Adaptar “Verity” para o cinema sempre pareceu uma operação mais delicada do que simplesmente transportar para a tela um dos livros mais conhecidos de Colleen Hoover. A história depende de manipulação, versões conflitantes, desejo, paranoia e de uma ambiguidade que só funciona quando o público perde a segurança de saber exatamente quem está dizendo a verdade. Michael Showalter entende essa característica e toma uma decisão fundamental para que o filme encontre identidade própria: em vez de tentar conferir uma solenidade que nunca pertenceu ao material, “Verity” abraça o exagero, intensifica sua atmosfera de horror psicológico e transforma o desconforto em parte do espetáculo.

Lowen Ashleigh, interpretada por Dakota Johnson, é uma escritora em situação financeira delicada quando recebe uma proposta capaz de reorganizar completamente sua vida profissional. Ela é contratada para concluir os livros de Verity Crawford, autora de enorme sucesso que ficou incapacitada após um grave acidente. Para assumir o trabalho, Lowen passa um período na casa da escritora, convivendo com seu marido, Jeremy, vivido por Josh Hartnett, e tendo acesso ao material deixado por Verity. É nesse ambiente que encontra um manuscrito capaz de alterar sua percepção daquela família e, principalmente, da mulher aparentemente indefesa que ocupa a casa.
O roteiro sabe que existe uma vantagem importante em trabalhar essa história através do olhar de Lowen. Tudo o que vemos está contaminado pela perspectiva de alguém que chegou naquele espaço depois que a tragédia já aconteceu. Ela conhece Verity através de relatos, documentos, comportamentos e interpretações que nunca oferecem uma imagem completamente estável. “Verity” não está particularmente interessado em entregar certezas, porque seu mecanismo funciona melhor quando cada resposta parece carregar a possibilidade de ter sido cuidadosamente construída para enganar alguém. O espectador passa a desconfiar não apenas daquilo que vê, mas também da maneira como aquela informação chegou até ele.
Essa lógica transforma a casa dos Crawford em uma extensão psicológica dos personagens. A fotografia explora corredores, quartos, portas, janelas e espaços aparentemente confortáveis como territórios permanentemente ameaçadores. Existe beleza naquele ambiente, mas nunca tranquilidade, e a câmera frequentemente parece procurar alguma coisa antes mesmo de Lowen saber que deveria estar procurando. A sensação é de que sempre existe uma informação escondida em algum canto do quadro, o que permite ao filme criar tensão sem depender o tempo inteiro de sustos ou acontecimentos grandiosos.
A escolha é especialmente eficiente porque “Verity” poderia facilmente se tornar visualmente genérico. O filme possui todos os elementos de um suspense doméstico tradicional, com uma casa isolada, uma família marcada pela tragédia, uma visitante que começa a ultrapassar limites e uma figura misteriosa observando silenciosamente o que acontece ao seu redor. Showalter utiliza essa familiaridade para manipular expectativas. Reconhecemos rapidamente o tipo de filme que estamos assistindo, mas isso não significa que conseguimos antecipar qual versão da história continuará parecendo verdadeira alguns minutos depois.
É justamente dentro dessa dinâmica que Anne Hathaway assume o controle do filme. Verity é uma personagem que exige precisão porque boa parte de sua força está na dúvida sobre quanto controle ela ainda possui sobre aquilo que acontece ao seu redor. Hathaway entende perfeitamente essa contradição e evita construir a personagem a partir de grandes demonstrações dramáticas. Seu trabalho acontece no olhar, na postura, na maneira como ocupa o enquadramento e, principalmente, na possibilidade permanente de existir alguma coisa por trás de uma expressão aparentemente vazia. Anne Hathaway transforma Verity em uma presença inquietante muito antes de o roteiro permitir que o público compreenda completamente quem aquela mulher pode ser.
Essa é provavelmente a melhor decisão de escalação do filme, porque uma interpretação menos controlada destruiria boa parte da ambiguidade necessária para sustentar a história. Hathaway não interpreta apenas aquilo que Verity é em determinado momento, mas parece carregar simultaneamente diferentes possibilidades da personagem. Vítima, manipuladora, mãe, esposa, escritora e observadora convivem dentro da mesma performance sem que uma interpretação elimine imediatamente a outra. Há momentos em que basta a atriz permanecer dentro do enquadramento para modificar completamente a temperatura de uma cena, e isso acontece porque ela compreende que a ameaça de Verity precisa existir antes mesmo de sabermos se existe realmente uma ameaça.
Dakota Johnson assume uma função diferente e igualmente necessária. Lowen precisa servir como ponto de entrada para o espectador e, ao mesmo tempo, gradualmente deixar de parecer uma observadora completamente confiável. Johnson trabalha bem essa transformação porque evita tornar a personagem excessivamente reativa. Sua Lowen absorve aquele ambiente antes de permitir que ele a modifique, criando uma progressão em que curiosidade profissional, fascínio pessoal, desejo e obsessão começam a se confundir. Quanto mais envolvida ela fica com aquela família, mais difícil se torna separar investigação de interesse próprio.
