-la novamente, e o disco encontra sua verdade justamente nessa distância entre consciência e comportamento.

É aqui que Tove continua sendo uma compositora muito mais interessante do que sua reputação mais superficial sugere. Durante anos, sua imagem pública esteve tão associada à sexualidade explícita e ao hedonismo que se tornou fácil reduzir sua escrita a uma sucessão de noites ruins narradas por alguém extremamente boa em criar refrões. Só que sua verdadeira especialidade nunca foi simplesmente escrever sobre sexo ou drogas. Tove Lo escreve sobre aquilo que fazemos quando sabemos perfeitamente que estamos tomando a decisão errada e, ainda assim, queremos descobrir até onde ela pode nos levar. Esse é um território emocional muito mais complexo do que a provocação pela provocação.

“Estrus” aprofunda essa característica ao colocar diferentes formas de intimidade dentro da mesma confusão. Desejo sexual, amizade, amor, culpa, solidão, maternidade, carreira, autodestruição e necessidade de aprovação aparecem como partes de uma mesma pergunta sobre quanto controle alguém realmente possui sobre a própria vida. O álbum não organiza esses temas em compartimentos confortáveis porque Tove parece justamente interessada no modo como eles contaminam uns aos outros. Uma decisão profissional pode interferir no desejo de construir uma família, uma amizade pode ser simultaneamente irritante e indispensável, prazer pode funcionar como celebração e anestesia, enquanto culpa e liberdade conseguem coexistir sem que uma necessariamente invalide a outra.

Essa capacidade de aceitar duas verdades incompatíveis ao mesmo tempo talvez seja a principal maturidade de “Estrus”. Tove não precisa escolher entre reconhecer que machucou alguém e defender o direito de seguir em frente, da mesma forma que não precisa decidir se determinada noite foi maravilhosa ou completamente destrutiva. O álbum entende que a vida adulta raramente oferece a elegância moral que esperamos encontrar quando contamos nossas histórias depois que tudo passou. É possível estar errada e ainda ter motivos, amar alguém e querer distância, desejar liberdade e sentir falta de estabilidade, buscar prazer enquanto sabe que está apenas adiando um problema. Tove não tenta limpar essas contradições porque são justamente elas que tornam o disco tão humano.

Também existe humor suficiente para impedir que essa investigação vire uma longa sessão de autoflagelação com sintetizadores. A vulgaridade de Tove continua sendo parte essencial de seu charme porque ela entende que sexo também pode ser ridículo, engraçado, desajeitado e absolutamente pouco poético. Nem toda experiência carnal precisa ser transformada em metáfora sofisticada sobre conexão humana. Às vezes, o corpo quer alguma coisa extremamente específica e a graça está justamente em dizer isso sem pedir licença. Poucas artistas conseguem transitar entre vulnerabilidade emocional e uma piada sexual completamente idiota sem fazer parecer que uma coisa diminui a outra, e “Estrus” utiliza essa elasticidade com enorme naturalidade.

O interessante é que o humor nunca serve para neutralizar a dor. Ele existe ao lado dela. Essa convivência permite que “Estrus” seja divertido sem precisar fingir que seus personagens estão bem, incluindo a própria Tove. A pista de dança continua cheia enquanto a cabeça está em colapso, e talvez essa seja uma das imagens mais precisas de toda a carreira da cantora. A diferença é que, desta vez, ela parece menos interessada em utilizar a festa como método de esquecimento. O clube se torna espaço de confronto, porque dançar não elimina aquilo que está acontecendo internamente e, em alguns momentos, apenas torna o contraste mais evidente.

A produção entende perfeitamente essa lógica. Os graves são fortes o suficiente para criar sensação de movimento constante, enquanto sintetizadores metálicos e tratamentos vocais impedem que a experiência se torne confortável demais. Mesmo quando “Estrus” parece caminhar para o hedonismo absoluto, existe alguma textura estranha lembrando que há tensão por baixo da superfície. É música para suar enquanto alguma coisa emocionalmente inconveniente acontece dentro da cabeça, uma proposta que poderia facilmente virar clichê dentro do electro-pop, mas ganha credibilidade porque Tove passou a carreira inteira transformando exatamente esse conflito em linguagem.

Sua voz também é utilizada de maneira particularmente inteligente. Tove nunca foi uma cantora interessada em demonstrar virtuosismo tradicional, e “Estrus” sabe que sua força está em outra coisa. A proximidade da captação permite ouvir respirações, pequenas imperfeições e mudanças de intenção que tornam determinadas interpretações quase desconfortavelmente íntimas. Em outros momentos, efeitos eletrônicos afastam sua voz e a transformam em parte da produção, criando uma relação entre proximidade e alienação que acompanha o próprio conceito do álbum. O corpo está sempre presente, mas nem sempre parece pertencer completamente à pessoa que o ocupa.

É justamente essa sofisticação que torna os momentos menos inspirados mais perceptíveis. Quando a composição se limita a enumerar estados emocionais ou utiliza repetição sem acrescentar novas camadas, “Estrus” perde parte da precisão que sustenta seus melhores momentos. Existe uma diferença entre representar confusão e simplesmente apresentar sentimentos em sequência, e o álbum ocasionalmente atravessa essa fronteira. A propulsão da produção consegue carregar quase tudo, mas há passagens em que o impacto físico parece compensar uma escrita que poderia ter investigado suas próprias questões com maior profundidade.

