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Crítica: Wet Leg, “Moisturizer”

Wet Leg voltou com “Moisturizer”, um disco que escancara as intenções da banda britânica de continuar brincando com a cartilha do pós-punk e do indie rock, mas sem parecer muito preocupada em reinventar qualquer roda. O álbum chega depois do estouro barulhento do debut autointitulado, que colocou o nome delas em várias listas de apostas, playlists hypadas e fez muito fã de guitarras suadas levantar da cadeira. Agora, o que Wet Leg oferece é quase um convite a aceitar que o caos e o desleixo proposital seguem sendo o coração do projeto.

Crítica: Wet Leg, “Moisturizer”

O disco nasce com um certo clima de piada interna. Desde o anúncio nas redes sociais, com aquela legenda “we’re so back” e a foto preguiçosa no sofá, já dava pra sacar que o espírito não ia ser muito diferente do primeiro trabalho. Existe uma postura meio blasé na maneira como o Wet Leg se apresenta, um humor torto que se reflete também na música, mesmo quando o som fica sujo, agressivo ou se contorce em linhas mais dançantes. Isso é ao mesmo tempo o charme e a limitação do disco.

“Moisturizer” não tenta enganar ninguém: ele é direto, cru em muitos momentos, e exibe um tipo de produção que abraça a aspereza como escolha estética. As guitarras vêm mais distorcidas, os graves soam mais carregados, a bateria às vezes parece gravada num quarto apertado, quase abafada, mas com um punch que faz tudo tremer do jeito certo. Esse tratamento menos polido é um dos pontos altos do álbum, porque reforça a sensação de que estamos dentro da garagem com a banda, sentindo o chão vibrar, ouvindo os gritos ecoarem de forma imperfeita.

Ao mesmo tempo, fica claro que o Wet Leg não tem lá tanta ambição de sair do lugar seguro onde se meteu. O disco é divertido, tem passagens realmente carismáticas, mas vive repetindo a mesma fórmula. O tipo de construção rítmica, o jeito debochado de cantar, o apego a estruturas que soam como uma bagunça muito bem calculada, tudo isso faz com que “Moisturizer” entregue o que se espera. O problema é justamente esse: é um álbum que raramente ultrapassa o esperado. Não há grandes surpresas, não há aquela guinada que faz o ouvinte virar o rosto e pensar que acabou de presenciar algo realmente novo.

Ainda assim, tem algo magnético nessa familiaridade. Wet Leg tem personalidade de sobra e isso aparece em cada riff que rasga o silêncio, nos vocais que brincam de deadpan, nas letras que gostam de tirar sarro do próprio drama. É um disco que dança na beira do ridículo, mas segura a mão do ouvinte com firmeza o suficiente pra ninguém cair. Dá pra sentir que existe um alívio quase infantil em fazer música assim, sem compromisso de bancar o messiânico do rock alternativo, apenas entregando uma catarse simples, meio torta, mas honesta.

O maior dilema de “Moisturizer” é que ele se mostra inteiro já nos primeiros minutos. Depois disso, fica repetindo variações do mesmo truque, como se a banda estivesse confortável demais nesse lugar de meio-termo entre o novo e o datado. O disco acaba deixando aquela sensação de que poderia ter ido além, poderia ter arriscado mais, poderia ter explorado outras cores dentro do mesmo espírito despretensioso que o Wet Leg domina tão bem.

Mesmo assim, o saldo é positivo. É um trabalho que confirma o DNA da banda, com seus grooves pontiagudos, suas letras que parecem escritas numa madrugada bêbada e sua estética meio indie de brechó. Para quem é fã de pós-punk, indie rock e gosta de sentir a guitarra rangendo nos ouvidos, o disco é praticamente um parque de diversões.

No fim das contas, “Moisturizer” é sobre o prazer imediato. É pra ser ouvido alto, de preferência rodeado de amigos que não têm medo de pular sem graça no meio da sala. É sobre sentir, rir, talvez gritar uns versos junto e depois seguir em frente sem grandes reflexões. Pode não ser o álbum mais inventivo do ano, mas cumpre bem o papel de manter o Wet Leg relevante e garante que ainda exista lenha para queimar numa próxima aventura.

Nota: 80/100

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