A química com Josh Hartnett é fundamental para essa deterioração dos limites. Jeremy não poderia funcionar apenas como o marido bonito e traumatizado colocado convenientemente no centro de um triângulo desconfortável. Hartnett utiliza muito bem uma qualidade que sua carreira recente tem explorado: um charme clássico atravessado por algo difícil de identificar. Existe uma elegância quase antiga em sua presença, mas ela nunca elimina completamente a suspeita. Hartnett encontrou um espaço particularmente interessante para personagens cuja aparência de segurança pode ser justamente aquilo que os torna perigosos, e Jeremy se beneficia diretamente dessa capacidade de permanecer atraente e suspeito ao mesmo tempo.
A relação entre os três funciona porque “Verity” compreende que atração e desconfiança precisam crescer juntas. O desejo não aparece como interrupção do suspense, mas como combustível para ele. Quanto mais Lowen se aproxima de Jeremy, menos neutra se torna sua leitura de Verity. Quanto mais perturbador parece o manuscrito encontrado por ela, mais conveniente também se torna acreditar naquela versão dos acontecimentos. O filme trabalha muito bem essa contaminação porque nunca permite que sentimentos pessoais sejam completamente separados da suposta busca pela verdade.
Esse é um dos aspectos mais interessantes da adaptação. A verdade em “Verity” nunca chega completamente separada do interesse de quem precisa acreditar nela. Lowen quer compreender o que aconteceu naquela casa, mas gradualmente passa a desejar um lugar dentro dela. Jeremy possui sua própria relação com o passado, enquanto Verity é uma escritora profissional cuja existência foi construída ao redor da capacidade de produzir narrativas convincentes. Quando essas perspectivas entram em colisão, a pergunta deixa de ser apenas quem está mentindo. O filme passa a brincar também com algo muito mais interessante: quem conseguiu escrever a versão mais sedutora dos acontecimentos.
É nesse ponto que a adaptação encontra uma personalidade cinematográfica mais forte. O livro trabalha de maneira muito direta com o desconforto produzido pela leitura de algo que talvez jamais devesse ter sido encontrado. O cinema não consegue reproduzir exatamente essa intimidade porque assistir e ler são experiências completamente diferentes. Em compensação, Showalter encontra no horror uma maneira eficiente de substituir parte dessa sensação. O silêncio ganha importância, movimentos pequenos tornam-se suspeitos e a montagem frequentemente prolonga situações alguns segundos além do confortável, fazendo com que o público permaneça esperando uma ruptura mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.
O resultado não alcança toda a perversidade que a história poderia assumir, especialmente para quem conhece a brutalidade psicológica do material original. Em alguns momentos, é possível sentir que o filme recua justamente quando poderia avançar mais e deixar a experiência ainda mais desagradável. Curiosamente, essa contenção também impede que “Verity” se transforme em uma competição para descobrir quantas atrocidades consegue colocar na tela. Há perversidade suficiente para provocar desconforto, mas o longa nunca perde de vista que também precisa funcionar como entretenimento, e é justamente aí que encontra boa parte de sua força.
“Verity” é extremamente divertido quando aceita aquilo que é. Quem entrar esperando um suspense psicológico rigorosamente realista provavelmente encontrará decisões absurdas demais, coincidências convenientes e personagens que frequentemente caminham em direção ao perigo quando qualquer pessoa minimamente sensata procuraria a saída mais próxima. Só que exigir realismo absoluto dessa história significa ignorar parte de sua proposta. O filme opera em uma frequência próxima do melodrama macabro, na qual desejo, morte, obsessão e manipulação precisam ser grandes o suficiente para transformar aquela casa em um universo próprio.
O mais interessante é que a adaptação não demonstra vergonha disso. Existem filmes baseados em fenômenos literários que parecem passar duas horas tentando provar que são intelectualmente superiores ao próprio material que estão adaptando. “Verity” não cai nessa armadilha. Pode reorganizar elementos, modificar situações e aproximar sua linguagem do horror, mas preserva a natureza provocadora da história. É uma adaptação que prefere encontrar uma linguagem cinematográfica para seus excessos em vez de tentar eliminá-los para parecer mais sofisticada.
Isso não significa que todas as escolhas funcionem igualmente bem. Há momentos em que a necessidade de preservar a ambiguidade fica perceptível demais e determinadas decisões parecem existir exclusivamente para impedir que o espectador feche uma interpretação antes do final. Quando um suspense chama atenção demais para o fato de que está escondendo alguma coisa, começamos a enxergar o mecanismo trabalhando por trás da narrativa. “Verity” chega perigosamente perto disso em alguns momentos, embora consiga recuperar o controle justamente por possuir personagens interessantes o suficiente para manter nossa atenção.
