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Crítica: “Wicked: Parte 2” (Wicked: For Good)

Wicked: Parte II” encerra a saga com a coragem de quem entende que fantasia só funciona de verdade quando mergulha em contradições humanas. O filme assume essa responsabilidade com um senso de escala que conversa diretamente com o mito de Oz, mas também com a plateia que cresceu vendo esse universo se expandir, fragmentar e se reconstruir a cada adaptação. Aqui, o musical vira cinema de forma definitiva. A história das bruxas deixa de ser lida pela superfície e passa a ser sentida pelas rachaduras.

Crítica: “Wicked: Parte II” (Wicked: For Good)

A separação de Elphaba e Glinda nasce como um rompimento simbólico, mas Jon M. Chu transforma essa distância em linguagem. A câmera trata as duas como forças que orbitam o mesmo epicentro emocional sem tocar o chão. Glinda absorve o brilho que sempre desejou, agora instalada no coração da Cidade das Esmeraldas, convivendo com a glória que sempre imaginou ser sinônimo de realização. Elphaba, por outro lado, se recolhe à floresta como quem aceita ser lida pelo mundo como ameaça. O filme mostra que reputação e verdade raramente caminham juntas, e esse contraste é a espinha dorsal de tudo o que vem depois.

Quando a garota do Kansas surge e bagunça o sistema político e emocional de Oz, o longa abraça o inevitável: as bruxas só funcionam quando se encaram de frente. A reconexão não acontece pelo perdão fácil. Acontece porque o próprio mundo exige que elas negociem suas dores com as escolhas que fizeram. É um cinema que entende que amadurecimento é sempre um processo de retorno, nunca de fuga.

Ariana Grande assume Glinda com uma precisão que o musical nunca teve chance de explorar com tanta intimidade. A interpretação dela funciona como uma progressão emocional contínua. A personagem oscila entre o prazer de finalmente ocupar o centro da cena e a dor de perceber que esse centro foi conquistado enquanto sua amiga afundava na narrativa que Oz construiu sobre ela. O brilho é real, mas o desconforto também é. Ariana entrega uma Glinda que entende a própria fantasia como armadilha, e isso leva a personagem a um tipo de fragilidade que nunca enfraquece sua presença, só a aprofunda.

Cynthia Erivo, por sua vez, faz de Elphaba o ponto de aterramento do filme. “No Good Deed” vira o momento em que tudo respira diferente. É poderoso ver como Chu filma essa sequência. Não tenta replicar “Defying Gravity”, mas cria um equivalente cinematográfico: uma explosão emocional que entende a música como movimento de câmera, luz e intensidade vocal. É o tipo de número que transforma performance em narrativa, e Erivo domina isso com uma energia quase tectônica.

O segundo ato sempre foi o território mais espinhoso da história de “Wicked”. No cinema, esse desafio continua evidente. A estrutura corre quando deveria expandir e expande quando poderia concentrar, mas, ainda assim, há coerência no modo como Chu tenta preencher lacunas históricas do musical com respiros visuais, flashbacks e novas canções. A lógica nem sempre se fecha, mas a experiência se sustenta porque o filme entende que coerência emocional vale mais do que coerência literal.

A visita que reconfigura as forças de Oz, o preparo para o colapso, a inevitável união das bruxas e um encerramento construído para devastar. Sim, “For Good” carrega menos impacto imediato do que a versão teatral em muitos momentos, mas a sequência posterior, a cena da porta se fechando, cria um tipo diferente de ferida. É a imagem que explica tudo o que o musical sempre insinuou e nunca disse com clareza: amizade é escolha, mas separação também é.

Há quem sinta falta do espetáculo mais pop da primeira parte, mas aqui o espetáculo está na maturidade do texto, na densidade das imagens e na coragem de aceitar que finais felizes podem existir mesmo quando o caminho é torto. O filme sabe disso. O público sabe disso. E talvez Oz sempre tenha sido exatamente sobre isso.

“Wicked: Parte II” fecha o ciclo como quem entende que mitos só sobrevivem quando abraçam suas imperfeições. E poucas histórias aceitam suas sombras com tanta beleza quanto esta.

“Wicked: Parte II”
Direção: Jon M. Chu
Elenco: Ariana Grande, Cynthia Erivo, Jonathan Bailey
Disponível em: cinemas

Avaliação: 4.5 de 5.

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