“Vermelho Sangue” poderia ter voltado tentando controlar os excessos, organizar sua mitologia e transformar tudo aquilo que funcionou na primeira temporada em uma versão mais comportada de si mesma. Felizmente, acontece exatamente o contrário. A segunda temporada entende que o melhor caminho possível para esse universo era perder qualquer vergonha de ser grande, estranho, romântico, sensual, sobrenatural e deliciosamente exagerado. Quanto mais “Vermelho Sangue” abraça a própria identidade, mais interessante fica assistir à série.

A produção retorna ao Globoplay com uma vantagem considerável em relação ao primeiro ano: agora sabemos onde estamos pisando. Guarambá já foi apresentada, suas criaturas já deixaram de ser uma surpresa e as regras básicas desse universo foram estabelecidas. Isso permite que os novos episódios gastem menos energia explicando a existência do fantástico e muito mais tempo explorando o que acontece quando essas criaturas precisam conviver com aquilo que se tornaram. É exatamente nesse território que a segunda temporada encontra sua força.
Flora, vivida por Alanis Guillen, talvez seja a representação mais evidente dessa mudança. Sua transformação em vampira não funciona apenas como um novo elemento sobrenatural jogado sobre a personagem. Ela altera postura, comportamento, relações e até sua presença visual dentro da série. Há uma Flora diferente circulando por Guarambá, mais agressiva visualmente, mais consciente do próprio corpo e, principalmente, obrigada a descobrir como existir dentro de uma identidade que não escolheu exatamente dessa maneira.
A mudança estética acompanha esse processo sem qualquer sutileza, e isso funciona. O figurino assume referências punk e rock, escurece sua paleta, incorpora couro, meia arrastão e uma composição visual que praticamente anuncia sua transformação antes mesmo que a personagem precise verbalizá-la. “Vermelho Sangue” entende que figurino também conta história e transforma a aparência de Flora em extensão narrativa de seu novo estado.
Mas seria muito fácil transformar a personagem apenas em uma vampira visualmente interessante e encerrar o assunto. A temporada é mais esperta quando percebe que a transformação importa principalmente porque muda a maneira como Flora se relaciona com as pessoas ao seu redor.
Nesse aspecto, sua relação com Celina, interpretada por Laura Dutra, ganha ainda mais importância. O romance deixa de funcionar apenas como uma das linhas emocionais da narrativa e passa a ocupar uma posição essencial dentro da construção das personagens. Existe desejo, descoberta, conflito e uma química que não precisa ser constantemente anunciada pelo roteiro porque Alanis Guillen e Laura Dutra conseguem sustentá-la na própria dinâmica de cena. Essa química, aliás, ajuda a explicar por que a segunda temporada parece tão mais segura em suas relações.
O elenco de “Vermelho Sangue” parece finalmente completamente confortável dentro de Guarambá. Não existe mais aquela pequena sensação de atores tentando descobrir exatamente qual é o tom de uma produção brasileira que mistura fantasia juvenil, romance, suspense, ciência, vampiros e lobisomens. O universo já foi assimilado por quem está dentro dele, e essa segurança muda bastante o resultado.
Alanis Guillen ganha espaço para brincar com uma Flora transformada sem abandonar completamente aquilo que conhecemos da personagem. Letícia Vieira também encontra uma Luna mais interessante justamente porque sua jornada deixa de depender exclusivamente do mistério envolvendo sua própria natureza. A personagem precisa lidar com a transformação da amiga ao mesmo tempo em que se aproxima de uma parte de si que passou boa parte da história tentando compreender.
O reencontro com Martín, interpretado por Milhem Cortaz, e a presença de Juan, vivido por Lucas Leto, ampliam essa dimensão. A família deixa de ser somente uma informação relacionada à origem de Luna e passa a interferir diretamente na forma como ela compreende sua condição. Isso é importante porque impede que a mitologia da loba-guará permaneça estacionada no terreno da curiosidade. A criatura precisa significar alguma coisa para a personagem.
É nesse ponto que a série consegue fazer algo particularmente interessante com sua fantasia. Por trás de dentes, sangue, transformações e criaturas existe uma história profundamente interessada em identidade. Flora e Luna estão mudando de maneiras diferentes, mas ambas enfrentam uma pergunta semelhante: o que fazer quando uma nova versão de si mesma começa a ocupar espaço demais para continuar sendo ignorada?
