O cinema já colocou tubarões em praticamente qualquer situação que a dignidade humana permitiu imaginar, e também em várias que provavelmente deveriam ter sido recusadas na primeira reunião de roteiro. Depois de décadas de exploração cinematográfica, encontrar uma maneira minimamente diferente de colocar um grande tubarão branco diante de pessoas desesperadas se tornou uma tarefa consideravelmente mais difícil do que parece. “Tubarão de Guerra”, de Kiah Roache-Turner, encontra sua resposta na Segunda Guerra Mundial e parte de uma combinação tão improvável quanto imediatamente atraente: e se um filme de sobrevivência militar abandonasse seus soldados no meio do oceano e, depois de submetê-los aos horrores da guerra, decidisse acrescentar um tubarão à equação? É uma ideia quase descaradamente simples, mas existe inteligência justamente na maneira como o filme compreende a força dessa simplicidade.

A história acompanha um grupo de soldados australianos que acaba naufragando no Mar de Timor durante a Segunda Guerra Mundial. O ataque que destrói a embarcação deixa os sobreviventes praticamente sem recursos, amontoados em uma jangada improvisada e cercados por um oceano que rapidamente se transforma em território hostil. Fome, sede, ferimentos, aviões inimigos e decisões desesperadas já seriam suficientes para sustentar um thriller de sobrevivência, mas “Tubarão de Guerra” obviamente não pretende parar por aí. Existe um enorme tubarão branco circulando aquele pequeno grupo e, a partir do momento em que o animal entra definitivamente na narrativa, o filme assume sua segunda identidade sem abandonar completamente a primeira.
Essa combinação funciona melhor do que teria qualquer direito de funcionar porque Kiah Roache-Turner evita tratar a Segunda Guerra Mundial apenas como decoração temática para um filme convencional de tubarão. A guerra continua acontecendo enquanto o horror animal ocupa o primeiro plano, e isso cria uma dinâmica interessante na qual os personagens não escaparam de um perigo para encontrar outro. Eles simplesmente acumularam ameaças. O oceano não suspende o conflito externo, apenas comprime a guerra dentro de um espaço muito menor, enquanto transforma homens treinados para combater outros homens em presas diante de algo absolutamente indiferente às alianças, nacionalidades e estratégias militares que organizavam suas vidas minutos antes.
Existe uma ironia particularmente eficiente nessa inversão. Em terra ou dentro de uma embarcação militar, aqueles homens possuem treinamento, armas, hierarquias e protocolos. Na água, quase tudo que definia sua capacidade de controle perde valor. O tubarão não pode ser intimidado, negociado ou compreendido dentro da lógica militar que orienta os personagens. “Tubarão de Guerra” funciona justamente porque retira progressivamente desses soldados a ilusão de domínio até reduzi-los ao instinto mais elementar possível: continuar vivos. É uma premissa que poderia facilmente ser explorada com maior profundidade psicológica, mas mesmo trabalhando em uma chave assumidamente mais direta, o filme consegue extrair bastante tensão dessa mudança de posição.
Roache-Turner também sabe que um filme como esse depende da relação entre espaço e ameaça. A jangada é pequena, o oceano é gigantesco e o tubarão pode estar praticamente em qualquer lugar. Essa diferença de escala cria boa parte da ansiedade visual do longa. A câmera explora constantemente a superfície da água como uma fronteira, mantendo personagens e espectador conscientes de que existe um universo inteiro abaixo deles que não pode ser controlado. Quando o filme permite que o silêncio e a espera façam parte da construção do medo, encontra seus momentos mais eficientes. Não é necessariamente aquilo que vemos que assusta, mas a possibilidade permanente de alguma coisa surgir de um espaço que nunca conseguimos observar completamente.