Essa limitação também coloca sob pressão a própria tese de que existem muitos sentimentos e nenhuma solução. É uma frase excelente para resumir o estado emocional de “Estrus”, mas também é uma afirmação perigosamente conveniente. Um álbum não precisa fornecer respostas para ser profundo, porém precisa fazer perguntas suficientemente interessantes para que a ausência de respostas tenha algum valor. Na maior parte do tempo, Tove consegue isso porque transforma contradições pessoais em observações específicas sobre desejo, amizade, culpa, trabalho e identidade. Em outros momentos, porém, a recusa em chegar a qualquer conclusão parece menos filosófica e mais próxima de uma interrupção.

Talvez seja justamente essa imperfeição que impeça “Estrus” de virar um exercício excessivamente cerebral sobre instinto. Tove não está observando o caos de uma posição segura, e o álbum jamais sugere que quatro anos de distância de “Dirt Femme” foram suficientes para produzir uma mulher finalmente resolvida. Houve bloqueio criativo, transformação pessoal e uma necessidade de retornar a um espaço mais isolado para encontrar alguma direção, mas o disco resultante não utiliza esse processo para construir uma narrativa tradicional de renascimento. Tove não emerge do outro lado com respostas, emerge com uma compreensão mais sofisticada da própria bagunça, e talvez essa seja uma conclusão mais compatível com tudo o que sua obra sempre representou.

A independência também parece importante nesse processo. Lançado por seu próprio selo, Pretty Swede Records, “Estrus” soa como trabalho de alguém que não precisa negociar a própria estranheza para torná-la comercialmente palatável. Isso não significa que o disco seja inacessível, porque há uma enorme vocação pop atravessando praticamente tudo, mas existe liberdade na maneira como determinados sons permanecem abrasivos e algumas ideias recusam explicações. Tove continua sabendo construir música capaz de funcionar em ambientes enormes, só que não parece interessada em arredondar cada extremidade para garantir que ninguém se machuque.

E talvez seja exatamente aí que “Estrus” encontra sua personalidade mais forte. Não estamos diante de uma tentativa de fabricar novos clássicos de pista a qualquer custo, tampouco de um projeto preocupado em provar que Tove amadureceu e agora merece ser levada mais a sério. Essa discussão seria especialmente inútil porque a vulgaridade, o prazer e a diversão nunca foram inimigos da inteligência em sua música. O álbum apenas refina uma linguagem que já existia e encontra novas maneiras de aproximar aquilo que Tove sente daquilo que seu corpo faz enquanto ela tenta entender por que as duas coisas nem sempre concordam.

Existe algo quase engraçado na utilização de um termo biológico tão específico para nomear um álbum que, no fundo, fala sobre a incapacidade humana de funcionar de maneira tão organizada quanto a biologia sugere. O corpo possui ciclos, mecanismos e impulsos identificáveis, mas emoções não respeitam essa engenharia. Tove pode entender racionalmente aquilo que está acontecendo e continuar completamente incapaz de impedir a própria confusão. “Estrus” transforma essa fricção em música e encontra beleza justamente onde uma explicação limpa seria menos interessante.

Por isso, o disco funciona melhor quando não tenta escolher entre ser cerebral ou animalesco. “Estrus” é mais fascinante quando inteligência e instinto se contaminam, quando uma batida aparentemente construída apenas para movimentar corpos carrega uma ideia emocional desagradável e quando uma confissão dolorosa aparece cercada por produção tão sensual que o ouvinte precisa decidir se quer pensar sobre aquilo ou continuar dançando. Essa indecisão não é um defeito do álbum, mas sua principal linguagem.

Tove Lo continua sendo uma das poucas artistas capazes de transformar uma crise pessoal em algo que genuinamente parece divertido sem diminuir a gravidade da crise. Há raiva, ansiedade, vergonha, desejo, culpa e medo atravessando “Estrus”, mas nenhuma dessas emoções recebe tratamento solene simplesmente porque é dolorosa. A música continua pulsando e o corpo continua respondendo, porque sofrimento nunca suspendeu completamente o desejo e felicidade nunca resolveu todas as inseguranças de ninguém.

“Estrus” não oferece a catarse tradicional de chegar ao último minuto com alguma verdade finalmente organizada, e essa recusa pode ser simultaneamente sua maior força e sua limitação mais evidente. Tove Lo entra no disco querendo tudo enquanto partes diferentes de si mesma discordam sobre o significado desse tudo, e termina sem fingir que encontrou uma resposta satisfatória. O que ela encontra é uma maneira extremamente bem produzida, sexual, engraçada, desconfortável e às vezes brutal de permanecer dentro da pergunta.

No fim, talvez seja justamente isso que diferencie Tove Lo de tantas artistas que transformam a pista de dança em lugar de fuga. Para ela, o clube nunca foi exatamente onde alguém vai para escapar de si. É onde desejo, ego, insegurança, amizade, tesão, solidão e culpa ficam presos no mesmo espaço até que o volume esteja alto demais para continuar fingindo que não se conhecem. “Estrus” entende que dançar não necessariamente resolve coisa alguma, mas pode obrigar o corpo a admitir verdades que a cabeça passou tempo demais tentando negociar, e Tove Lo continua sendo perigosamente boa quando decide colocar essas duas partes de si mesma para brigar diante de todo mundo.

Nota final: 78

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Temas: CríticaMúsicaResenhaReviewTove Lo

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