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Crítica: “Unabomber”

Texto: Ygor Monroe
28 de setembro de 2026
em Cinemas/Filmes, Netflix, Resenhas/Críticas, Streaming

Existe uma responsabilidade particular em dramatizar a juventude de alguém que posteriormente se tornaria responsável por uma campanha de violência. Quanto melhor o filme explica, maior o risco de parecer justificar. Quanto menos explica, maior a possibilidade de transformar uma trajetória humana complexa em uma coleção de sinais sinistros retrospectivamente convenientes. “Unabomber”, dirigido por Janus Metz Pedersen, passa boa parte de sua duração tentando encontrar algum equilíbrio entre essas duas possibilidades. O resultado é um suspense inquietante e sustentado por uma atuação extraordinária de Jacob Tremblay, mas também um filme que parece tão interessado em descobrir quando Ted Kaczynski começou a mudar que acaba investigando pouco demais aquilo em que ele efetivamente se transformou.

Crítica: “Unabomber”
Crítica: “Unabomber”

A narrativa acompanha duas temporalidades. Em uma delas, encontramos Ted ainda adolescente, interpretado por Tremblay, chegando a Harvard aos 16 anos como um prodígio matemático intelectualmente muito mais preparado para aquele ambiente do que emocionalmente equipado para habitá-lo. Na outra, décadas depois, uma equipe do FBI participa da investigação para identificar o responsável pela sequência de atentados que transformou o Unabomber em um dos criminosos mais conhecidos dos Estados Unidos. Joanne Miller, interpretada por Shailene Woodley, funciona como principal ponto de entrada para a investigação, enquanto o passado de Ted gradualmente ocupa espaço suficiente para deixar claro onde está o verdadeiro interesse do filme. E talvez esse seja o primeiro problema de “Unabomber”: suas duas metades não parecem possuir a mesma curiosidade.

Sempre que retorna aos anos de Harvard, o longa ganha outra temperatura. Ted chega à universidade como um garoto evidentemente brilhante, socialmente deslocado e vulnerável a um ambiente para o qual inteligência matemática não oferece manual de sobrevivência. A câmera observa sua dificuldade de conexão sem imediatamente transformá-la em prenúncio maligno. É uma decisão importante. Não existe nada inerentemente ameaçador em ser solitário, socialmente desajeitado ou intelectualmente precoce, e seria irresponsável utilizar essas características como explicação retroativa para os crimes que sabemos que acontecerão décadas depois. Jacob Tremblay entende isso perfeitamente.

É impressionante observar o quanto sua interpretação depende menos de grandes explosões e mais daquilo que acontece no rosto. Tremblay interpreta Ted como alguém que está permanentemente processando o ambiente ao redor, mesmo quando não verbaliza absolutamente nada. Há inteligência, desconforto, arrogância, vulnerabilidade e uma crescente hostilidade convivendo sem que o ator precise escolher uma delas como definição definitiva do personagem.

Para quem acompanhou Tremblay desde “O Quarto de Jack”, existe ainda o inevitável choque de perceber que aquela criança cresceu e agora possui recursos dramáticos consideravelmente mais sofisticados. Felizmente, “Unabomber” não depende dessa curiosidade extracinematográfica. A atuação funciona mesmo para quem nunca assistiu a nada anterior do ator. Seu maior mérito está em resistir à tentação óbvia de interpretar Ted como alguém que já carregava um letreiro invisível escrito “futuro terrorista” aos 16 anos. O desconforto nasce justamente porque não existe esse letreiro.

A entrada do personagem nos experimentos psicológicos conduzidos por Henry Murray, interpretado por Russell Crowe, modifica radicalmente o ambiente. O filme passa a trabalhar sobre humilhação, manipulação e vulnerabilidade dentro de uma relação profundamente desigual entre pesquisador e participante. Crowe possui uma presença ideal para essas sequências porque consegue fazer Murray parecer intelectualmente fascinante e moralmente alarmante sem precisar transformá-lo em cientista maluco de desenho animado.

Existe algo especialmente desagradável na tranquilidade com que determinadas situações são conduzidas. A violência psicológica não precisa parecer violência para quem a exerce. Institucionalizada, documentada e apresentada como pesquisa, ela pode ganhar vocabulário suficiente para parecer respeitável enquanto alguém do outro lado está sendo desmontado. É nesse material que “Unabomber” encontra sua parte mais perturbadora, mas também sua simplificação mais perigosa.

O filme precisa tomar enorme cuidado ao relacionar essas experiências ao homem que Kaczynski posteriormente se tornaria. Uma experiência traumática pode integrar a biografia de alguém sem funcionar como explicação total para décadas posteriores de escolhas, ideias e crimes. Quando a montagem aproxima demais humilhação, isolamento, ressentimento e violência futura, surge uma causalidade cinematograficamente elegante demais para uma realidade muito mais complicada. Ted não se tornou o Unabomber simplesmente porque entrou em determinada sala em Harvard e saiu psicologicamente diferente.

