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Crítica: “Uma Família Perfeita” (1ª temporada)

Tem histórias que parecem pedir por uma adaptação dramática de primeira, com suspense, dilemas morais e aquele incômodo que fica martelando a cabeça do espectador dias depois. Só que “Uma Família Perfeita” passa longe de qualquer um desses méritos. O que deveria ser um retrato angustiante do caso real de Natalia Grace vira um show de erros tão grande que a sensação é de assistir a um esboço inacabado, desses que o roteirista esqueceu de revisar antes de entregar.

Crítica: “Uma Família Perfeita” (1ª temporada)

A série, que chega ao streaming tentando surfar na onda do fascínio popular por crimes e casos bizarros, conta a história de Kristine (Ellen Pompeo) e Michael Barnett (Mark Duplass), um casal americano do meio-oeste que decide adotar Natalia, supostamente uma menina ucraniana de seis anos com nanismo. A princípio, tudo soa como aquele conto de boas intenções, onde a família abre as portas para uma criança em vulnerabilidade. Só que o enredo vai se retorcendo quando detalhes estranhos começam a surgir e a desconfiança cresce: e se Natalia não fosse uma criança? E se fosse muito mais velha, com planos perigosos, dentro da casa deles?

É o tipo de premissa que poderia render uma obra densa, perturbadora, e até explorar a linha tênue entre paranoia e realidade. Mas a série se perde tanto no próprio labirinto que termina afundando em cenas arrastadas, decisões narrativas bizarras e atuações que beiram a caricatura. Ellen Pompeo parece presa em um looping de caretas dramáticas, enquanto Mark Duplass é completamente absorvido por um papel raso, quase protocolar, que não faz jus ao peso do personagem real.

Do meio para o fim, “Uma Família Perfeita” vira um marasmo constrangedor. São diálogos intermináveis que não avançam a trama, cortes bruscos que saltam de um ponto a outro sem construir o arco emocional dos personagens, e um clima de tensão que nunca chega a se concretizar. O pior é notar como o roteiro aposta em saltos temporais para mascarar a falta de substância. Em um momento, o casal está separado, trocando acusações; no outro, voltam a aparecer como uma família unida, sem sequer justificar como as peças se rearranjaram nesse quebra-cabeça esquisito.

E aí tem Natalia. Interpretada por Imogen Faith Reid, ela deveria carregar a aura ambígua que faz o público duvidar de tudo o que vê. Só que, no lugar disso, o roteiro prefere sublinhar o óbvio, numa tentativa quase infantil de emular aquele desconforto de “A Órfã”, mas sem o menor requinte. Até o relacionamento frio entre Natalia e o filho mais velho dos Barnett parece plantado ali só para dar um ar de mal-estar, mas sem peso dramático real.

O que sobra é uma produção que tenta chocar e falha miseravelmente, deixando mais perguntas do que respostas. Não que uma obra de ficção precise entregar tudo mastigado, mas se o objetivo é provocar reflexão, ao menos deve oferecer um ponto de chegada. Aqui, não tem. É tudo raso, confuso e cansativo.

Dá pra entender a escolha de usar a história real de Natalia Grace, que já havia ganhado força no documentário “O Curioso Caso de Natalia Grace”. Mas ao transformar esse caso tão delicado em uma série sem alma, o Hulu e a Disney assinam um recibo de oportunidade desperdiçada. No lugar de um drama que poderia questionar a fragilidade das instituições, a responsabilidade dos pais e a forma cruel como a mídia molda narrativas, entregaram uma colcha de retalhos emocionalmente vazia.

Se era pra ser o novo grande drama sombrio do streaming, “Uma Família Perfeita” não passa nem perto. E pra quem fica tentado a ver só por curiosidade, o conselho mais honesto é: guarde seu tempo para algo melhor.

Uma Família Perfeita
Direção: Katie Robbins
Elenco: Ellen Pompeo, Mark Duplass, Imogen Faith Reid
Disponível na Disney+

Avaliação: 1 de 5.

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