O que começa como um erro cotidiano invade rapidamente um território muito mais incômodo, onde culpa, maternidade, silêncio e violência doméstica se misturam até restar pouca margem para julgamentos simples. O final da primeira temporada de “All Her Fault“ organiza o quebra-cabeça que a série espalha desde o primeiro episódio e deixa claro que o mistério nunca girou somente em torno do desaparecimento de uma criança, mas sobre quem controla a verdade quando ela finalmente aparece.
Desde o início, a narrativa conduz o público a observar Marissa Irvine sob suspeita constante. O olhar social pesa, o cansaço materno vira argumento acusatório e cada decisão da personagem parece exigir explicação. Essa construção se revela estratégica no desfecho. Quando Carrie Finch surge armada, o roteiro abandona qualquer tentativa de surpresa gratuita e assume um caminho mais cruel: a verdade chega tarde demais e cobra um preço alto demais. Carrie revela sua verdadeira identidade como Josephine Murphy, mãe biológica de Milo, desmontando toda a lógica afetiva construída até ali. O menino criado por Marissa carrega outro nome, outra origem, outra história que foi roubada ainda no berço.
A revelação central transforma Peter Irvine na peça mais perturbadora do tabuleiro. A série retira dele qualquer resquício de ambiguidade ao expor o acidente do passado e a troca deliberada dos bebês. A morte do filho biológico de Marissa nunca foi compartilhada. A decisão de seguir vivendo como se nada tivesse acontecido molda cada ação posterior do personagem. Quando Peter mata Josephine durante a luta pela arma, o gesto deixa claro que o instinto de autopreservação sempre falou mais alto do que qualquer vínculo familiar. O assassinato funciona como confirmação definitiva de sua natureza e encerra qualquer tentativa de leitura indulgente.
Marissa, por sua vez, percorre o arco mais desconfortável da série. Durante boa parte do episódio final, a personagem parece aceitar a mentira como única forma de preservar o filho que criou. Essa aparente passividade, porém, funciona como encenação narrativa. A virada acontece em silêncio, longe de confrontos explosivos. Ao explorar a alergia severa de Peter e substituir sua caneta de epinefrina por uma vencida, Marissa escolhe agir fora dos holofotes, sem discursos ou confissões públicas. O roteiro evita romantizar a decisão, mas também evita puni-la de forma direta. O gesto carrega peso moral, consequência e ambiguidade.
O detetive Alcaras surge como representante institucional desse mesmo dilema. Ele percebe as incongruências, identifica padrões genéticos e compreende o que aconteceu. Ainda assim, opta por se afastar. A escolha do personagem reforça uma das ideias centrais da série: em certos contextos, a verdade existe, mas seguir adiante com ela produz mais danos do que reparações. A decisão de encobrir oficialmente os fatos mantém Milo protegido, mas carrega um custo ético que a narrativa jamais tenta suavizar.
O encerramento aposta em uma imagem simples e poderosa. Marissa e Jenny observam os filhos brincarem, em um quadro que sugere continuidade, mas jamais absolvição. O passado permanece ali, mesmo fora de cena. A série evita finais confortáveis e se recusa a oferecer redenção plena. O que existe é sobrevivência, reconstrução possível e um silêncio carregado de consequências.
No fim, “All Her Fault” utiliza seu desfecho para reafirmar sua proposta desde o primeiro episódio. A trama fala sobre maternidade em estado de exaustão, sobre relações abusivas mascaradas de normalidade e sobre o peso desproporcional que recai sobre mulheres quando algo foge do controle. O mistério se resolve, os culpados se revelam, mas a sensação que permanece invade o espectador com força: a verdade, quando chega tarde, raramente vem acompanhada de justiça plena.
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