O problema é que “Unabomber” ocasionalmente parece seduzido por essa possibilidade porque ela organiza uma biografia caótica em uma linha dramática perfeita. O garoto brilhante entra. O experimento o quebra. O isolamento aumenta. O ressentimento cresce. Décadas depois, surge o terrorista. Funciona maravilhosamente como roteiro. Como explicação histórica e psicológica, é arrumado demais para ser plenamente convincente.

E existe uma ironia nisso: o filme é muito mais interessado no possível processo de fabricação do monstro do que no período em que esse homem efetivamente começa a fabricar bombas. É justamente essa ausência que começa a incomodar. “Unabomber” dedica energia considerável à formação de Ted e à investigação que eventualmente cerca sua identidade, mas existe um enorme território entre esses dois pontos. Como suas ideias se radicalizaram? Como ele racionalizou a violência? Como selecionava alvos? Como ocorreu a passagem entre ressentimento, ideologia e decisão concreta de ferir e matar desconhecidos? Essas perguntas não precisam receber respostas psicológicas definitivas, até porque provavelmente seria irresponsável fingir que existem. Mas poderiam ser investigadas. O filme procura intensamente a origem de Ted Kaczynski e estranhamente pouco a construção do Unabomber.

Isso faz com que parte da narrativa adulta pareça uma oportunidade perdida. Existe uma diferença entre explicar por que alguém se tornou terrorista e examinar como alguém construiu uma visão de mundo capaz de acomodar o terrorismo. A primeira pergunta corre o risco de produzir respostas simplistas. A segunda permitiria ao filme investigar contradições, racionalizações e escolhas sem transformar violência em consequência inevitável de trauma.

Em vez disso, a narrativa salta para a investigação dos anos 1990, e aquilo que deveria funcionar como contraponto ao passado de Ted acaba parecendo material de outra produção encaixado entre os capítulos realmente interessantes. Shailene Woodley faz o possível para conferir dimensão a Joanne Miller, mas sua personagem sofre porque o espectador percebe rapidamente que o filme possui muito mais curiosidade por quem está sendo caçado do que por quem está conduzindo a caçada.

Esse desequilíbrio prejudica especialmente o suspense. Sabemos quem é Ted Kaczynski. Sabemos que ele será identificado. Sabemos que será preso. Portanto, a reconstrução da investigação não pode depender exclusivamente da pergunta “quem fez isso?”. Precisa encontrar tensão no método, nas dificuldades e nas pessoas envolvidas. “Unabomber” consegue isso ocasionalmente, sobretudo quando evidencia como pequenas informações começam a ganhar significado dentro de uma investigação gigantesca. Ainda assim, a caçada frequentemente possui aquela estranha qualidade de dramatização que faz pensar que um bom documentário explicaria o mesmo processo com maior precisão e provavelmente em menos tempo.

É um problema particularmente evidente porque as sequências em Harvard possuem justamente aquilo que falta aos segmentos investigativos: perspectiva. Quando estamos com Ted adolescente, não estamos apenas recebendo informações. Estamos experimentando um ambiente através de uma subjetividade. A universidade pode ser intelectualmente estimulante e socialmente hostil. Murray pode ser pesquisador e figura ameaçadora. Ted pode ser vítima de práticas psicologicamente violentas e, simultaneamente, continuar sendo responsável pelo adulto que decidirá cometer crimes anos depois. Essa ambiguidade mantém o filme vivo.

A narrativa dos anos 1990 é muito mais mecânica. Informação leva a informação, agentes discutem possibilidades e o cerco se aproxima. Há competência na encenação, mas pouca descoberta cinematográfica. Depois de décadas de procedurais policiais, documentários criminais e séries de true crime, simplesmente reconstruir uma investigação já não produz automaticamente tensão.

O ritmo também sofre com essa divisão. Toda vez que o passado começa a adquirir densidade, precisamos retornar ao procedimento investigativo. Quando a investigação começa a ganhar algum impulso, o filme novamente mergulha na juventude. A estrutura paralela deveria fazer as duas temporalidades se iluminarem mutuamente, mas frequentemente produz a sensação de que uma está interrompendo a outra, e quase sempre sabemos qual delas gostaríamos de continuar assistindo.

Tremblay é responsável por boa parte dessa diferença. Seu Ted não se transforma repentinamente. Há pequenas alterações na postura, na maneira de observar outras pessoas e principalmente na temperatura emocional da interpretação. A solidão vai adquirindo outra qualidade. O isolamento deixa de parecer apenas circunstancial e começa a se misturar ao ressentimento.