A metáfora sobre amadurecimento está ali, evidentemente, mas “Vermelho Sangue” funciona melhor quando não tenta sublinhá-la. O fantástico já é suficientemente expressivo. Não precisamos que alguém explique que virar vampira ou descobrir sua natureza animal pode representar transformação, desejo, medo, pertencimento ou amadurecimento. Quando confia nas próprias imagens, a série encontra uma linguagem muito mais poderosa do que qualquer discurso poderia oferecer.
Existe também algo muito prazeroso na maneira como a segunda temporada decide expandir sua mitologia. A chegada de Elizabeta, interpretada por Alli Willow, abre uma nova porta para o passado dos vampiros e oferece à narrativa uma personagem capaz de deslocar as relações de poder já estabelecidas. Sua associação com Otto, vivido por Rodrigo Lombardi, coloca ciência e sobrenatural novamente na mesma mesa, agora com consequências maiores. A busca pelo sangue dos lobos e o desenvolvimento de um sérum colocam a relativa estabilidade entre essas espécies em risco e oferecem à temporada um conflito que consegue atravessar diferentes núcleos.
Essa expansão poderia facilmente transformar “Vermelho Sangue” em uma bagunça mitológica. São vampiros, lobos, experimentos, famílias, romances, alianças e interesses concorrentes circulando simultaneamente. Curiosamente, a série parece se divertir justamente nessa fronteira, e eu também entro com bastante facilidade nessa brincadeira.
Isso acontece porque existe uma diferença enorme entre uma produção que perde o controle e outra que entende o prazer do excesso. “Vermelho Sangue” está muito mais próxima da segunda categoria. A série não tem medo de parecer absurda porque compreendeu que sua personalidade mora justamente no encontro entre o absurdo e o emocionalmente verdadeiro.
Essa talvez seja uma das qualidades que mais me interessam no projeto. Fantasia brasileira ainda costuma carregar uma necessidade estranha de justificar a própria existência, como se criaturas sobrenaturais precisassem receber autorização especial para habitar nossas histórias. “Vermelho Sangue” não está interessada nisso. Guarambá existe, vampiros existem, lobisomens existem e cabe ao público simplesmente acompanhar esse universo. Obrigado por isso, inclusive, porque ninguém precisava de uma série passando metade de sua duração tentando justificar por que decidiu ser uma fantasia.
Essa confiança permite que a direção invista mais na atmosfera e na fisicalidade desse universo. A ação cresce, os encontros sobrenaturais ganham intensidade e os efeitos visuais continuam cumprindo uma função importante na construção da série. O lobo-guará, principalmente, permanece como um desafio técnico considerável para uma produção desse tipo, mas existe uma preocupação evidente em integrá-lo ao espaço e não tratá-lo apenas como um efeito colocado sobre a imagem.
Nem tudo precisa buscar realismo absoluto e, aliás, seria um erro fazer isso. O universo visual de “Vermelho Sangue” funciona justamente porque existe certa estilização atravessando cenários, figurinos, criaturas e fotografia. A série sabe que está construindo um mundo e não simplesmente tentando esconder elementos fantásticos dentro de uma realidade cotidiana.
A direção também parece compreender melhor o rosto de seus atores. Há mais confiança nos silêncios, nos olhares e na tensão física entre personagens, algo especialmente importante quando romance e desejo ganham mais espaço. A sensualidade não aparece como um elemento separado da narrativa. Ela faz parte desse processo de descoberta corporal que atravessa uma história povoada por jovens literalmente transformando seus corpos. Nesse sentido, vampirismo nunca foi exatamente uma metáfora discreta para desejo, e seria até engraçado exigir que começasse a ser agora.
A segunda temporada também ganha quando permite que suas personagens sejam contraditórias. Flora não precisa se transformar imediatamente em uma criatura perfeitamente confortável com sua nova condição. Luna não precisa reagir à transformação da amiga da maneira mais racional possível. O amadurecimento dessas personagens acontece justamente porque elas erram, resistem, desejam, rejeitam e frequentemente não sabem exatamente o que fazer com aquilo que sentem, o que oferece ao elenco um material muito mais interessante para trabalhar.
