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Dez anos de “Blackstar”: o último gesto artístico de David Bowie

Texto: Ygor Monroe
7 de janeiro de 2026
em Música

Há dez anos, David Bowie lançava “Blackstar“. O álbum chegou ao mundo em 8 de janeiro de 2016, data em que o artista completava 69 anos, carregando uma força simbólica que só seria plenamente compreendida dois dias depois. Aquele álbum, silenciosamente preparado em Nova York, surgia como o último gesto artístico de uma carreira construída sobre reinvenção, risco e desconforto. Bowie partia fisicamente em 10 de janeiro, mas deixava um trabalho que jamais funcionou como epitáfio óbvio. “Blackstar” sempre se apresentou como enigma, desafio e ruptura.

Dez anos de “Blackstar”: o último gesto artístico de David Bowie

Gravado de forma discreta, longe de qualquer campanha promocional tradicional, o disco nasceu de um encontro improvável entre Bowie e a cena jazz experimental nova-iorquina. Ao lado do produtor Tony Visconti, parceiro de décadas, o músico escolheu trabalhar com Donny McCaslin, Jason Lindner, Tim Lefebvre e Mark Guiliana. A decisão de abandonar músicos associados ao rock tradicional reposicionou completamente o centro sonoro do projeto, criando um território onde jazz, art rock, música experimental e tensão rítmica convivem sem hierarquia.

“Blackstar” surge mais denso e instável do que “The Next Day”, disco que havia marcado o retorno de Bowie ao estúdio após um longo afastamento. Aqui, a sensação é de deslocamento permanente. As músicas avançam, recuam, se fragmentam e se recompõem, sempre evitando qualquer estrutura previsível. Bowie escutava Kendrick Lamar, Death Grips e D’Angelo durante o processo criativo, não por desejo de absorver tendências, mas por interesse em entender como artistas contemporâneos desorganizavam gêneros e expectativas. A inquietação sempre guiou Bowie, mesmo no fim.

A presença da morte atravessa o álbum de forma constante, ainda que jamais literal. As letras operam em múltiplos níveis, com narradores que flutuam entre o real, o simbólico e o performático. “Lazarus”, retirada do musical homônimo escrito por Bowie ao lado de Enda Walsh, funciona como um eixo emocional do disco. O personagem canta da beira do abismo, observando o mundo com ironia, lucidez e uma estranha serenidade. O impacto da canção cresceu de maneira quase brutal após a morte do artista, transformando versos em declarações abertas, ainda que o próprio Bowie tenha cultivado ambiguidades até o último instante.

Musicalmente, “Blackstar” se recusa a ser classificado. A faixa-título, com seus mais de nove minutos, transita por camadas de jazz livre, batidas eletrônicas, atmosferas ritualísticas e rupturas abruptas. A música se transforma em percurso, não em destino. Já “‘Tis a Pity She Was a Whore” reaparece em versão radicalmente reconstruída, abandonando a grandiosidade orquestral anterior em favor de um groove agressivo, quase claustrofóbico. Bowie observa o próprio catálogo, desconstrói ideias antigas e as devolve sob outra lógica.

“Dollar Days” surge como um dos momentos mais emocionalmente expostos do disco. O arranjo elegante, guiado pelo saxofone, sustenta uma letra que flerta com despedida, frustração e aceitação. Ao final do álbum, “I Can’t Give Everything Away” encerra o percurso com sintetizadores pulsantes e uma harmônica que remete diretamente ao período de “Low”. O gesto cria uma ponte clara com o passado, sugerindo transição em vez de fechamento definitivo. Bowie se despede sem entregar todas as respostas, fiel à própria trajetória.

O impacto de “★” ultrapassou o campo artístico e entrou no território cultural. Após a morte de Bowie, o disco foi reinterpretado coletivamente. Letras, vídeos, símbolos gráficos e escolhas estéticas passaram a ser lidos como pistas cuidadosamente plantadas. Tony Visconti definiu o álbum como um presente de despedida. O público, ao longo da última década, tratou a obra como um documento vivo, sempre aberto a novas leituras.

A arte da capa, criada por Jonathan Barnbrook, reforça essa ideia de ausência e mistério. O símbolo da estrela negra substitui o rosto do artista, algo inédito em sua discografia. O nome Bowie surge fragmentado, quase oculto. A identidade se dissolve, o mito se retrai, a obra permanece. Até mesmo o uso do símbolo ★ no lugar do título escrito aponta para uma comunicação mais abstrata, próxima de signos e códigos.

Com o passar dos anos, “Blackstar” consolidou sua posição como um dos trabalhos mais ousados da carreira de David Bowie. Premiado, celebrado e constantemente reavaliado, o álbum figura hoje entre os grandes registros finais da história da música popular. Poucos artistas conseguiram transformar o próprio fim em criação sem recorrer ao sentimentalismo ou à autopiedade. Bowie escolheu o risco, a estranheza e a complexidade.

Dez anos depois, “Blackstar” segue desafiando o ouvinte. Um disco que jamais busca conforto, explicações fáceis ou encerramentos óbvios. David Bowie saiu de cena como sempre viveu artisticamente: provocando, deslocando e abrindo caminhos, mesmo quando o tempo já parecia determinado.

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Temas: David BowieMúsica

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