Falar de U2 em 2026 é falar de permanência. É falar de uma banda que atravessou a explosão do pós-punk, redefiniu o conceito de arena rock nos anos 80, tensionou a própria identidade nos 90 e, nas últimas duas décadas, oscilou entre reinvenção e autoparódia. Por isso, quando surge um EP como “Days of Ash”, a pergunta deixa de ser se ainda há relevância e passa a ser outra: há urgência?

“Days of Ash” nasce como um gesto imediato. Um lançamento súbito, quase intempestivo, produzido por Jacknife Lee, que reúne seis faixas e uma ambição clara: reagir ao presente. O projeto surge como o primeiro conjunto de inéditas desde “Songs of Experience”, de 2017, e carrega consigo uma inquietação política que recoloca a banda no terreno onde sempre se sentiu mais confortável: o da tensão histórica.
O que se percebe ao ouvir o EP é que ele opera como um documento de época. As letras abordam assassinatos, conflitos internacionais, repressões e feridas geopolíticas abertas. A escolha de musicalizar um poema de Yehuda Amichai revela uma tentativa de ampliar o diálogo para além do formato tradicional do rock, tensionando fronteiras entre canção e literatura. Existe aqui uma intenção clara de registrar o caos dos anos 2020 sem filtros amenizadores.
Bono define o material como canções de desafio, lamento e consternação. A declaração pode soar grandiosa, mas, desta vez, encontra respaldo no conteúdo. O vocal segue dramático, carregado de interpretação quase teatral, porém mais contido do que em projetos recentes. Há menos autocelebração e mais desconforto.
Tecnicamente, o EP apresenta altos e baixos. A produção de Jacknife Lee busca um equilíbrio entre densidade atmosférica e estrutura radiofônica. Em alguns momentos, a bateria e as guitarras soam excessivamente polidas, o que reduz o impacto de faixas que pediriam maior aspereza. Quando o instrumental ganha corpo, especialmente nas entradas mais explosivas da bateria, a energia cresce e a assinatura da banda reaparece com clareza. É nesse ponto que o U2 lembra por que se tornou gigante.
A guitarra de The Edge permanece calculada, construída sobre camadas e delay, menos abrasiva do que em “War”, mas ainda reconhecível. Há ecos distantes da espiritualidade expansiva de “The Joshua Tree”, embora sem a mesma força simbólica. O EP não atinge o nervo exposto do passado, porém sugere consciência histórica.
O discurso político, desta vez, é frontal. A banda se posiciona sobre conflitos contemporâneos com uma clareza que inevitavelmente gera fricção. Parte do público pode considerar o tom didático; outra parte verá coerência com uma trajetória que sempre flertou com ativismo. O U2 nunca foi uma banda neutra, e essa escolha sempre trouxe consequências.
Comparações com “Songs of Surrender” surgem naturalmente, e aqui o contraste favorece “Days of Ash”. Enquanto o projeto de releituras dialogava com memória e reinterpretação, o novo EP olha diretamente para o agora. Pode soar irregular, mas transmite propósito.
Há momentos em que o material parece buscar a grandiosidade emotiva típica do grupo sem alcançar o mesmo impacto visceral de décadas anteriores. A sensação é de maturidade que substitui fúria. A rebeldia juvenil dá lugar a uma indignação mais contemplativa. Isso enfraquece? Depende da expectativa.
O EP também funciona como sinalização estratégica. Bono já antecipou que um álbum completo chegará ainda em 2026, com proposta estética distinta. Nesse contexto, “Days of Ash” assume o papel de manifesto provisório. É uma espécie de interlúdio ideológico antes de uma possível reinvenção sonora.
Musicalmente, há traços que remetem ao U2 clássico, mas filtrados por uma produção contemporânea que suaviza arestas. Liricamente, o conteúdo se mantém consistente e direto. O conjunto não revoluciona a discografia, tampouco redefine os parâmetros do rock político, porém apresenta algo que faltava nos últimos anos: convicção.
A grande questão que paira sobre o lançamento é inevitável: até quando continuar? Bandas com mais de quatro décadas de carreira convivem com esse dilema. O peso histórico de “War” e “The Joshua Tree” permanece imenso. O próprio Bono já ironizou a necessidade de mais um álbum do U2 no mundo. Ainda assim, “Days of Ash” prova que a discussão sobre relevância continua aberta. Não se trata de um retorno revolucionário. Trata-se de um gesto consciente.
O EP talvez não figure entre os grandes marcos da discografia, mas captura o espírito turbulento de uma década marcada por instabilidade política e crise humanitária. Há imperfeições na produção, há momentos excessivamente seguros, mas há também honestidade. E honestidade, para uma banda desse tamanho e dessa idade artística, já é um posicionamento.
Se “Days of Ash” anuncia uma fase mais combativa ou apenas um lampejo pontual, o próximo álbum dirá. Por enquanto, o que se pode afirmar com segurança é que o U2 ainda escolhe reagir. E reagir, em tempos de cinzas, já carrega peso simbólico.
Nota final: 80/100
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