Alanis Guillen está particularmente à vontade nesse território. Existe uma transformação física em sua atuação que vai além do figurino. A postura muda, o olhar muda e a maneira como Flora ocupa o quadro ganha outra temperatura. Laura Dutra responde muito bem a essa energia, enquanto Letícia Vieira consegue preservar a vulnerabilidade de Luna mesmo quando a personagem começa a compreender melhor a força que existe dentro dela.
Rodrigo Lombardi, Milhem Cortaz, Lucas Leto e Alli Willow ajudam a ampliar a escala da narrativa sem retirar das protagonistas o centro emocional da temporada. Esse equilíbrio é importante. “Vermelho Sangue” está ficando maior, mas não pode esquecer que seu universo só funciona porque existem pessoas dentro dele pelas quais vale a pena sentir alguma coisa. E talvez essa seja a maior evolução entre as temporadas: agora existe sede de verdade.
Não apenas a sede óbvia que acompanha vampiros, sangue e criaturas sobrenaturais. Existe uma sede narrativa. A série quer conhecer melhor seu próprio universo, quer mexer nas relações que construiu, quer testar suas regras, quer apresentar novas ameaças e quer descobrir até onde Guarambá pode crescer. É uma curiosidade que acaba passando para quem assiste, porque eu também quero descobrir até onde essa história pretende chegar.
Quando uma segunda temporada termina deixando essa sensação, alguma coisa deu muito certo. Não estou assistindo apenas para descobrir quem será atacado, quem ficará com quem ou qual criatura aparecerá depois. Quero continuar porque esse universo começou a adquirir uma personalidade própria, e personalidade é justamente aquilo que nenhuma quantidade de orçamento consegue fabricar artificialmente. “Vermelho Sangue” já encontrou a sua e, principalmente, parece finalmente saber exatamente como utilizá-la.
A série tem uma estética reconhecível, um elenco cada vez mais afiado, uma mitologia que encontrou espaço para crescer e uma disposição quase insolente para assumir aquilo que é. Pode ser romântica, sangrenta, juvenil, sensual, absurda, dramática e fantástica dentro do mesmo episódio sem demonstrar qualquer interesse em escolher uma única definição.
Ainda existem caminhos que podem ser refinados. Quanto maior se torna a mitologia, maior é o risco de transformar expansão em acúmulo. Novos personagens e novas regras precisam continuar servindo às jornadas emocionais que fizeram esse universo funcionar inicialmente. A série também precisa tomar cuidado para que sua ambição crescente não coloque espetáculo acima de personagem. Até aqui, porém, existe consciência suficiente dessa relação para que o crescimento pareça orgânico. A segunda temporada não retorna apenas com mais acontecimentos, mas entendendo melhor o que existe de especial em “Vermelho Sangue”, e isso faz toda a diferença.
A produção nacional encontra no sobrenatural uma liberdade que poucas séries brasileiras recentes se permitiram explorar dessa maneira. Em vez de diminuir a fantasia para torná-la mais palatável, aumenta a aposta. Em vez de domesticar seus personagens, deixa que eles fiquem mais estranhos. Em vez de tentar parecer uma produção internacional transplantada para Minas Gerais, começa a construir uma identidade que pertence à própria série. Eu prefiro mil vezes uma produção que arrisca ser demais a uma que passa dez episódios tentando não incomodar ninguém.
“Vermelho Sangue” quer sangue, romance, criaturas, desejo, ciência, família, identidade e caos. Quer tudo ao mesmo tempo. A segunda temporada demonstra que existe espaço para tudo isso desde que haja personalidade suficiente para sustentar o exagero. Guarambá ficou maior, mais perigosa e muito mais interessante, enquanto minha sede agora é outra: quero saber até onde esse universo ainda consegue ir.
“Vermelho Sangue”
Direção: Patricia Pedrosa, Noa Bressane, Ricardo Spencer, Renata Porto d’Ave e Augusto Lana
Elenco: Alanis Guillen, Alli Willow, Bete Mendes, Heloísa Jorge, Laura Dutra, Letícia Vieira, Lucas Leto, Milhem Cortaz, Pedro Alves e Rodrigo Lombardi
Disponível em: Globoplay
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