Existe um tipo de cinema brasileiro que insiste em aparar quinas, como se tivesse medo de encostar em temas que exijam desconforto. “Traição Entre Amigas” se recusa a seguir por esse caminho. O novo longa de Bruno Barreto usa uma história jovem para discutir culpa, desejo, amadurecimento e falhas que não cabem em estereótipos limpos. A trama entre Penélope e Luiza, duas amigas que carregam sonhos diferentes e ingenuidades parecidas, parte de um acontecimento simples e devastador. A traição de uma muda o eixo emocional das duas e abre espaço para um estudo de relações marcado por vulnerabilidades que o cinema comercial brasileiro costuma evitar.

A força do filme começa na dinâmica entre Larissa Manoela e Giovanna Rispoli. Penélope sonha com Nova York e com o glamour de um futuro como atriz, enquanto Luiza mergulha na psicologia e tenta se agarrar a qualquer sensação de estabilidade. A complementaridade das duas constrói um afeto verdadeiro, um tipo de intimidade que parece vivida, não apenas encenada. O problema é que o próprio afeto vira rachadura quando Penélope ultrapassa um limite impossível de desfazer. A partir daí, a história abandona o conforto e abraça o caos silencioso que surge quando alguém é obrigado a encarar sua própria contradição moral.
Bruno Barreto conduz o filme com uma estética direta, sem buracos ou exibicionismos, mas com um interesse que sempre rondou sua carreira: o desejo de explorar a condição humana sem pudores. Barreto entende que juventude também é detalhe incômodo, também é culpa, também é corpo. Isso cria um contraste interessante com o universo tradicionalmente higienizado associado às obras de Thalita Rebouças. Aqui, esse mundo ganha sujeira, ganha sarcasmo, ganha um ridículo proposital que amarra as situações e permite que a trama respire longe da perfeição artificial.
O diretor sempre transitou entre gêneros e tendências, muitas vezes mirando o popular com rigor clássico, e essa combinação reaparece em “Traição Entre Amigas”. Existe uma tentativa clara de equilibrar drama com irreverência, de aproximar a narrativa das questões contemporâneas e de transformar o cotidiano dessas jovens em algo mais caótico, sensual e ambíguo. Barreto não tem receio de mostrar sexo, nudez, descobertas e deslizes com naturalidade. O filme não se esconde atrás de moralidades. Ele abraça imperfeições e trata a vida das personagens como algo vivo, não como produto moldado para agradar a todos os públicos.
O resultado disso é curioso. Por mais que o filme carregue falhas, por mais que o roteiro oscile entre momentos inventivos e outros mais protocolares, existe personalidade. Os diálogos soam críveis porque aceitam o ridículo, o exagerado, a pressa da juventude. Os arcos de Penélope e Luiza não tentam soar exemplares, mas coerentes com a bagunça emocional que cada uma enfrenta. O amadurecimento surge como processo doloroso, imprevisível e cheio de arestas. E é justamente nesse ponto que o longa surpreende: ao escolher olhar para suas personagens com autenticidade, sem o verniz que costuma acompanhar histórias sobre jovens privilegiadas no cinema nacional.
Há ecos de um cinema brasileiro mais espontâneo e desengonçado, aquele dos anos 70 e 80 que Barreto chegou a tocar em momentos específicos da carreira. A energia é leve, mas nunca boba. Existe uma vibração quase artesanal que impede o filme de cair na monotonia. Mesmo quando a dramaturgia derrapa, a direção encontra pequenos espaços de verdade, pequenas ironias do cotidiano, pequenas confissões que tornam a experiência mais humana do que o esperado.
“Traição Entre Amigas” talvez não seja o ápice da filmografia de Bruno Barreto, mas reafirma sua vontade de contar histórias sobre pessoas em transformação. O filme funciona porque não tenta ser maior do que é. Ele entrega um retrato acessível, divertido, imperfeito e consciente de suas limitações, mas que encontra força na relação entre duas mulheres que aprendem, à força, que crescer exige coragem para encarar a própria sombra.
“Traição Entre Amigas”
Direção: Bruno Barreto
Elenco: Larissa Manoela, Giovanna Rispoli, Gabrielle Joie
Disponível em: estreia nos cinemas em 11 de dezembro de 2025
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






