O apocalipse chega sem sirenes heroicas, sem trilhas épicas, sem qualquer promessa de catarse. O mundo simplesmente quebra. Um erro militar transforma a Tasmânia em um cemitério em movimento, e o que começa como um desastre geopolítico logo se revela uma tragédia íntima. A verdadeira catástrofe aqui nunca foi o levante dos mortos, mas a impossibilidade de enterrar aquilo que ficou inacabado.

No centro desse cenário em decomposição está Ava, interpretada por Daisy Ridley, uma mulher que atravessa paisagens devastadas guiada por uma obsessão simples e dilacerante. Encontrar o marido. Mesmo que ele já esteja morto. Mesmo que isso custe tudo. O filme transforma essa busca em um ritual de luto em câmera lenta, onde cada corpo recuperado carrega menos a ameaça do horror e mais o peso de uma despedida que jamais aconteceu. Os mortos-vivos funcionam como resíduos emocionais que se recusam a desaparecer, materializações de uma dor que ficou sem resposta.
A proposta dialoga diretamente com a tradição de filmes como “Extermínio” e “Cargo”, que usam o gênero zumbi como lente para examinar colapsos humanos. Aqui, porém, o medo se constrói muito mais pelo som do que pela imagem. Rangidos de dentes, ossos em fricção, respirações quebradas e carne em atrito formam uma paisagem sonora quase insuportável. É um terror que invade o corpo do espectador antes mesmo de chegar aos olhos.
Zak Hilditch dirige com um senso de desconforto contínuo. Em vários momentos, a câmera parece se mover como alguém que tenta evitar olhar para o que realmente importa. A fotografia aposta em espaços vazios, horizontes abertos e construções destruídas que reforçam o isolamento emocional da protagonista. O resultado cria uma atmosfera que lembra mais um drama pós traumático do que um espetáculo de horror tradicional.
Daisy Ridley entrega talvez a performance mais intensa de sua carreira. O rosto de Ava se torna um mapa de negação, culpa, raiva e esperança. Seus olhos contam uma história que o roteiro muitas vezes prefere sugerir em silêncio, o que acaba sendo um dos maiores acertos do filme. Brenton Thwaites oferece um contraponto sólido, embora seu personagem fique aquém do potencial dramático que poderia alcançar. Já Mark Coles Smith surge como uma surpresa poderosa, trazendo para a narrativa um arco emocional que se conecta diretamente ao coração temático da obra.
Nem tudo funciona com a mesma força. O primeiro ato demora a encontrar o ritmo certo, e a narrativa por vezes parece tropeçar em suas próprias ambições simbólicas. A ausência de um horror mais explícito também pode frustrar quem espera uma experiência tradicional de zumbis. Ainda assim, essa escolha reforça o que o filme realmente quer dizer. Aqui, os monstros mais perigosos vestem o rosto da saudade e da culpa.
“We Bury the Dead” prefere a tristeza ao susto, o trauma à adrenalina. E nessa aposta arriscada, entrega um retrato melancólico sobre como a perda pode transformar pessoas em sombras de si mesmas. É um filme que escolhe ferir em vez de agradar, e por isso permanece na memória muito depois do último corpo cair.
“We Bury the Dead”
Direção: Zak Hilditch
Elenco: Daisy Ridley, Brenton Thwaites, Mark Coles Smith
Disponível em breve nos cinemas
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