Em janeiro de 2016, Rihanna lançou “Anti” sem avisar que aquele seria seu último álbum de estúdio por tempo indeterminado. Dez anos depois, o disco ganha um peso ainda maior. Não se trata só do oitavo trabalho de uma das maiores artistas pop do século, mas do ponto final consciente de uma trajetória construída em ritmo industrial, com lançamentos quase anuais, hits globais e uma relação constante com as expectativas do mercado. “Anti” encerra esse ciclo não como despedida anunciada, mas como um gesto silencioso de ruptura.

Até então, Rihanna operava dentro de uma lógica rara na indústria. Entre 2005 e 2012, lançou sete álbuns em um intervalo curto, moldando uma discografia eficiente, versátil e altamente radiofônica. “Unapologetic”, seu trabalho anterior, ainda dialogava com esse modelo, equilibrando R&B contemporâneo, pop de arena e temas de autonomia pessoal. O desgaste criativo, porém, já era perceptível. A própria artista passou a verbalizar a necessidade de se afastar da ideia de música feita para durar uma estação.
A saída da Def Jam e a assinatura com a Roc Nation marcam o primeiro movimento estrutural dessa virada. Pela primeira vez, Rihanna tinha controle real sobre sua obra. “Anti” nasce desse reposicionamento, com a cantora assumindo a produção executiva e se permitindo um processo fragmentado, emocionalmente instável e artisticamente menos previsível. As gravações se espalharam por estúdios nos Estados Unidos, Canadá e França, refletindo um álbum construído mais por sensações do que por cronogramas.
O som de “Anti” deixa isso claro desde os primeiros segundos. A produção abandona o brilho imediato e aposta em atmosferas densas, batidas contidas, vocais crus e uma estética que flerta com o desconforto. A primeira metade do disco se ancora em graves profundos, grooves arrastados e tensão rítmica. A segunda se dissolve em minimalismo, silêncio e intimidade. Nada ali soa apressado ou pensado para agradar o rádio, e essa decisão define o caráter do álbum.
Musicalmente, o disco transita entre pop, R&B alternativo, soul psicodélico e dancehall, incorporando elementos de trap, hip hop, industrial, country, synth-rock e doo-wop. Essa mistura funciona porque existe um eixo claro: a voz de Rihanna como centro emocional do projeto. Mais exposta, menos tratada e propositalmente imperfeita, ela se torna o principal instrumento narrativo do álbum.
As letras acompanham esse despojamento. “Anti” fala de relações afetivas sem glamour, explorando desejo, dependência emocional, frustração, controle e libertação com franqueza quase desconcertante. Em vez de declarações grandiosas, Rihanna prefere fragmentos emocionais, sentimentos mal resolvidos e confissões que soam privadas. É um disco que parece existir mesmo quando o ouvinte sente que está ouvindo algo íntimo demais.

A abertura com “Consideration”, ao lado de Sza, funciona como manifesto. A faixa estabelece o tom de independência artística e recusa às expectativas externas. “James Joint” e “Kiss It Better” aprofundam esse estado emocional instável, enquanto “Work”, parceria com Drake, surge como o ponto de contato mais evidente com o pop global, ainda assim filtrado por uma estrutura rítmica menos convencional e uma entrega vocal relaxada, distante da lógica de hits anteriores.
No núcleo do álbum, faixas como “Woo”, “Needed Me” e “Yeah, I Said It” reforçam a estética de frieza emocional e distanciamento. Já “Same Ol’ Mistakes”, releitura do Tame Impala, simboliza uma Rihanna disposta a dialogar com universos que antes orbitavam fora de sua imagem pública, sem perder identidade. O encerramento emocional vem com “Love on the Brain”, que expõe sua potência vocal em uma balada de espírito clássico, e “Higher”, gravada de forma quase improvisada, como se o registro fosse mais importante do que a perfeição técnica.
A arte do álbum reforça essa ideia de negação do óbvio. A capa criada por Roy Nachum, com a imagem infantil de Rihanna, a coroa cobrindo os olhos e o poema em braile de Chloe Mitchell, sintetiza o conceito do projeto. Ver menos, sentir mais. Ser incompreendida como escolha criativa. O visual se tornou um dos mais emblemáticos da década e ajudou a cristalizar a identidade de “Anti” como obra conceitual.
Mesmo cercado por uma campanha promocional robusta, incluindo o contrato milionário com a Samsung e uma turnê mundial de grande escala, “Anti” jamais soou como um produto moldado para métricas. A recepção crítica refletiu isso. Parte da imprensa estranhou a ausência de hits tradicionais e a estrutura pouco convencional, mas o tempo tratou de reposicionar o álbum como o trabalho mais maduro e autoral de Rihanna.
Os números ajudam a contar essa história. “Anti” liderou paradas globais, acumulou certificações de multi-platina, permaneceu 400 semanas na Billboard 200 e se tornou um dos álbuns mais longevos da história da parada, além de figurar em listas de melhores da década e rankings históricos de publicações como Rolling Stone, Billboard, Pitchfork, NME e Apple Music.
Hoje, ao completar 10 anos, “Anti” se consolida como o disco que encerrou uma era e inaugurou o hiato mais emblemático do pop contemporâneo. Um álbum que não foi pensado como despedida, mas que acabou se tornando o último registro de uma artista que decidiu sair de cena no auge. Rihanna nunca anunciou oficialmente o fim daquele capítulo. Ela simplesmente parou. E talvez essa seja a maior força de “Anti”: um álbum que ensinou que, às vezes, a decisão mais radical é o silêncio depois da verdade.
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