O último movimento amplia deliberadamente essa instabilidade. Em vez de organizar confortavelmente todas as respostas, o filme acrescenta novas camadas e insiste que qualquer conclusão depende da confiança depositada em versões produzidas por pessoas que possuem motivos suficientes para manipular a verdade. Pode ser frustrante para quem espera que um mistério termine com todas as peças perfeitamente encaixadas, mas essa nunca foi a parte mais interessante de “Verity”. A força dessa história está menos em descobrir uma verdade absoluta e muito mais em perceber como uma nova versão consegue alterar completamente nosso julgamento sobre os mesmos acontecimentos.
A ambiguidade, porém, não significa que todas as possibilidades tenham exatamente o mesmo peso. O filme deixa pistas suficientes para que algumas interpretações pareçam mais convincentes do que outras, e é justamente essa diferença que torna sua conclusão interessante. Em vez de simplesmente abandonar o público diante de uma resposta impossível, “Verity” oferece material para que cada pessoa reorganize mentalmente aquilo que acabou de assistir e perceba como determinadas cenas mudam de significado dependendo da versão em que decidiu acreditar.
Visualmente, o longa também supera o que seria fácil esperar de uma adaptação desse tipo. Existe cuidado real na composição das imagens, especialmente na relação entre arquitetura, natureza e isolamento. A casa é bonita o suficiente para despertar desejo e desconfortável o bastante para fazer qualquer pessoa minimamente atenta pensar duas vezes antes de passar uma noite ali. Essa contradição visual combina perfeitamente com uma história em que praticamente tudo parece atraente antes de começar a apodrecer.
A fotografia evita transformar o suspense em uma sequência previsível de ambientes escuros e utiliza a própria beleza como elemento de estranhamento. “Verity” é um filme visualmente sedutor sobre pessoas emocionalmente perigosas vivendo dentro de uma imagem de perfeição que nunca consegue esconder completamente aquilo que aconteceu naquele espaço. A estética não suaviza a violência da história e, em seus melhores momentos, torna tudo ainda mais perturbador justamente porque existe algo profundamente desconfortável em observar acontecimentos tão desagradáveis apresentados com tamanha elegância.
Para quem leu o livro, existe ainda outro tipo de tensão, porque conhecer os principais acontecimentos não elimina completamente o suspense. A expectativa passa a estar na maneira como determinadas situações serão adaptadas, quais elementos permanecerão e até onde o filme estará disposto a ir. Algumas mudanças reorganizam a dinâmica entre os personagens, mas a adaptação preserva a sensação de que alguma coisa terrível pode acontecer a qualquer momento. Essa capacidade de provocar ansiedade mesmo quando parte do público já conhece o destino da história é uma vitória considerável.
No fim, “Verity” funciona porque entende que não precisava ser uma adaptação comportada. O filme é sensual, estranho, excessivo quando precisa ser e suficientemente consciente de seu próprio absurdo para não desmontar sob o peso dele. Michael Showalter não tenta transformar Colleen Hoover em Hitchcock, embora brinque deliberadamente com códigos do suspense clássico, e também não trata o fenômeno do livro como justificativa para entregar uma adaptação automática. Há uma tentativa clara de construir uma identidade visual e tonal que pertença ao cinema.
Anne Hathaway é fundamental para que essa identidade funcione. Dakota Johnson oferece ao filme uma protagonista cuja percepção pode ser questionada sem que a personagem perca completamente nossa confiança, enquanto Josh Hartnett utiliza seu charme de maneira suficientemente ambígua para impedir que Jeremy seja reduzido a uma função romântica. Mas é Hathaway quem compreende com maior precisão a natureza deliciosamente venenosa de “Verity” e entrega uma personagem capaz de dominar o filme mesmo quando permanece imóvel, silenciosa e aparentemente incapaz de controlar qualquer coisa.
Talvez “Verity” pudesse ser mais cruel. Talvez pudesse mergulhar ainda mais profundamente no horror e permitir que algumas de suas situações alcançassem o nível de desconforto que o livro consegue provocar. Ainda assim, existe algo muito satisfatório em uma adaptação que sabe exatamente qual experiência deseja proporcionar. O filme quer provocar, seduzir, confundir e deixar o espectador desconfiado até daquilo que acabou de assistir, mas nunca esquece que precisa entretê-lo durante o processo.
“Verity” não precisa que todas as suas respostas sejam perfeitamente confiáveis porque seu verdadeiro prazer está justamente em transformar confiança em um problema. Quando os créditos chegam, a pergunta mais interessante já não é apenas o que aconteceu naquela casa, mas por que estivemos tão dispostos a acreditar em determinada versão. Para uma história construída sobre escritores, manuscritos, desejo e manipulação, dificilmente poderia existir jogo mais apropriado.
“Verity”
Direção: Michael Showalter
Elenco: Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett
Disponível em: cinemas brasileiros
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