É também um filme surpreendentemente cinematográfico dentro das limitações evidentes de sua produção. Há um esforço real para conferir escala ao oceano e fazer com que aquele isolamento seja percebido fisicamente, evitando a sensação de que estamos simplesmente assistindo a atores agrupados em um tanque enquanto efeitos digitais completam o restante. A fotografia compreende que o vazio é uma ferramenta narrativa, e alguns dos melhores enquadramentos são justamente aqueles que diminuem os personagens diante da quantidade absurda de água ao redor. Existe uma vulnerabilidade imediatamente compreensível quando o ser humano ocupa uma parcela quase insignificante da imagem.
O tubarão, inevitavelmente, precisa sustentar a outra metade dessa proposta. Os efeitos oscilam, especialmente quando o animal precisa ser mostrado por períodos maiores, mas existe uma combinação razoavelmente eficiente entre efeitos práticos e recursos digitais. Roache-Turner parece compreender suas limitações financeiras e, na maior parte do tempo, sabe trabalhar ao redor delas. Nem toda aparição convence da mesma maneira, porém o filme compensa parte dessas irregularidades pela agressividade dos ataques. Quando “Tubarão de Guerra” decide ser brutal, não existe qualquer interesse em preservar a delicadeza do espectador. Os ataques possuem impacto físico, o sangue ocupa a imagem sem timidez e as mortes carregam aquela desagradável sensação de carne sendo efetivamente destruída que um terror de sobrevivência precisa produzir para estabelecer consequências.
Essa violência também impede que o tubarão se transforme apenas em atração. Existe sempre um risco em filmes desse subgênero de o animal deixar de provocar medo e assumir a posição de celebridade da própria produção, especialmente quando o público começa a aguardar a próxima morte com mais entusiasmo do que preocupação pelos personagens. “Tubarão de Guerra” não escapa completamente desse problema, mas constrói um estado de desespero suficientemente convincente para preservar alguma tensão entre os ataques. A criatura é uma presença constante mesmo quando não aparece, e isso permite que o filme mantenha uma pressão relativamente estável durante boa parte da duração.
O principal problema está no roteiro quando ele precisa preencher justamente esses intervalos. Os personagens recebem características suficientes para serem diferenciados, mas raramente profundidade bastante para se tornarem indivíduos verdadeiramente complexos. O diálogo frequentemente possui uma funcionalidade tão evidente que deixa de soar como conversa e passa a parecer informação sendo transportada de um ponto narrativo para outro. O filme é consideravelmente melhor quando seus personagens estão tentando sobreviver do que quando precisam explicar quem são. Há uma diferença bastante perceptível entre a competência visual de Roache-Turner para administrar perigo e a capacidade do texto de produzir intimidade, e nem todas as perdas possuem o impacto emocional que a violência utilizada para representá-las parece exigir.
Mark Coles Smith consegue atravessar boa parte dessa fragilidade textual com uma presença sólida e oferece ao filme o centro humano de que ele precisa. Sua interpretação funciona principalmente porque evita disputar atenção com a premissa. Em uma produção que poderia facilmente incentivar performances histéricas diante da ameaça permanente, existe um controle interessante na maneira como o ator administra exaustão, medo e responsabilidade. Ao redor dele, Joel Nankervis, Sam Delich, Maximillian Johnson e Lee Tiger Halley ajudam a estabelecer a dinâmica coletiva necessária para que a jangada pareça um ambiente social antes de se transformar definitivamente em um espaço de seleção brutal.
Ainda assim, “Tubarão de Guerra” nunca consegue escapar completamente da previsibilidade estrutural inerente ao tipo de filme que escolheu ser. Depois que todas as peças são posicionadas, começamos a reconhecer com alguma facilidade a lógica utilizada para determinar quando uma nova ameaça surgirá, quando haverá alguns minutos de aparente tranquilidade e quando alguém tomará uma decisão obviamente desastrosa. Existem momentos em que personagens parecem temporariamente abandonar qualquer capacidade de raciocínio porque o roteiro precisa produzir uma nova situação de perigo. É aquela velha doença do terror na qual a estupidez humana se torna uma ferramenta de roteiro conveniente demais, e nem mesmo a Segunda Guerra Mundial consegue oferecer imunidade contra ela.
