Entre quadras que parecem arenas de guerra e sonhos que insistem em sobreviver ao impacto, existe algo irresistível na jornada do improvável. É nesse território de superação, humor acelerado e animação vibrante que “Um Cabra Bom De Bola” encontra sua identidade. E encontra também seu público.

A premissa é direta, quase clássica. Cameron Cade é um bode talentoso prestes a alcançar a elite do roarball, esporte que mistura basquete com brutalidade física e espetáculo midiático. Um ataque inesperado muda tudo. O trauma cerebral ameaça interromper a carreira antes mesmo de ela começar. A partir daí, entra em cena o ídolo Isaiah White, que assume o papel de mentor em uma narrativa que aposta na reconstrução física e emocional como motor dramático.
Nada disso reinventa a roda. Mas nem toda história precisa reinventar a roda para funcionar. Às vezes, basta fazê-la girar com energia. A estrutura é a do underdog clássico. O time desacreditado contra a potência arrogante. O talento questionado que precisa provar valor. A diferença está no acabamento. A direção de Tyree Dillihay e Adam Rosette entende que, em uma animação esportiva contemporânea, ritmo é tudo. E ritmo aqui é pulsação constante.
Visualmente, o filme dialoga com a revolução estética iniciada por Spider-Man: Into the Spider-Verse, misturando 2D e 3D com texturas que simulam traços à mão, cores vibrantes e enquadramentos que parecem saltar da tela. Ainda assim, há personalidade própria. Não é cópia, é influência bem digerida. Cada personagem possui design marcante, quase colecionável. É fácil imaginar essas figuras estampando mochilas, cadernos e bonecos articulados.
As partidas são coreografadas com inteligência. O roarball respeita a lógica do basquete, mas explora características físicas dos animais para criar jogadas inventivas. Girafas dominam a altura. Dragões-de-komodo impõem força. Hamsters multiplicam caos e humor. O resultado é dinâmico, adrenalínico e, acima de tudo, divertido.
E aqui entra um dos maiores acertos do filme: a comédia. O humor funciona tanto no visual quanto no diálogo. Piadas rápidas, gags físicas, comentários ácidos que escapam para os adultos atentos. Há um frescor que impede a narrativa de se levar excessivamente a sério. Mesmo nos momentos mais dramáticos, a leveza retorna como válvula de equilíbrio.
No campo emocional, “Um Cabra Bom De Bola” não busca profundidade existencial. Busca identificação. Crianças enxergam em Cameron a representação do esforço, da disciplina, da persistência diante da adversidade. Adultos reconhecem a fórmula. Ainda assim, a execução competente faz com que a experiência seja mais envolvente do que previsível.
Há ecos de Space Jam na construção do confronto esportivo. O espírito de equipe contra a opressão de adversários fisicamente superiores. A atmosfera de espetáculo esportivo como entretenimento máximo. A diferença está na abordagem emocional, que prefere focar na recuperação pessoal do protagonista em vez de apostar exclusivamente no evento final.
As vozes também merecem destaque. Caleb McLaughlin empresta carisma e vulnerabilidade ao jovem bode. Gabrielle Union adiciona presença e firmeza. Jenifer Lewis entrega timing cômico afiado. O elenco vocal sustenta a energia da animação com segurança.
O roteiro de Aaron Buchsbaum e Teddy Riley compreende seu público-alvo. Não tenta transformar a história em tratado filosófico sobre pressão esportiva ou indústria do entretenimento. Opta por algo mais direto: inspiração acessível. E, dentro dessa proposta, cumpre o que promete.
Pode soar familiar. Pode seguir trilhas já percorridas por dezenas de animações esportivas. Ainda assim, existe carisma suficiente para transformar o conhecido em agradável. O filme entende que, para o público infantil, ver um protagonista cair e levantar é mais importante do que subverter estruturas narrativas.
“Um Cabra Bom De Bola”
Direção: Tyree Dillihay, Adam Rosette
Elenco (vozes): Caleb McLaughlin, Gabrielle Union, Jenifer Lewis
Disponível em: cinemas brasileiros
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