Mas é importante não confundir essa progressão dramática com diagnóstico. “Unabomber” funciona melhor quando observa comportamentos e pior quando parece sugerir causalidades psicológicas definitivas. Um filme pode mostrar como alguém mudou sem reivindicar autoridade para explicar completamente por que alguém se tornou capaz de matar.

Russell Crowe entende igualmente bem a necessidade de não exagerar. Henry Murray poderia facilmente se tornar o verdadeiro vilão da história em uma espécie de transferência moral conveniente. Crowe evita isso. Seu personagem é perturbador justamente porque permanece plausível como figura institucional. Não existe necessidade de iluminação sinistra ou música anunciando perversidade. A autoridade já basta.

Shailene Woodley enfrenta uma tarefa menos generosa. Joanne existe principalmente dentro da engrenagem investigativa e recebe menos material subjetivo. Woodley encontra determinação e inteligência na personagem, mas o roteiro não demonstra o mesmo interesse em descobrir quem ela é quando deixa de estar perseguindo uma pista. É difícil competir dramaticamente quando a outra metade do filme possui Tremblay e Crowe envolvidos em uma experiência psicológica moralmente repulsiva.

Os minutos finais conseguem reunir parte do material disperso e entregar uma conclusão mais forte do que o desenvolvimento intermediário sugeria. O filme encontra finalmente uma sensação de consequência que não depende apenas de reconstruir fatos conhecidos. Existe peso naquilo que aconteceu e, principalmente, na impossibilidade de encontrar uma resposta simples capaz de organizar tudo. Talvez “Unabomber” fosse melhor se aceitasse essa impossibilidade mais cedo.

Porque Ted Kaczynski permanece um personagem historicamente desconfortável justamente pela tentação de transformá-lo em enigma solucionável. É sedutor imaginar que exista uma experiência, uma humilhação, uma rejeição ou uma sequência perfeitamente identificável de acontecimentos que explique tudo. Isso cria distância segura. Encontramos a causa, fechamos a equação e podemos seguir em frente. Só que seres humanos não são problemas matemáticos, por mais apropriada que essa metáfora possa parecer quando o sujeito em questão é um prodígio da matemática.

O filme acerta ao mostrar que isolamento pode alimentar ressentimento e que determinadas experiências podem deixar consequências profundas. Erra quando parece satisfeito demais com a proximidade entre esses elementos. Entre o adolescente submetido aos experimentos e o adulto que envia bombas existe um território moral, ideológico e biográfico enorme que merecia muito mais atenção.

É justamente por isso que a sensação final é contraditória. “Unabomber” consegue ser perturbador sem ser particularmente completo. Possui um protagonista jovem fascinante sem investigar suficientemente o adulto que ele se tornará. Reconstrói uma caçada famosa com competência, mas sem encontrar nela a mesma força psicológica de suas cenas ambientadas décadas antes. Jacob Tremblay acaba entregando uma interpretação mais complexa do que a explicação que o próprio filme oferece para seu personagem. Ele permite enxergar inteligência, fragilidade, arrogância, solidão e ressentimento sem sugerir que qualquer combinação dessas características inevitavelmente produziria violência. É justamente essa recusa em simplificar que faz sua atuação permanecer na cabeça depois dos créditos, e “Unabomber” teria sido muito mais perturbador se demonstrasse a mesma coragem.

Janus Metz Pedersen possui controle suficiente para construir um filme frio, incômodo e visualmente coerente, mas sua narrativa parece hesitar diante das questões mais difíceis. A investigação adulta informa, a juventude intriga e os experimentos chocam, porém o espaço que conecta tudo permanece insuficientemente explorado. O filme mostra muito bem um jovem sendo progressivamente afastado do mundo, mas tem menos a dizer sobre o momento em que esse afastamento deixa de ser sofrimento pessoal e passa a ser transformado em violência contra outras pessoas.

“Unabomber” não é uma explicação definitiva sobre Ted Kaczynski, e talvez nenhum filme devesse tentar ser. É uma dramatização eficiente e frequentemente inquietante de determinados fragmentos de sua trajetória, elevada consideravelmente por Jacob Tremblay e Russell Crowe. O problema está justamente nos fragmentos que escolhe deixar de fora. Para uma história sobre um homem obcecado por construir argumentos, o longa apresenta uma tese provocadora, reúne algumas evidências fascinantes e encerra a exposição antes de demonstrar completamente como chegou à conclusão.

“Unabomber”
Direção:
Janus Metz Pedersen
Elenco: Shailene Woodley, Russell Crowe e Jacob Tremblay
Disponível em: Netflix

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: CríticaJacob TremblayResenhaReviewRussell CroweShailene Woodley

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