Curiosamente, essa previsibilidade não destrói o filme porque Roache-Turner possui energia suficiente na direção para evitar que a familiaridade se transforme em completo desinteresse. “Tubarão de Guerra” não depende de uma grande surpresa narrativa. Sua proposta está mais próxima de uma máquina de tensão, estabelecendo uma situação impossível, reduzindo progressivamente as alternativas e observando quanto tempo seus personagens conseguem permanecer vivos. Sabemos que haverá ataques, sabemos que decisões ruins serão tomadas e sabemos que aquela jangada não permanecerá um espaço minimamente seguro durante muito tempo. O prazer perverso está na execução.
Também existe algo particularmente eficiente na escolha de um tubarão como ameaça dentro de um filme de guerra. Monstros sobrenaturais poderiam transformar completamente a natureza da história, enquanto o tubarão preserva uma ligação desconfortável com a realidade. É um animal existente colocado em uma situação extraordinária, e essa possibilidade, por mais improvável que seja em suas proporções cinematográficas, produz uma forma diferente de medo. O terror funciona melhor quando o filme lembra que seu monstro não precisa de uma mitologia, de uma origem secreta ou de qualquer justificativa moral para atacar. Ele simplesmente pertence àquele ambiente muito mais do que os homens presos sobre a jangada.
É justamente por isso que a tentativa ocasional de transformar o animal em uma espécie de antagonista tradicional é menos interessante do que sua presença enquanto força da natureza. Quanto mais o tubarão parece agir segundo a conveniência dramática, menor é sua capacidade de provocar aquele medo primitivo que nasce da imprevisibilidade. O filme encontra resultados melhores quando o trata como parte daquele oceano indiferente, uma ameaça que não odeia os personagens, não conhece suas histórias e certamente não possui qualquer consideração pelo fato de que eles já sobreviveram a uma guerra antes de cair na água.
“Tubarão de Guerra” está longe de reinventar o cinema de tubarão e provavelmente nem possui essa ambição. Seu maior mérito está em compreender que uma boa ideia de gênero precisa primeiro ser executada antes de ser intelectualizada. Kiah Roache-Turner encontra uma combinação genuinamente divertida entre filme de guerra e horror de sobrevivência, sustenta uma tensão bastante consistente e entrega violência suficiente para satisfazer quem chegou exatamente pela promessa de assistir a um enorme tubarão branco transformar soldados naufragados em alimento. Ao mesmo tempo, as limitações do diálogo, a construção superficial de parte dos personagens e alguns efeitos irregulares impedem que a produção alcance a mesma força dramática de sua premissa.
Mesmo com essas limitações, existe personalidade na maneira como o longa abraça sua própria estranheza. Em vez de tentar esconder o absurdo da combinação entre guerra e tubarão atrás de uma solenidade que provavelmente destruiria qualquer diversão, “Tubarão de Guerra” leva a situação a sério o suficiente para produzir tensão, mas nunca tanto a ponto de esquecer o tipo de filme que prometeu entregar. Há sangue, desespero, corpos vulneráveis, um oceano imenso e uma criatura que não precisa de grandes explicações para justificar sua presença. Quando o roteiro para de falar demais e permite que esses elementos assumam o controle, o resultado é um thriller brutal, limitado e bastante eficiente, daqueles que entendem que às vezes a melhor justificativa para colocar um tubarão em determinado cenário é simplesmente descobrir o que acontece depois.
“Tubarão de Guerra”
Direção: Kiah Roache-Turner
Elenco: Mark Coles Smith, Joel Nankervis, Sam Delich, Maximillian Johnson e Lee Tiger Halley
Disponível em: HBO Max
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






