Ícone do site Caderno Pop

Crítica: “Uma Mulher Comum” (A Normal Woman)

Existe um tipo de frustração que só o cinema provoca: quando tudo está ali, posto com cuidado, talento e intenção, mas a obra insiste em ficar aquém do próprio potencial. “Uma Mulher Comum” é exatamente isso. Um filme que tem a ambição certa, a atmosfera correta, mas esbarra num roteiro morno, que parece evitar o mergulho onde mais precisava afundar.

Crítica: “Uma Mulher Comum” (A Normal Woman)

Com direção de Lucky Kuswandi e um elenco forte que inclui Marissa Anita e Dion Wiyoko, a produção acerta no que deveria ser o ponto de partida: uma estética sólida, que entende o que o suspense psicológico exige. Há tensão visual, uma fotografia que sabe o que está fazendo, momentos de inquietação bem conduzidos. O problema é o que falta entre uma cena boa e outra.

O filme acompanha Emma, uma mulher da elite prestes a enfrentar uma possível doença misteriosa, que a força a revisitar seus próprios fantasmas. A premissa é potente. Há espaço para desconstrução, para o grotesco íntimo, para a neurose sufocante que esse tipo de história pode explorar com maestria. Mas tudo isso se dilui numa narrativa que parece sempre prestes a acontecer sem nunca realmente acontecer.

O ritmo é arrastado e a estrutura do roteiro não favorece o envolvimento emocional do público. Há personagens que surgem sem muita explicação e viram antagonistas num estalar de dedos, com construções rasas e pouco trabalhadas. A própria protagonista parece circular dentro de um labirinto sem evolução. Emma não cresce, não regride, não explode. Ela apenas desliza por cenas que querem parecer mais importantes do que realmente são.

Isso fragiliza até os momentos mais ambiciosos do longa, como os trechos que flertam com o simbólico. Há imagens potentes, mas que se esvaziam diante de uma falta de profundidade narrativa. Tudo acaba soando decorativo, como se a linguagem visual precisasse compensar o que o roteiro não consegue entregar. E quando se tenta um ou outro choque, ele vem com cara de anúncio publicitário de vitamina C.

Apesar disso, há valor na tentativa. O filme foge do lugar-comum do “thriller psicológico indonésio padrão”, que costuma se apoiar demais em truques visuais e reviravoltas gratuitas. Aqui, existe um esforço real de tratar o trauma com seriedade e de integrar questões queer ao enredo, sem que isso vire apenas um enfeite. É visível que há uma preocupação em construir relevância, ainda que o resultado seja inconsistente.

O elenco entrega o que pode com o material que tem. Marissa Anita segura a protagonista com dignidade, mesmo quando o texto parece não lhe oferecer combustível dramático. Dion Wiyoko tem presença e apelo, mas seu personagem, assim como tantos outros no filme, carece de densidade. Fica a impressão de que todos ali sabiam o que estavam tentando fazer, mas o filme não chegou a ser o que poderia.

“Uma Mulher Comum” é um trabalho que pede paciência. Nem tanto pela sua duração ou pelo ritmo pausado, mas pelo sentimento persistente de que se trata de um filme inacabado em espírito, que arranha temas profundos sem mergulhar neles com coragem. Ainda assim, é uma obra que carrega honestidade artística, com vontade de dialogar com um cinema mais introspectivo, que desafia, mesmo sem impactar.

Tem alma, tem intenção, mas tropeça na execução. E isso, em certos casos, acaba sendo mais frustrante do que uma obra ruim de fato.

“Uma Mulher Comum”
Direção: Lucky Kuswandi
Elenco: Marissa Anita, Dion Wiyoko, Gisella Anastasia
Disponível em: Netflix

Avaliação: 2 de 5.

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile