Existe algo curioso acontecendo com o Deftones neste momento da história. Enquanto muitas bandas surgidas nos anos 1990 vivem de revisitar o próprio passado, o grupo liderado por Chino Moreno parece fazer justamente o contrário. Em 2026, o Deftones não soa como uma banda veterana. Soa como um projeto que ainda está descobrindo novos caminhos.

Essa energia renovada chega ao Lollapalooza Brasil com hora marcada. No dia 20 de março, das 20h10 às 21h25, o grupo assume o Palco Samsung Galaxy em um momento que mistura consagração histórica e impulso criativo. Não se trata de um show ancorado apenas em nostalgia. O que o público encontrará é uma banda em pleno movimento.
Nos últimos anos, o Deftones voltou ao centro da conversa musical. Parte disso vem do impacto de “Private Music”, o décimo álbum de estúdio lançado em 2025. O trabalho chegou após um intervalo de cinco anos desde “Ohms” e apresentou uma banda que parece confortável em revisitar sua própria identidade sem se repetir.
Produzido por Nick Raskulinecz, o mesmo nome por trás de “Diamond Eyes” e “Koi No Yokan”, o disco recupera uma fórmula que sempre definiu o grupo. Peso visceral convivendo com camadas atmosféricas quase etéreas. Faixas como “My Mind Is a Mountain” e “Infinite Source” rapidamente se tornaram pilares do repertório recente e já aparecem entre os momentos centrais do setlist atual.
Os números também ajudam a explicar a dimensão dessa nova fase. “Private Music” estreou na quinta posição da Billboard 200, marcando o sétimo álbum da banda a entrar no Top 10. Em um mercado cada vez mais dominado pelo streaming, o lançamento ainda registrou cerca de 66 mil cópias físicas vendidas na primeira semana. Um resultado raro para o rock.
Mas talvez o fenômeno mais interessante esteja fora das paradas tradicionais. Nos últimos anos, músicas como “Cherry Waves” e “Sextape” encontraram uma segunda vida entre usuários da TikTok. A estética nebulosa dessas faixas, que mistura melancolia e distorção em doses quase cinematográficas, acabou conquistando uma nova geração de ouvintes.
O resultado disso aparece diretamente nos shows. O público do Deftones hoje é uma mistura improvável de fãs que acompanharam a banda desde os anos 1990 e jovens que descobriram o grupo duas décadas depois. Poucas bandas conseguem atravessar esse tipo de renovação cultural.
A formação atual também trouxe uma dinâmica diferente ao palco. Além de Moreno, o grupo segue com Stephen Carpenter nas guitarras, Abe Cunningham na bateria e Frank Delgado nos teclados e texturas eletrônicas. Nos últimos anos, o baixo passou para Fred Sablan, enquanto Lance Jackman reforça as guitarras e backing vocals nas apresentações ao vivo. O resultado é um som mais denso, mais cheio, quase arquitetônico.
Para entender como o Deftones chegou a esse estágio, é preciso voltar algumas décadas. A banda nasceu em Sacramento, na Califórnia, ainda no final dos anos 1980. O início da história tem até um detalhe que parece roteiro de cinema. Carpenter, ainda adolescente, sofreu um atropelamento que resultou em uma indenização. Foi com esse dinheiro que comprou parte dos equipamentos que ajudaram a formar o grupo.
O primeiro disco, “Adrenaline”, lançado em 1995, colocou o Deftones dentro do movimento conhecido como nu metal. Mas a banda nunca se encaixou completamente naquele rótulo. Enquanto muitos apostavam apenas no impacto das guitarras, o grupo misturava influências de bandas como The Cure e Depeche Mode.
Essa mistura se consolidou em “Around the Fur”, de 1997, e atingiu um ponto quase mítico com “White Pony”, lançado em 2000. O disco, frequentemente apontado como a obra-prima da banda, ignorou pressões comerciais e mergulhou em um território experimental, sombrio e sensual. A crítica passou a usar um apelido curioso para definir o grupo: o “Radiohead do metal”. Foi nesse período que o Deftones conquistou um Grammy Award pela música “Elite”, consolidando sua posição como uma das bandas mais inventivas do rock.
A trajetória também teve momentos difíceis. Em 2008, o baixista original Chi Cheng sofreu um grave acidente de carro que o deixou em estado de semi-consciência por anos, até falecer em 2013. O episódio poderia ter encerrado a história da banda. Em vez disso, veio um novo capítulo. Com a entrada de Sergio Vega, o grupo lançou “Diamond Eyes” em 2010. O disco transformou luto em criação e acabou se tornando um dos trabalhos mais celebrados da carreira. Foi o primeiro sinal claro de que o Deftones tinha uma capacidade rara de renascer artisticamente.
Hoje, mais de três décadas depois do início da banda, o cenário é curioso. O Deftones soma mais de 10 milhões de álbuns vendidos, um Grammy e uma discografia que atravessa diferentes fases do rock alternativo. Ainda assim, a sensação é que o grupo continua avançando. Por isso o show no Lollapalooza carrega um significado particular. Assistir ao Deftones em 2026 não é apenas rever um clássico do rock moderno. É acompanhar uma banda que continua redefinindo o próprio som enquanto o resto do mundo tenta alcançá-la.
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